
Método sueco usa o carbono-14 deixado pela Guerra Fria para medir quanto tempo o biocarvão realmente permanece enterrado.
Em apenas um ano de experimento, cerca de 0,35% do biocarvão misturado ao solo virou dióxido de carbono. O número vem de um estudo da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU), que encontrou uma forma inédita de acompanhar o destino desse material: usar madeira formada entre 1964 e 1967, quando o carbono-14 deixado pelos testes nucleares atingiu o pico na atmosfera. O trabalho foi publicado na revista Radiocarbon.
Um torneiro de madeira no centro da pesquisa
Para obter madeira suficiente daquele período, os pesquisadores precisaram de um profissional do ofício. Toras de abeto e pinheiro, com meio metro de comprimento, foram levadas de uma área de corte em Uppland até a SLU. Ali, os anéis de crescimento que deveriam concentrar mais carbono-14 foram identificados e marcados.
As toras seguiram para um torneiro profissional em Närke. Ele removeu primeiro toda a madeira formada depois de 1967. Depois, recolheu com cuidado a camada de pouco mais de um centímetro de espessura correspondente aos anos de interesse.
Quando a madeira foi analisada em laboratório, a quantidade de carbono-14 ficou próxima da prevista pelos cálculos teóricos. Os cavacos foram então transformados em biocarvão por pirólise, aquecimento sem oxigênio que lembra o que ocorre em um forno de carvão.
O que é o carbono-bomba
Carbono-bomba é o nome dado ao carbono-14 gerado pelas centenas de testes nucleares feitos depois da Segunda Guerra Mundial. Segundo a SLU, esses testes quase dobraram o nível de carbono radioativo na atmosfera antes de os ensaios acima do solo serem proibidos. Os níveis chegaram ao máximo em meados da década de 1960, e vestígios permanecem em materiais biológicos formados então, como madeira e ossos.

O pesquisador Erik Karltun, cientista do solo da SLU, já havia participado, há mais de 20 anos, de um estudo em que o carbono-bomba ajudou a entender a renovação do carbono em solos florestais. A ideia de aplicá-lo ao biocarvão amadureceu depois disso.
“A madeira formada nos anos de pico contém níveis de carbono-14 bem mais altos, e me ocorreu que o biocarvão produzido com essa madeira teria um ‘perfil de carbono-14’ claramente distinto do carbono do solo”, diz Karltun.
Por que medir a estabilidade era difícil
O biocarvão é visto como uma forma de melhorar o cultivo agrícola e, ao mesmo tempo, guardar carbono no solo por longo prazo. Estimativas citadas pela universidade indicam que, em escala global, seria possível armazenar carbono suficiente para compensar entre 6% e 16% das emissões anuais de CO2 causadas pelo ser humano.
O problema é que esse material se decompõe muito mais devagar que outros resíduos vegetais. Isso dificulta separar o CO2 que vem do biocarvão daquele que sai de outras fontes de carbono do solo.
“Há um grande potencial aqui, mas uma preocupação para nós é que ainda sabemos pouco sobre a estabilidade de longo prazo do biocarvão incorporado ao solo e como ele afeta a renovação de outro carbono presente na matéria orgânica do solo”, afirma Karltun.

O resultado do teste de um ano
A etapa final foi um experimento de um ano, no qual a equipe analisou o CO2 emitido por solo que recebeu o biocarvão preparado. No pico, o gás vindo do solo com biocarvão tinha cerca de 10% mais carbono-14 do que o do solo sem o material. Isso mostra uma contribuição pequena, mas mensurável, do biocarvão para as emissões.
Ao longo do ano, aproximadamente 0,35% do biocarvão foi convertido em dióxido de carbono. Segundo os autores, isso implica que pelo menos metade do material incorporado ainda estará no solo daqui a 200 anos. Ou seja, o biocarvão é bastante estável, mas não totalmente.
Segundo a Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, o método funcionou e permite produzir em grande quantidade madeira de formação natural capaz de gerar biocarvão rastreável. Karltun acrescenta que o material produzido se parece mais com o biocarvão comercial do que o usado em pesquisas anteriores.
O que isso pode significar para a Amazônia
O estudo foi feito com madeira de clima temperado e solo sueco, e não traz dados da região amazônica. Ainda assim, o tema dialoga com a realidade local: a Amazônia tem a tradição das terras pretas de índio, solos escuros ricos em carvão que a ciência estuda há décadas por sua fertilidade e por guardarem carbono. Resultados sobre a estabilidade do biocarvão ajudam a avaliar quanto desse efeito pode ser replicado em áreas agrícolas, mas a transposição para solos tropicais exigirá testes próprios.
Os próximos passos
Com base no método, o pesquisador Haichao Li trabalhará com colegas da SLU e da Universidade de Bonn, na Alemanha, para investigar melhor a estabilidade do biocarvão nos solos e como ela será afetada pelas mudanças climáticas. A expectativa é que os novos dados ajudem cientistas e formuladores de políticas a avaliar o potencial do material no combate ao aquecimento global.
O artigo, assinado por Haichao Li e colegas, está publicado na Radiocarbon (DOI: 10.1017/rdc.2026.10247).
Com informações de Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU).
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