
Há cerca de 40 anos, quando não existiam GPS nem celular, o biólogo norte-americano Roy Funch começou a percorrer as serras da Chapada Diamantina, na Bahia, guiado por garimpeiros, em sua maioria homens negros que passavam os dias atrás de diamantes. Ele anotava nomes de lugares, caminhos e abrigos. Décadas depois, esse trabalho virou um mapa arqueológico digital com mais de 700 achados ligados ao garimpo manual.
O mapa está disponível gratuitamente no site da Fundação Chapada Diamantina e funciona em qualquer aparelho com Google Maps. Cada tipo de vestígio aparece em uma cor. Ao clicar em um ponto, o usuário vê fotos e informações como altura e largura das estruturas, em português e em inglês.
Tocas, casas de pedra e trilhas
Os achados incluem as tocas, abrigos construídos pelos garimpeiros sob formações rochosas, onde passavam dias ou semanas longe das vilas, além de casas de pedra, ruínas, muros e caminhos usados para levar cascalho e mantimentos. Um exemplo é a Toca de Laudelino, abrigo erguido sob a formação rochosa de Campo Alegre, em Lençóis, abandonado por volta de 1962, segundo o acervo da fundação.
Funch, hoje com 77 anos, chegou ao Brasil nos anos 1970. Começou querendo apenas desenhar um mapa da serra. Os garimpeiros ajudaram a dar nome aos lugares, e com a chegada do GPS o projeto cresceu. O volume de informação tornou o papel inviável, e a solução foi a versão digital. O mapa continua aberto: qualquer pessoa pode sugerir novos pontos por um formulário, com fotos georreferenciadas, que o próprio Funch avalia.
150 anos de diamante
O garimpo na Chapada começou em 1844, com a descoberta de diamantes em Mucugê. A região virou um dos maiores polos de pedras preciosas do mundo e deu origem a cidades históricas como Lençóis e Andaraí. Por cerca de 150 anos, foi o garimpo que moldou a arquitetura, a cultura e a economia local, atraindo milhares de aventureiros, até entrar em declínio com a escassez das pedras e a concorrência internacional.
Funch participou das articulações que levaram à criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, e foi o primeiro diretor da unidade. A extração dentro do parque foi proibida em 1996, para proteger nascentes de rios importantes da Bahia e uma fauna e flora ainda pouco conhecidas dos riscos de poluição e contaminação ligados ao garimpo. Em 2026, o governo baiano decretou como área protegida também a Serra da Chapadinha.
Da paisagem à história
As trilhas, grutas e vilas de garimpeiros viraram atrativo turístico. Para guias e condutores, o mapa transforma uma estrutura de pedra no meio do caminho em parte de uma história. Na Cachoeira do Sossego, no Parque da Muritiba e no Mixila, por exemplo, os vestígios do garimpo aparecem com frequência.
Há condutores que são netos de garimpeiros e passaram a usar o mapa para conhecer melhor os lugares por onde já levavam visitantes. Em vez de mostrar a Chapada só como um destino de cachoeiras, passam a contar como aquele território foi ocupado e transformado.
Um patrimônio que estava se perdendo
Muitos dos garimpeiros que guiaram Funch já morreram, e os nomes dos lugares corriam o risco de sumir junto com quem os conhecia. Ao reunir fotografias, medidas e localização, o mapa registra uma arqueologia recente, do trabalho manual que sustentou a região por um século e meio.
O mapa não substitui o conhecimento de quem percorre as trilhas. Em áreas de serra, a recomendação é sempre caminhar com condutores credenciados.
Perguntas frequentes
Onde acessar o mapa do garimpo da Chapada Diamantina?
No site da Fundação Chapada Diamantina, de graça, na versão digital que abre no Google Maps.
Quando acabou o garimpo na Chapada Diamantina?
O garimpo entrou em declínio ao longo do século 20 e foi proibido dentro do Parque Nacional em 1996.
Com informações da Fundação Chapada Diamantina.
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