
Divulgada em 6 de outubro de 2025, a exploração levou o biólogo Flávio Terassini a uma estrutura amazônica ligada à megafauna extinta
Uma entrada para a Amazônia de 20 mil anos
O caminho para a paleotoca começa como uma exploração de campo, mas logo muda de escala. Ao avançar por uma abertura subterrânea no coração da Amazônia, o biólogo Flávio Aparecido Terassini encontra um ambiente quente, úmido e dividido em galerias que se prolongam sob o solo. A estrutura é atribuída à preguiça-gigante, um dos animais da megafauna brasileira que viveram na região há cerca de 20 mil anos.
A sensação descrita é a de caminhar dentro de uma marca deixada por um animal desaparecido. Em vez de observar ossos ou uma imagem reconstruída em museu, o visitante percorre o espaço físico associado à atividade de um grande mamífero extinto. As galerias subterrâneas podem ultrapassar 600 metros de extensão, transformando a exploração em uma travessia por um registro preservado no próprio terreno. A cada trecho, a paleotoca combina passado biológico, geologia e vida subterrânea atual.
O biólogo que entrou na estrutura
Terassini é biólogo e atua como professor universitário desde 2006. Também tem mestrado em Ciências pela Universidade de São Paulo e é doutorando pelo programa Bionorte. Na expedição, conhecida pelo nome Ticksman, seu objetivo principal era procurar carrapatos. A investigação desses pequenos aracnídeos levou o pesquisador para dentro de uma construção muito maior, escavada em um período remoto e ainda acessível no presente.
A busca não terminou apenas com a observação do ambiente. Durante o percurso, Terassini encontrou um amblypygi, grupo de aracnídeos de aparência incomum, com pernas longas e corpo achatado. O encontro acrescentou um elemento contemporâneo à paisagem formada pela megafauna. Enquanto a paleotoca guarda a passagem de um animal que já não existe, o amblypygi ocupa o espaço subterrâneo como parte da fauna que utiliza ambientes escuros, úmidos e protegidos.
Galerias extensas e condições difíceis
Uma paleotoca pode ser entendida como uma estrutura subterrânea associada à escavação feita por animais. No caso descrito, o tamanho das galerias sustenta a relação com a preguiça-gigante, animal de grandes proporções que integrou a fauna brasileira do passado. A extensão superior a 600 metros dá dimensão ao trabalho necessário para abrir e manter um conjunto de passagens sob a superfície. Não se trata de um pequeno abrigo isolado, mas de uma rede que pode se prolongar por centenas de metros.
Dentro da estrutura, as condições são diferentes das encontradas na superfície amazônica. O ambiente é quente e úmido, com corredores e galerias que tornam a exploração uma atividade física e de observação contínua. A ausência de luz natural modifica a percepção de distância e espaço, enquanto o formato dos túneis mantém o foco naquilo que pode aparecer no caminho. Foi nesse cenário que a procura por carrapatos coincidiu com o encontro do amblypygi e com a observação direta da paleotoca.
O que a paleotoca preserva
O valor da estrutura está na combinação entre sua dimensão e sua ligação com a megafauna. Uma preguiça-gigante não está presente para ser observada, mas a escavação atribuída a esse animal permanece como uma evidência física de sua existência e de sua interação com o ambiente. A paleotoca permite acompanhar uma parte da história natural amazônica por meio de paredes, passagens e proporções que sobreviveram ao desaparecimento de seus construtores.
Esse tipo de registro também aproxima a paleontologia do trabalho de campo. A história dos animais extintos não aparece apenas em fósseis, porque o terreno pode conservar sinais de comportamento, deslocamento e abrigo. A galeria subterrânea funciona como uma pista sobre o modo como a preguiça-gigante ocupava o espaço. Ao mesmo tempo, a presença de aracnídeos atuais mostra que uma estrutura antiga pode continuar integrada à dinâmica ecológica do presente.
Uma atribuição que exige leitura cuidadosa
A associação entre uma paleotoca e a preguiça-gigante precisa ser tratada dentro do contexto científico de cada estrutura. Túneis fósseis podem estar relacionados a diferentes animais escavadores, e a identificação depende de características como dimensões, formato e evidências encontradas no local. Por isso, a atribuição não deve ser transformada em uma certeza geral sobre todas as cavidades subterrâneas da Amazônia. Neste caso, a estrutura explorada é apresentada como ligada à preguiça-gigante.
Também é importante separar o que foi observado durante a visita do que é interpretado a partir da idade e da origem da construção. O ambiente quente e úmido, as galerias extensas e o encontro com o amblypygi pertencem à experiência de exploração. A idade estimada em cerca de 20 mil anos e a relação com a megafauna dizem respeito à leitura histórica e paleontológica da paleotoca. Essa distinção preserva a força do achado sem atribuir ao local informações que a visita, sozinha, não poderia demonstrar.
Da procura por carrapatos ao encontro com a megafauna
A cronologia da experiência começa com uma investigação direcionada a carrapatos. Terassini entra na paleotoca, percorre as passagens e observa um ambiente subterrâneo que se estende por mais de 600 metros. No trajeto, encontra o amblypygi, um animal atual que aparece em meio às marcas deixadas por uma espécie extinta. A sequência conecta duas escalas de tempo no mesmo espaço, a pesquisa biológica do presente e o registro de uma ocupação ocorrida milhares de anos atrás.
A consequência mais concreta da exploração é tornar visível uma parte da história da megafauna brasileira. A preguiça-gigante não é lembrada apenas por representações ou restos fossilizados, mas também por uma estrutura que pode ser percorrida. O túnel transforma uma informação distante, a existência de animais gigantes na Amazônia há 20 mil anos, em uma experiência espacial. O visitante não vê o animal, mas caminha pelo ambiente que a paleotoca ainda mantém aberto para a investigação.
Uma marca antiga ainda integrada ao presente
A paleotoca reúne três tempos em uma única cena. O primeiro é o período em que a preguiça-gigante teria escavado ou utilizado as galerias. O segundo corresponde à permanência da estrutura subterrânea ao longo de milhares de anos. O terceiro é o momento atual, quando um biólogo entra no local em busca de carrapatos e encontra um amblypygi. A sobreposição mostra que vestígios da megafauna podem continuar relacionados à biodiversidade viva.
A experiência de 6 de outubro de 2025 não reduz a paleotoca a uma passagem antiga. Ela apresenta o local como um ponto de encontro entre investigação, comportamento animal e história natural. Cada parede do túnel remete a uma espécie desaparecida, enquanto cada sinal de vida atual lembra que a Amazônia não é apenas um arquivo do passado. É também um ambiente em funcionamento, capaz de conservar marcas de 20 mil anos e, ao mesmo tempo, abrigar animais que seguem quase invisíveis sob a floresta.
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