Em Belém, 80 países apoiam coalizão inédita pelo fim dos combustíveis fósseis enquanto COP30 retoma mapa global para transição climática

Em Belém, 80 países apoiam coalizão inédita pelo fim dos combustíveis fósseis enquanto COP30 retoma mapa global para transição climática
Ilustração: Revista Amazônia

Representantes de 24 países lançaram o movimento em 18 de novembro, mas o texto da COP30 ainda trata a proposta como uma opção.

Coalizão é lançada durante a COP30 em Belém

Representantes de 24 países ocuparam a coletiva de imprensa em Belém, no Pará, para anunciar uma articulação internacional pelo abandono do uso de combustíveis fósseis. O lançamento ocorreu na tarde de 18 de novembro de 2025, durante a 30ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP30. Alemanha, Colômbia, Reino Unido e Quênia estavam entre os países presentes. A proposta recebeu o nome de coalizão e também foi descrita como um “mutirão” pela presidência brasileira da conferência.

O movimento foi apresentado como inédito na história das Conferências do Clima. Embora 24 países tenham participado diretamente da apresentação, o apoio à ideia já chegava a 80 nações, segundo levantamento de organizações da sociedade civil brasileira. O número representa adesão política à construção de um Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, mas não equivale, por si só, a um acordo final sobre datas, etapas ou regras para a transição. A coalizão nasce, portanto, como uma frente de pressão e coordenação em torno de um tema que avançou lentamente nas negociações oficiais.

Mapa do Caminho tenta transformar promessa em ação

Tina Stege, enviada climática das Ilhas Marshall, afirmou que a construção do Mapa do Caminho é uma resposta urgente dos países envolvidos. O objetivo apresentado é acelerar a implementação de metas climáticas alinhadas ao limite de 1,5ºC e fortalecer iniciativas que já existem nas negociações internacionais. As Ilhas Marshall, uma nação insular da Oceania, convivem com a ameaça da elevação do nível do mar, o que levou Stege a defender uma linguagem mais firme para o compromisso.

Na avaliação da enviada climática, a melhor oportunidade para avançar está no chamado Pacote Mutirão, texto conduzido pela presidência da COP30. Ela criticou a referência aos combustíveis fósseis no rascunho divulgado naquela manhã, porque a formulação aparecia como uma possibilidade, e não como uma convocação clara à ação. A coalizão foi lançada justamente para tentar fortalecer esse trecho antes do resultado final da conferência. A iniciativa busca levar ao texto negociado uma orientação mais direta sobre a transição, sem apresentar ainda um cronograma internacional fechado.

Decisão de Dubai voltou ao centro da negociação

A expressão “transicionar para longe dos combustíveis fósseis” entrou pela primeira vez em um texto negocial na COP28, realizada em Dubai, dois anos antes do encontro de Belém. Até então, décadas de Conferências do Clima haviam tratado da crise climática sem registrar essa formulação em um documento de negociação. O avanço, contudo, não prosseguiu na conferência seguinte, realizada no Azerbaijão. A ausência de evolução deixou o tema novamente dependente de pressão política e de articulações entre países.

Desde o início da Cúpula de Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes do governo federal mencionaram a necessidade de retomar o assunto iniciado em Dubai. Lula conclamou as nações a agir nesse sentido em quatro ocasiões diferentes, defendendo soluções concretas para a descarbonização das economias. A menção ao tema reapareceu no rascunho da Decisão de Mutirão, também chamado de Pacote Mutirão. A coalizão lançada em 18 de novembro passou a funcionar como uma forma organizada de sustentar essa retomada dentro da COP30.

Países produtores de petróleo são o principal ponto de resistência

Para Irene Velez Torres, ministra de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, os países produtores de petróleo precisam reconhecer a mudança defendida pela coalizão. Segundo ela, essas nações estão entre as principais responsáveis pelo bloqueio das negociações internacionais sobre o fim dos combustíveis fósseis. A ministra afirmou que a sociedade espera um resultado claro, capaz de convocar os governos à eliminação progressiva do uso desses combustíveis. A declaração expõe a disputa política que acompanha a tentativa de transformar a referência de Dubai em uma orientação mais firme.

O lançamento do Mapa do Caminho e a adesão anunciada por 80 países ampliam o peso do pedido feito pelo governo brasileiro, segundo Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. Ainda assim, o texto em discussão na COP30 permanecia descrito como uma opção, e a própria coalizão defendia seu fortalecimento. A diferença entre apoio político e decisão negociada continua sendo central para o desfecho. O encontro de Belém recolocou o fim dos combustíveis fósseis no centro da agenda, mas o passo seguinte depende de como os países transformarão esse chamado em linguagem aceita no acordo climático.

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