
Em julho de 2015, a revista Science publicou a descrição de um fóssil que parecia resolver um dos grandes mistérios da evolução: de onde vieram as cobras. O animal, batizado de Tetrapodophis amplectus, tinha corpo longo de serpente, mas conservava quatro patinhas. Vinha da Formação Crato, na Chapada do Araripe, no Ceará, e tinha cerca de 113 milhões de anos. Uma década depois, ele continua sendo um dos fósseis mais discutidos do mundo, por razões científicas e também legais.
O que dizia o estudo original
A descrição foi feita pelos paleontólogos David Martill, da Universidade de Portsmouth, Nicholas Longrich, da Universidade de Bath, ambas no Reino Unido, e Helmut Tischlinger, da Alemanha. Segundo eles, o animal tinha o plano de corpo de uma cobra, com tronco alongado, cauda curta e escamas largas na barriga, típicas da locomoção serpentiforme, mas mantinha membros pequenos e preênseis.
O crânio e as proporções do corpo indicavam um animal escavador. Para os autores, isso sugeria que as cobras evoluíram de ancestrais que viviam em tocas, e não de répteis marinhos, como outra hipótese defendia. Dentes em forma de gancho, uma coluna flexível capaz de apertar presas e restos de um vertebrado no estômago indicavam que a cobra já era carnívora. As patinhas, adaptadas para agarrar, poderiam segurar presas ou servir na reprodução.
A reviravolta
Desde a publicação, outros pesquisadores reexaminaram o fóssil. Um estudo liderado pelo paleontólogo Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, no Canadá, e divulgado em 2021, concluiu que o Tetrapodophis não seria uma cobra, mas um lagarto aquático de corpo alongado, parente dos dolicossauros, um grupo extinto ligado aos mosassauros. Para esse grupo, detalhes do crânio, dos dentes e da forma como a rocha se partiu ao meio levaram à interpretação errada.
O debate não foi encerrado. Parte dos cientistas continua considerando o animal um parente próximo das cobras, e outra parte o vê como um lagarto que desenvolveu corpo de serpente de forma independente. A dúvida mostra como é difícil interpretar fósseis pequenos e delicados, e também por que o acesso dos pesquisadores ao exemplar original é tão importante.
O fóssil que saiu do Brasil
A outra polêmica envolve o caminho do fóssil. O Tetrapodophis está numa coleção particular na Alemanha, e não há registro de autorização oficial para sua saída do Brasil. Desde 1942, a lei brasileira considera os fósseis bens da União, e a exportação exige autorização. Cientistas brasileiros criticaram a publicação de um exemplar sem participação de pesquisadores do país e sem garantias de que ele estaria acessível a outros estudos. Com o tempo, o acesso ao fóssil ficou restrito, o que dificultou novas análises.
O caso se tornou um dos exemplos citados no debate sobre o colonialismo científico na paleontologia, ao lado do Ubirajara jubatus, outro fóssil da mesma região que estava num museu alemão e foi devolvido ao Brasil em 2023, depois de uma campanha que mobilizou pesquisadores e o público nas redes sociais.
A Chapada do Araripe, um tesouro
A Bacia do Araripe, entre Ceará, Pernambuco e Piauí, é um dos depósitos de fósseis mais importantes do mundo. Suas rochas preservam peixes, pterossauros, dinossauros, insetos, plantas com flores e até tecidos moles com detalhes raros. A Formação Crato, de onde veio o Tetrapodophis, é famosa justamente pela preservação de animais delicados, como libélulas, aranhas e penas.
A região abriga o Geopark Araripe, reconhecido pela Unesco, e o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, que reúne parte desse acervo. Pesquisadores e moradores defendem que os fósseis fiquem na região para estimular a ciência, o turismo e a economia local.
O que se sabe hoje sobre a origem das cobras
Independentemente do Tetrapodophis, outros fósseis ajudam a contar a história. Cobras com patas traseiras pequenas, como a Najash, da Argentina, mostram que as primeiras serpentes conservavam vestígios de membros. A ideia de uma origem ligada a animais escavadores ganhou força com esses achados, e a América do Sul segue no centro da investigação, com vários dos fósseis mais importantes sobre a evolução das cobras.
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