Seu cachorro associa sons a formas como você: em teste com 70 cães, eles olharam para a figura redonda ao ouvir bouba e para a pontuda ao ouvir kiki

Seu cachorro associa sons a formas como você: em teste com 70 cães, eles olharam para a figura redonda ao ouvir bouba e para a pontuda ao ouvir kiki
Cão inclinando a cabeça ao ouvir um som. Foto: Reid Campbell, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

Se alguém mostrar a você duas figuras, uma arredondada e outra cheia de pontas, e perguntar qual se chama bouba e qual se chama kiki, a chance de você chamar a redonda de bouba é enorme. O fenômeno, conhecido como efeito bouba-kiki, aparece em pessoas de várias línguas e culturas. Um estudo mostra que os cães também fazem essa associação.

A pesquisa foi liderada por Eleonora Biffi, da Universidade de Parma, na Itália, e publicada na revista científica Proceedings of the Royal Society B.

Duas telas, dois sons

Participaram 70 cães de estimação. No primeiro experimento, 51 cães e seus donos fizeram quatro testes de 30 segundos cada. Na sala havia duas telas lado a lado: uma mostrava uma forma preta pontuda e a outra, uma forma preta arredondada. Caixas de som atrás das telas tocavam bouba ou kiki 15 vezes, uma a cada dois segundos.

Nos primeiros 20 segundos, os donos seguravam os cães parados diante das telas. Uma câmera filmou tudo, e um programa de inteligência artificial acompanhou a direção da cabeça de cada animal para calcular para onde olhava. Nos últimos 10 segundos, os cães eram soltos para explorar as telas e a sala.

Sem pista dos donos

Cães são famosos por ler a linguagem corporal das pessoas. Para garantir que os donos não estivessem dando dicas sem querer, os pesquisadores fizeram um segundo experimento, com 19 cães. Desta vez, os donos usavam fones de ouvido tocando música e não ouviam os sons do teste.

O resultado

Nos dois experimentos, os cães passaram significativamente mais tempo olhando para a forma arredondada ao ouvir bouba e para a pontuda ao ouvir kiki. Na fase de exploração livre do primeiro experimento, os cães também investigaram mais a forma pontuda quando tocava kiki. No segundo, não houve preferência nessa fase.

Para os autores, os resultados indicam que uma associação espontânea entre som e forma, parecida com a dos humanos, também existe em cães adultos.

De onde vem o efeito

O fenômeno foi descrito pela primeira vez nos anos 1920 pelo psicólogo alemão Wolfgang Köhler, com as palavras inventadas takete e maluma. O par bouba e kiki ficou famoso em 2001, em estudos dos neurocientistas Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard.

Uma das explicações é que sons mais suaves e arredondados na boca, como o bou, combinam com contornos curvos, e sons mais abruptos, como o ki, com ângulos e pontas. A ligação seria um tipo de correspondência entre sentidos, a audição e a visão.

Não é só coisa de humano

O resultado se soma a um conjunto crescente de estudos sugerindo que esse mapeamento entre sons e formas não é exclusivo da espécie humana. Isso interessa a quem estuda a origem da linguagem: se outros animais também associam sons a formas, a base dessa habilidade pode ser mais antiga do que a fala.

Para os donos, fica a curiosidade: o tom e o tipo de som que usamos ao falar com os cães podem carregar mais informação do que imaginamos.

Perguntas frequentes

O que é o efeito bouba-kiki?

É a tendência de associar palavras de som suave, como bouba, a formas arredondadas, e palavras de som mais abrupto, como kiki, a formas pontudas.

Cachorro entende formas?

O estudo mostra que cães relacionam sons a formas visuais de maneira espontânea, de modo parecido com os humanos.

Com informações da Universidade de Parma e do estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA