Animais podem ter surgido 200 milhões de anos antes dos fósseis mais antigos, sugere novo estudo

Animais podem ter surgido 200 milhões de anos antes dos fósseis mais antigos, sugere novo estudo
Foto: Museum of Natural History, University of Oxford / Mighty Fos

Análise por relógio molecular coloca a origem do reino animal entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás.

Antes de existir qualquer fóssil reconhecível de animal, a Terra pode já ter abrigado os primeiros representantes desse reino. Um estudo publicado em 2 de outubro de 2026 na revista Science Advances usou análise por relógio molecular para estimar que os animais surgiram entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás, até 200 milhões de anos antes dos registros fósseis mais antigos atualmente aceitos.

A conclusão não apresenta um fóssil novo nem prova definitiva de que animais já viviam naquele intervalo. O resultado é uma estimativa baseada em modelos evolutivos e recoloca uma pergunta central para a paleontologia: por quanto tempo a vida animal pode ter existido sem deixar marcas preservadas nas rochas?

Uma história que pode começar antes da primeira evidência

Até agora, a evidência fóssil mais antiga de animais era datada de aproximadamente 574 milhões de anos, no período Ediacarano, que durou de 635 milhões a 538 milhões de anos atrás. Esse intervalo reúne alguns dos primeiros sinais conhecidos de organismos multicelulares complexos.

O novo trabalho propõe olhar além dessa janela. Os autores argumentam que o registro geológico é incompleto e que a ausência de fósseis em determinadas rochas não equivale necessariamente à ausência de animais. Um organismo pode não fossilizar, o sedimento pode não ter favorecido a preservação ou os locais certos ainda podem não ter sido encontrados.

Segundo a University of Oxford, o estudo publicado em 2 de outubro de 2026 na revista Science Advances sugere que a origem dos animais pode recuar para o intervalo entre 800 milhões e 700 milhões de anos atrás.

Como o relógio molecular calcula o passado

O relógio molecular é uma ferramenta que compara diferenças acumuladas no material genético de espécies atuais. A lógica é que mutações se acumulam ao longo das gerações. Ao medir essas diferenças e combinar os resultados com fósseis usados como pontos de referência, os pesquisadores estimam quando dois grupos compartilharam um ancestral comum.

Esse método não funciona como um calendário perfeito. A velocidade das mudanças genéticas pode variar entre linhagens e depende das escolhas feitas no modelo. Por isso, a data calculada é apresentada como uma faixa provável, não como uma certidão de nascimento do reino animal.

No caso analisado, a estimativa amplia o intervalo entre o surgimento dos animais e a primeira evidência fóssil reconhecida. A diferença pode chegar a 200 milhões de anos, um período longo o suficiente para incluir transformações ambientais e evolutivas que ainda não aparecem de forma clara na documentação geológica.

O que as rochas preservaram, e o que pode ter ficado de fora

Uma das referências usadas nas discussões sobre a origem animal é a biota de Weng’an, na China, com depósitos de cerca de 590 milhões de anos. O local é conhecido por preservar organismos microscópicos com qualidade incomum, mas não apresenta fósseis considerados definitivamente animais para aquela fase.

Esse contraste ajuda a explicar o problema. Mesmo rochas excepcionalmente bem preservadas podem registrar apenas uma parte da comunidade que existia no ambiente. Organismos pequenos, de corpo mole ou sem estruturas resistentes têm menos chance de atravessar milhões de anos e chegar até os pesquisadores.

O estudo também considera um cenário em que os primeiros animais teriam aparecido durante o Neoproterozoico, era que se estendeu de 1 bilhão a 539 milhões de anos atrás. Parte desse período foi marcada por algumas das glaciações mais intensas da história do planeta. A hipótese levanta a possibilidade de que a vida animal tenha começado em condições muito diferentes das encontradas nos ecossistemas atuais.

A lacuna entre evolução e fóssil

Para a paleontologia, a questão não é apenas encontrar o fóssil mais antigo. Também é compreender por que a evidência aparece tão tarde em relação às estimativas genéticas. O intervalo entre a origem de um grupo e sua primeira preservação pode esconder mudanças importantes na anatomia, no comportamento e no ambiente dos organismos.

“Até que essa evidência se torne disponível, a data precisa do nascimento do reino animal permanece incerta”, afirmou Ross Anderson, coautor do estudo e professor associado de história natural da University of Oxford.

A declaração resume o limite principal do trabalho. Os modelos indicam uma possibilidade sustentada por padrões genéticos e pelo conhecimento sobre a preservação de fósseis, mas ainda não substituem uma evidência direta. Para confirmar a hipótese, seria necessário encontrar fósseis do Neoproterozoico que possam ser identificados sem dúvida como animais ou obter novos dados capazes de testar o modelo.

Por que a hipótese interessa à Amazônia

A discussão também tem relação com a Amazônia em sentido geológico e biológico. A região reúne áreas formadas por terrenos muito antigos, além de uma diversidade atual que resulta de uma história evolutiva extensa. Pesquisas sobre a origem dos animais ajudam a estabelecer a escala de tempo em que essa história começou, mesmo quando o estudo não aponta um sítio amazônico específico.

Para pesquisadores que investigam rochas antigas, a proposta reforça a importância de procurar sinais de vida em períodos anteriores ao Ediacarano. No Brasil, esse tipo de investigação pode contribuir para interpretar terrenos antigos da Amazônia e de outras regiões, desde que sejam encontrados materiais preservados e com características suficientes para sustentar uma identificação científica.

O ponto central é que uma mudança na data estimada não altera apenas um número. Ela modifica o intervalo disponível para a evolução dos animais e pode orientar novas buscas por evidências em rochas que, até agora, foram tratadas como anteriores ao surgimento desse grupo.

O que ainda precisa ser demonstrado

Os autores não afirmam que a origem animal já foi localizada com precisão. O estudo sugere uma janela temporal mais antiga, mas a própria equipe reconhece que a ausência de fósseis inequívocos mantém a questão em aberto. Também será necessário comparar o resultado com outros modelos de relógio molecular e com novos achados geológicos.

As próximas etapas dependem, portanto, de duas frentes: melhorar as estimativas genéticas e ampliar a busca por sinais preservados em rochas do Neoproterozoico. Esses trabalhos poderão confirmar, reduzir ou deslocar novamente a idade proposta para os primeiros animais.

Com informações de University of Oxford.

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