Barril de cerveja de 1978 que caiu de helicóptero numa fenda dos Alpes reaparece com o degelo, e a bebida ainda estava boa

Barril de cerveja de 1978 que caiu de helicóptero numa fenda dos Alpes reaparece com o degelo, e a bebida ainda estava boa
O Schwarzenstein e o refúgio Schwarzensteinhütte, nos Alpes de Zillertal, região onde o barril foi encontrado. Foto: Stefan.straub, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Nos anos 1970, abastecer um refúgio de alta montanha nos Alpes era trabalho para helicóptero. Numa dessas viagens, um barril de cerveja se soltou da carga e caiu numa fenda de geleira, sumindo no gelo. Quase cinco décadas depois, o barril reapareceu, amassado mas inteiro, e o conteúdo surpreendeu quem o provou: a cerveja ainda estava boa.

Onde o barril estava

O achado ocorreu em 2026 nos Alpes de Zillertal, cadeia de montanhas na fronteira entre a Áustria e a Itália, abaixo do refúgio Schwarzensteinhütte, conhecido em italiano como Rifugio Sasso Nero, a cerca de 3 mil metros de altitude. Quem encontrou o barril foi Daniel, funcionário da empresa de bebidas Harpf, que reconheceu a peça. A gravação na lateral trazia o ano de 1978.

O recipiente estava deformado em alguns pontos, resultado da queda e do peso do gelo, mas sem furos. O que manteve o barril escondido por tanto tempo foi a própria geleira. O que o trouxe de volta foi o derretimento dela.

O teste do especialista

O dono da empresa, Lukas Harpf, que tem formação como especialista em cerveja, abriu o barril e provou a bebida. Segundo ele, a cerveja estava impecável: o sabor, a cor âmbar e até a carbonatação continuavam bons. Harpf avalia que o líquido provavelmente nunca chegou a congelar. Se tivesse congelado, a expansão do gelo teria deformado muito mais o barril e afetado a qualidade da bebida.

Por que a cerveja resistiu

A cerveja tem defesas naturais contra micróbios. O álcool inibe boa parte dos microrganismos. A bebida é ácida, com pH geralmente entre 3,8 e 4,7. O lúpulo fornece compostos amargos que dificultam o crescimento de algumas bactérias, e o gás carbônico dissolvido, somado à pouca presença de oxigênio dentro do barril fechado, cria barreiras extras.

Isso não quer dizer que a cerveja seja estéril. Algumas bactérias e leveduras são adaptadas a esse ambiente e podem estragar a bebida. E mesmo sem micróbios, a química trabalha: com o tempo, os compostos responsáveis pelo aroma e pelo sabor se degradam ou reagem entre si, gerando gostos de papelão, caramelo ou ranço. Oxigênio e calor aceleram esse envelhecimento.

A geleira, nesse caso, funcionou como uma geladeira perfeita. Manteve o barril escuro, fechado e frio, numa temperatura próxima de zero, mas sem congelar o conteúdo. Foi a combinação ideal para retardar as reações que estragam a cerveja.

O lado preocupante da história

A curiosidade tem um fundo menos divertido. As geleiras dos Alpes estão recuando em ritmo acelerado por causa do aquecimento global, e o gelo que derrete está devolvendo objetos escondidos há décadas ou séculos. Equipamentos de escaladores, destroços de aviões e restos de soldados da Primeira Guerra Mundial, que lutaram nas montanhas entre a Itália e a Áustria, vêm sendo encontrados com frequência cada vez maior.

O caso mais famoso é o de Ötzi, o homem do gelo, achado em 1991 nos Alpes de Ötztal, também na fronteira entre Itália e Áustria. O corpo mumificado tem cerca de 5.300 anos e só apareceu porque a camada de gelo que o cobria derreteu.

O que o gelo ainda guarda

Pesquisadores que estudam a chamada arqueologia glacial alertam que o degelo abre uma janela curta para recuperar esses objetos. Quando saem do gelo, materiais como madeira, couro e tecido começam a se decompor rapidamente se não forem recolhidos. O barril de 1978 teve sorte: foi achado por alguém que sabia o que estava vendo e chegou intacto às mãos de quem podia contar sua história.

Para quem acompanha a crise do clima, a cena de um barril saindo do gelo é também um termômetro. Cada objeto que reaparece marca uma camada de gelo que não existe mais, e as previsões indicam que muitas geleiras alpinas podem desaparecer quase por completo até o fim do século se as emissões de gases de efeito estufa não caírem.

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