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Brasil anuncia recuperação de 16,3 milhões de hectares até 2030 após mais de uma década de atraso

Brasil anuncia recuperação de 16,3 milhões de hectares até 2030 após mais de uma década de atraso
Foto: gov.br

Meta apresentada na COP17 inclui 17 ações, mas país ainda precisa superar o baixo avanço do Acordo de Paris.

O Brasil anunciou nesta terça-feira (25), durante a COP17 da Desertificação, em Ulaanbaatar, na Mongólia, a meta de recuperar 16,3 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030. O compromisso de Neutralidade da Degradação da Terra, conhecido pela sigla LDN, chega com mais de uma década de atraso e coloca o país diante de um desafio urgente: transformar uma promessa internacional em recuperação comprovada no território.

A área prevista equivale a 163 mil km², extensão próxima ao tamanho de alguns estados brasileiros. O anúncio foi feito pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, na 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.

Uma meta com 17 frentes de ação

A meta voluntária reúne 17 submetas vinculadas a políticas, planos e programas nacionais. O conjunto foi estruturado para atuar nas três frentes definidas pela Convenção da ONU: recuperar ou restaurar terras degradadas, reduzir processos de degradação que já estão em curso e impedir que novas áreas percam sua capacidade de sustentar ecossistemas e atividades produtivas.

Até 2030, o governo prevê ações de recuperação da vegetação nativa, implantação de sistemas agroflorestais e intervenções em unidades de conservação, Territórios Indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas. O plano também relaciona a recuperação do solo à conservação da água, à proteção da biodiversidade e à adaptação às mudanças climáticas.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Brasil apresentou sua meta de Neutralidade da Degradação da Terra em 25 de agosto de 2026, durante a COP17 realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia.

O tamanho declarado do compromisso

Além dos 163 mil km² destinados à recuperação e à restauração, outros 3,51 milhões de km² foram incluídos em ações de prevenção, conservação e manejo sustentável. Somadas, as áreas relacionadas às 17 submetas chegam a 3,67 milhões de km².

A diferença entre os dois grupos é importante. Recuperar uma área já degradada exige recompor a vegetação, melhorar o solo, controlar erosões e restabelecer funções ecológicas. Prevenir a degradação significa manter áreas conservadas ou adotar práticas capazes de reduzir a pressão sobre elas.

O documento oficial com a meta brasileira pode ser consultado no arquivo da Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra, disponibilizado pelo Ministério do Meio Ambiente.

O alerta deixado pelo Acordo de Paris

O anúncio ocorre enquanto o Brasil enfrenta um problema de execução. Pelo Acordo de Paris, o país se comprometeu a recuperar 12 milhões de hectares até 2030. A quatro anos do prazo, porém, recuperou menos de 300 mil hectares, segundo dados citados pelo Instituto Escolhas.

O resultado representa uma fração pequena do compromisso assumido. Também mostra que a existência de uma meta nacional, por si só, não garante recursos, coordenação entre órgãos públicos, monitoramento ou continuidade das ações em campo.

A experiência anterior é o principal ponto de atenção para a nova promessa. Sem mecanismos de acompanhamento e orçamento estável, a meta de 16,3 milhões de hectares pode repetir o baixo desempenho observado na recuperação prevista pelo Acordo de Paris.

Instituto Escolhas pede prioridade nacional

Para evitar esse risco, o Instituto Escolhas defende que o combate à desertificação seja tratado como prioridade nacional. A organização propõe a criação de uma Secretaria Nacional de Combate à Desertificação e Recuperação da Vegetação, vinculada à Presidência da República e com status de ministério.

A proposta inclui orçamento e equipe próprios. Na avaliação do instituto, uma estrutura dedicada poderia integrar políticas que hoje estão distribuídas entre diferentes áreas do governo, como agricultura, meio ambiente, recursos hídricos, desenvolvimento regional e proteção dos povos e comunidades tradicionais.

A desertificação não se limita a paisagens de areia. O processo envolve a perda de produtividade do solo, a redução da cobertura vegetal, a erosão, a escassez de água e a maior vulnerabilidade das comunidades rurais. Em um cenário de eventos climáticos extremos, áreas degradadas tendem a sofrer impactos mais severos durante secas prolongadas e chuvas intensas.

Por que a Amazônia também está envolvida

Embora o combate à desertificação seja historicamente associado ao Semiárido, a agenda tem conexão direta com a Amazônia. A degradação de florestas, campos naturais, áreas de transição e margens de rios compromete a proteção do solo, altera o ciclo da água e reduz a capacidade de os ecossistemas resistirem a incêndios e períodos de estiagem.

Nos estados amazônicos, a recuperação pode envolver áreas abertas pela ocupação irregular, pastagens degradadas, margens de cursos d’água e territórios pressionados por desmatamento, queimadas e mineração. A restauração da vegetação nativa também é relevante para proteger nascentes, reduzir o assoreamento e manter serviços ambientais usados por comunidades urbanas e rurais.

O alcance da meta, portanto, dependerá de ações adaptadas a diferentes biomas e realidades locais. Técnicas aplicadas no Cerrado ou na Caatinga não podem ser simplesmente reproduzidas na floresta amazônica, onde a escolha das espécies, o regime de chuvas, a dinâmica dos rios e os conhecimentos tradicionais influenciam o resultado.

O que precisa acontecer até 2030

O compromisso brasileiro ainda precisa ser convertido em planos operacionais, metas intermediárias e indicadores públicos. Também será necessário identificar quais áreas serão recuperadas, quais órgãos responderão por cada ação e como os resultados serão medidos ao longo dos próximos anos.

O monitoramento deve diferenciar áreas efetivamente restauradas de locais apenas incluídos em programas de conservação. A comprovação precisa considerar a sobrevivência da vegetação, a qualidade do solo, a recuperação dos recursos hídricos e a manutenção dos resultados depois da intervenção inicial.

O desafio inclui ainda garantir participação de povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e produtores rurais. Esses grupos vivem em muitas das áreas mais vulneráveis à degradação e precisam ser considerados na definição das soluções e na distribuição dos recursos.

Com a meta apresentada na COP17, o Brasil passa a ter um novo compromisso internacional de grande escala, mas a cobrança agora será por execução. Os próximos passos serão a implementação das 17 submetas, a definição de responsabilidades e o acompanhamento dos resultados até 2030.

Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

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