
Análise genética da agência científica australiana CSIRO confirmou o atum-rabilho-do-pacífico em águas de Victoria e indica que a espécie pode ser menos rara na região do que se supunha.
Dois peixes que quase entraram nas estatísticas como mais um par de grandes atuns pescados perto de uma metrópole acabaram na bancada de um laboratório de genética e mudaram o que se sabe sobre a pesca esportiva no sul da Austrália. Capturados com poucos dias de diferença, em julho de 2026, na costa de Victoria, os animais foram confirmados por DNA como atum-rabilho-do-pacífico (Thunnus orientalis), espécie nunca antes comprovada por pescadores esportivos no estado. A análise foi feita pelo CSIRO, a agência científica nacional da Austrália.
Dois peixes grandes demais para a espécie esperada
Os atuns foram fisgados por pescadores de Victoria que atuavam ao largo da baía de Western Port, em profundidades de 50 a 60 metros, a menos de 10 quilômetros da costa. Um pesava cerca de 165 kg e media 2,12 m. O outro tinha 131,6 kg e 2,02 m.
Na hora, ambos foram tomados por atuns-rabilhos-do-sul (Thunnus maccoyii), espécie muito procurada pela pesca esportiva australiana. Mas o ambassador científico do programa Tuna Champions, Jonah Yick, e o pescador experiente Dave Standing notaram características incomuns nos animais.
“O fato de esses dois peixes terem sido capturados tão próximos, literalmente à porta de Melbourne, a menos de 10 quilômetros da costa, é uma pescaria e uma história incríveis”, disse Jonah.
Como separar duas espécies quase idênticas
A distinção a olho nu é difícil. Segundo Jonah, há diferenças sutis: o comprimento da nadadeira anal e da segunda nadadeira dorsal, as marcas na pele, o formato do corpo e o tamanho médio. No primeiro peixe, o porte chamou atenção, por ser incomum no atum-rabilho-do-sul. No segundo, o que pesou foram as nadadeiras e as marcas na barriga.
Standing contatou os pescadores envolvidos e coordenou a coleta de amostras de músculo. O material foi enviado a Jonah e, depois, ao pesquisador principal Peter Grewe, geneticista responsável pelos estudos de genômica de atuns do CSIRO, em Hobart.
O que o DNA mostrou
Grewe aplicou primeiro um teste rápido de identificação de espécies de atum, desenvolvido nos laboratórios do próprio CSIRO. O resultado apontou atum-rabilho-do-pacífico nos dois casos. Uma segunda análise, com sequenciamento de nível forense, reforçou a conclusão.
“Estou extremamente confiante nesses resultados após uma análise secundária de sequenciamento de nível forense que confirmou nosso teste rápido inicial de identificação de espécie”, disse Grewe.
Segundo o CSIRO, esses são os primeiros atuns-rabilhos-do-pacífico geneticamente confirmados em capturas esportivas em Victoria, em 2026. A espécie já era conhecida em Victoria por pescarias comerciais de espinhel, mas em águas muito profundas e longe da costa.

Uma espécie que cruza o Pacífico
O atum-rabilho-do-pacífico está entre os maiores e mais potentes atuns do mundo. Pode chegar a quase 3 metros e perto de 450 kg, e é um dos peixes mais valorizados, sobretudo em restaurantes sofisticados do Japão.
É mais comum no Hemisfério Norte e também aparece em capturas esportivas na Nova Zelândia. No primeiro ano de vida, boa parte dos indivíduos atravessa o Pacífico, num percurso de mais de 8.000 km a partir das duas áreas de desova conhecidas, perto do sul do Japão: as ilhas Nansei, entre Japão e Taiwan, e o mar do Japão, entre Japão e Coreia. Alguns nadam para o sul até a Nova Zelândia, cerca de 5.000 km.
Ao amadurecer, os adultos voltam ao local de nascimento para desovar em águas quentes, de 24 a 28 °C, entre o fim de maio e o início de julho. Depois, retornam às áreas de alimentação, mais frias, na Califórnia e na Nova Zelândia.
Mais pesca, mais chance de achar o raro
Os dois peixes de Victoria ficaram bem abaixo do tamanho máximo da espécie. Para o CSIRO, a descoberta sugere que o atum-rabilho-do-pacífico pode ocorrer nas águas do sul da Austrália com mais regularidade do que se reconhecia.
Grewe lembra que os estoques de atum-rabilho-do-sul se recuperaram recentemente, o que aumentou a popularidade da pesca e o número de embarcações no sudeste australiano. Na avaliação dele, mais esforço de pesca e mais pessoas no mar podem ter elevado a chance de encontrar e capturar espécies raras.
Meses depois, pescadores ao largo de Lakes Entrance, também em Victoria, passaram a capturar muitos atuns de 130 a 217 kg. Avaliações preliminares, baseadas em características externas, indicam que também podem ser atuns-rabilhos-do-pacífico. O CSIRO analisa amostras coletadas pelo pescador Simon Webster. Segundo Jonah, mais de 150 barcos estiveram na região em um único fim de semana.
Pescadores como parceiros da ciência
O achado dependeu de uma cadeia de colaboração: pescadores reconheceram traços estranhos e organizaram a coleta, operadores de charter avisaram Jonah rapidamente e os pesquisadores fizeram a genética. “A informação de quem está na água todos os dias é inestimável para os cientistas”, disse Grewe.
“Pescadores são uma fonte enorme de conhecimento, veem coisas incomuns, contam ótimas histórias. Compartilhar essa informação e esse conhecimento entre si é algo muito humano. É como sentar em volta de uma fogueira contando histórias que passam a sabedoria de geração em geração”, disse ele.
O paralelo com a Amazônia
A história tem eco na Amazônia, onde a identificação de peixes semelhantes também é um desafio. Pirarucus, tambaquis e diversos bagres comerciais podem ser confundidos a olho nu, e ferramentas genéticas já ajudam a checar espécies em pesquisas e na fiscalização. O caso australiano mostra o valor do conhecimento de quem vive da água: pescadores ribeirinhos da região, que reconhecem diferenças sutis entre peixes, são aliados naturais de pesquisas de monitoramento.
O próximo passo é o resultado dos testes das amostras de Lakes Entrance, que dirá se o atum-rabilho-do-pacífico é visitante mais frequente de Victoria do que se imaginava. Pescadores interessados nas regras locais podem consultar as normas de pesca de atum em Victoria.
Com informações de CSIRO.
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