
Evento em Pernambuco amplifica vozes da sociobiodiversidade e saberes tradicionais na adaptação climática.
A 2ª edição da Caatinga Climate Week, realizada entre 1 e 3 de julho no agreste pernambucano, consolidou o bioma como um polo de soluções e tecnologias sociais para a crise climática. Organizado pelo Centro Sabiá em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o evento reuniu cerca de 300 pessoas, incluindo lideranças indígenas, quilombolas, agricultores familiares, ativistas e gestores públicos.
A expedição, que começou no Museu Cais do Sertão, em Recife, e percorreu diversas regiões do Agreste, teve como objetivo principal amplificar as vozes daqueles que já constroem soluções concretas a partir de seus territórios. Segundo Carlos Magno, coordenador de Mobilização Social do Centro Sabiá, o nome do evento, Caatinga Climate Week, visa a chamar atenção global para a importância estratégica do bioma.
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A coordenadora-geral do Centro Sabiá, Maria Cristina Aureliano, ressaltou a potência da Caatinga, contrastando com o imaginário popular de escassez. Ela destacou a resiliência da natureza e dos povos e comunidades tradicionais que habitam o bioma, desenvolvendo estratégias de adaptação secularmente. Rodrigo Junqueira, diretor-executivo do ISA, considerou o evento uma oportunidade de aprendizado sobre resistência e resiliência, inspirando a construção de um futuro pautado no bem viver.

Em seu segundo ano consecutivo, a Caatinga Climate Week buscou conectar saberes tradicionais, ciência, tecnologia, inovação social e justiça climática. A programação imersiva permitiu aos participantes conhecer vivências e debater em profundidade as experiências compartilhadas. O bioma, único exclusivamente brasileiro, é lar de milhares de espécies nativas, uma rica sociobiodiversidade e comunidades que adaptaram seus modos de vida e cultura às suas particularidades.
Resiliência e luta dos povos da Caatinga
Romana Kambiwá, liderança da Terra Indígena Kambiwá, localizada no sertão pernambucano, testemunhou como a crise climática exigiu a reinvenção de seu povo no manejo da terra e agricultura. Ela enfatizou a capacidade de resistência dos Kambiwá, que, apesar das estiagens, conseguiram se adaptar e sobreviver.
Antônio Crioulo, do quilombo Conceição das Crioulas, compartilhou a luta do movimento quilombola pelo direito ao território e a invisibilidade enfrentada nas discussões climáticas. Ele destacou que a regularização fundiária é inseparável do papel dos quilombolas como guardiões e protetores dos biomas, sublinhando que esse cuidado é parte integrante de seu cotidiano.

Juventude e periferia na agenda climática
Marcele Oliveira, jovem negra ativista do Instituto Perifalab e Jovem Campeã Climática da ONU para a COP30, trouxe a perspectiva da periferia. Moradora de Realengo, no Rio de Janeiro, ela descreveu como as reações climáticas evidenciaram desigualdades históricas, como a falta de arborização nas comunidades mais carentes. Segundo Marcele, a busca por um trabalho coordenado entre todos os biomas brasileiros é essencial para enfrentar a crise climática de forma eficaz.
Experiências locais de adaptação e sustentabilidade
A expedição da Caatinga Climate Week visitou diversas comunidades e projetos que demonstram a inventividade dos povos da Caatinga:
- Sítio Caru, Vertentes: A família de Dona Cilene e Seu Zé Bocão mostrou um sistema produtivo integrado, com aproveitamento máximo da água das cisternas, incluindo dessalinização e reuso de águas cinzas para irrigação agroflorestal.
- Agroflor, Bom Jardim: A Associação dos Agricultores Agroecológicos (Agroflor), com quase 30 anos de atuação, produz cerca de 300 variedades de alimentos in natura, comercializados em programas governamentais e feiras locais, com 50% da produção feminina.
- Quilombos Estivas e Castainho, Garanhuns: No Planalto da Borborema, essas comunidades quilombolas demonstram o manejo sustentável dos recursos naturais e a gestão da água em um ambiente de altitude.
- Rede Semeam, Jucati: A Rede de Sementes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco empodera agricultores como guardiões da sociobiodiversidade, resgatando saberes ancestrais e produzindo alimentos saudáveis.
- Escola dos Ventos, Caetés: Criada em 2023 por famílias agricultoras, a iniciativa articula a resistência contra os efeitos negativos das eólicas instaladas próximas às suas casas, mostrando que a transição energética deve considerar o ecossistema e o modo de vida das pessoas.
- Povo Xukuru, Pesqueira: A Terra Indígena Xukuru, com mais de oito mil indígenas, mantém a agricultura tradicional e sagrada como base de sua espiritualidade, celebrando anualmente a Mãe Tamain na Serra do Ororubá, em homenagem a Nossa Senhora das Montanhas.
- Apasa, Jataúba: No brejo da Serra do Sobrado, a Associação dos Pequenos Agropecuaristas do Semiárido Brasileiro (Apasa) desenvolve e fortalece iniciativas de convivência com o semiárido e produção de alimentos agroecológicos.
Os participantes também realizaram visitas culturais e políticas, como no Sítio Carneirinhos, em Caruaru, onde puderam conhecer as histórias das mulheres da comunidade.
Próximos passos
As discussões e experiências compartilhadas na Caatinga Climate Week servirão de base para a formulação de políticas públicas e a amplificação das demandas desses povos nos fóruns nacionais e internacionais de debate sobre clima e sustentabilidade, com foco nas próximas edições do evento e na divulgação contínua dessas soluções.
Com informações do Instituto Socioambiental.
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