
Fóssil de Stupendemys geographicus foi escavado em quatro dias e está entre os exemplares mais bem preservados já encontrados da espécie
Uma carapaça com cerca de 1,70 metro de largura saiu do solo na região de Boca dos Patos, em Assis Brasil, no Acre. O tamanho do fóssil indica que ele pertenceu à Stupendemys geographicus, a maior tartaruga de água doce conhecida pela ciência. A estrutura está incompleta da cintura para baixo, mas preserva grande parte do casco e permite estimar que o animal chegava a quase três metros de comprimento total.
O achado integra uma expedição da Iniciativa Amazônia+10 e foi escavado por uma equipe de 16 pessoas, formada por dez pesquisadores, cinco barqueiros e uma cozinheira. A retirada do material levou quatro dias. Depois do trabalho de campo, o fóssil foi levado para o campus da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, onde passou a ser mantido para estudo e preservação.
O casco que registrou um gigante dos rios amazônicos
A carapaça é a parte superior do casco das tartarugas e funciona como uma estrutura de proteção para a região dorsal do corpo. Ela é formada por placas ósseas recobertas por escudos, resultado da integração entre elementos do esqueleto e tecidos externos. Em um animal como a Stupendemys geographicus, uma carapaça com 1,70 metro de largura representa uma escala muito acima da observada nas tartarugas de água doce atuais.
O fóssil encontrado no Acre não corresponde ao animal inteiro. A parte preservada termina antes da cintura, o que impede tratar o exemplar como um esqueleto completo. Ainda assim, a largura do casco oferece uma referência robusta para calcular o tamanho corporal. A estimativa de quase três metros considera a proporção entre a carapaça preservada e o comprimento total esperado para a espécie, que já era reconhecida por seu porte excepcional.
Uma tartaruga do Mioceno aparece milhões de anos depois
A Stupendemys geographicus viveu entre 10,8 milhões e 8,5 milhões de anos atrás, durante o Mioceno. Naquele período, as paisagens amazônicas eram diferentes das atuais, com sistemas de rios, lagos e áreas alagadas que mudaram ao longo do tempo. O registro fóssil permite acompanhar parte dessa história porque ossos e carapaças preservados no sedimento permanecem como marcas físicas de animais que ocuparam esses ambientes.
A idade também coloca o achado muito antes da formação da sociedade humana e das transformações recentes na Amazônia. Não se trata de uma tartaruga ancestral encontrada viva em um rio, mas de um animal extinto identificado por seus restos mineralizados. A comparação entre a carapaça do Acre e outros fósseis da espécie ajuda a confirmar a identidade do exemplar e a ampliar o conhecimento sobre a distribuição dos maiores quelônios de água doce já registrados.
Quatro dias de escavação revelaram parte da anatomia
O trabalho de campo exigiu retirar cuidadosamente o sedimento que cobria a carapaça, registrar a posição do material e proteger o fóssil para o transporte. A participação dos barqueiros foi parte da logística da expedição em uma região amazônica onde o deslocamento depende das condições dos rios e do acesso por embarcação. A presença de uma cozinheira também integrou a estrutura necessária para manter a equipe durante os dias de escavação.
O resultado foi um dos exemplares mais bem preservados de Stupendemys geographicus já encontrados, embora a peça permaneça incompleta. A preservação permite observar a forma geral do casco, sua largura e a organização de partes que resistiram ao soterramento e à mineralização. Em paleontologia, um fóssil não precisa estar inteiro para ser valioso: uma região anatômica bem conservada pode fornecer medidas, comparações e dados sobre a diversidade de uma espécie extinta.
O que o tamanho revela sobre o animal
O casco largo indica um corpo muito maior que o das tartarugas de água doce conhecidas atualmente. A carapaça, além de proteger órgãos internos, serve como ponto de integração para músculos e outras estruturas ligadas ao movimento. Em um animal aquático de grande porte, sua forma precisa ser interpretada junto com o restante do esqueleto, porque largura, comprimento e peso não são sinônimos. Por isso, a medida registrada no Acre é apresentada como estimativa de comprimento total, e não como pesagem direta do animal.
O tamanho também reforça a importância ecológica de grandes répteis aquáticos nos antigos ambientes amazônicos. Uma tartaruga desse porte ocupava uma posição distinta daquela ocupada por espécies menores, tanto no uso do espaço quanto na relação com alimento e abrigo. Porém, a carapaça isolada não permite definir sozinha a dieta, o comportamento ou o modo exato de vida da Stupendemys geographicus. Essas interpretações dependem da análise conjunta de dentes, mandíbulas, membros, vértebras, sedimentos e outros fósseis associados.
Do sítio em Assis Brasil ao campus em Rio Branco
A descoberta foi realizada na região de Boca dos Patos, em Assis Brasil, e envolveu pesquisadores ligados à Universidade Federal do Acre e à Universidade de São Paulo. A pesquisa foi liderada por Carlos D’Apolito Júnior e Annie Schmaltz Hsiou. A expedição recebeu apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Acre.
O achado foi divulgado pela Agência FAPESP em 28 de julho de 2025. A carapaça agora preservada em Rio Branco transforma uma medida extraordinária em evidência concreta: quase três metros de uma tartaruga que viveu milhões de anos atrás podem ser estudados a partir de um fragmento incompleto, mas excepcionalmente conservado. Na Amazônia, cada camada de sedimento pode guardar uma escala de vida que nenhum animal atual consegue repetir.
Com informações da Agência FAPESP.
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