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Corrupção e crime: Rota do combustível alimenta mineração ilegal no Nanay

Corrupção e crime: Rota do combustível alimenta mineração ilegal no Nanay
Foto: es.mongabay.com

Um esquema complexo utiliza rios amazônicos para suprir 60 focos de mineração ilegal, revelando falhas na fiscalização e ameaças ambientais na Amazônia Peruana.

Embarcações carregadas com combustível partem diariamente de pontos estratégicos em Iquitos e Nauta, no Peru, para alimentar as dragas que operam na parte alta do Rio Nanay. Essa rede complexa sustenta cerca de 60 focos de mineração ilegal de ouro, revelando um investimento diário de aproximadamente 50 mil dólares em petróleo, segundo dados coletados. A ineficácia da fiscalização fluvial, realizada pela Marinha e Polícia, é ressaltada diante da audácia das redes criminosas.

Uma investigação aprofundada revelou a rota e os mecanismos empregados para o transporte ilegal de grandes volumes de diesel, desde o Rio Itaya até os pontos de extração mineral no Nanay. As redes de mineração, atuando com táticas sofisticadas, adaptam embarcações para ocultar os recipientes de combustível e utilizam rotas clandestinas para evitar inspeções.

A Rede Clandestina de Abastecimento

Todos os dias, no rio Itaya, em Iquitos, dezenas de bidões, muitos com capacidades acima de 50 galões, são abastecidos em quinze postos flutuantes. Estas estruturas, improvisadas ou permanentes, são o primeiro elo de uma cadeia criminosa. Segundo a matéria, após o abastecimento, os bidões são ocultados em compartimentos secretos ou em estruturas soldadas aos cascos dos barcos, conhecidas como ‘caletas’ ou ‘jaulas’.

Desde esses pontos, as embarcações partem em direção ao norte. Um dos destinos é o porto San Francisco, no coração do povoado de Belén, onde o diesel é redistribuído para embarcações maiores que seguirão para o Alto Nanay. Mongabay Latam constatou que, tanto de dia quanto de noite, a mineração ilegal se abastece de petróleo em diversas zonas de Iquitos e na cidade vizinha de Nauta.

O Impacto Devastador no Alto Nanay

“O que requer o transporte fluvial e a geração de eletricidade na zona é muito menor do que o que se move para dar energia aos motores das dragas. Isso é claríssimo”, ressalta Juan Luis Dammert, coordenador territorial da iniciativa Amazônia Resiliente e Justa de Grade, um centro de pesquisa dedicado a temas ambientais educativos e sociais.

A Coordenadoria de Comunidades Nativas e Camponesas da Bacia do Nanay (Conaccunay) identificou aproximadamente 60 focos ativos de mineração ilegal no Alto Nanay, uma região de densa floresta que abriga 29 comunidades camponesas e quatro comunidades indígenas ikitu. Os dirigentes da Conaccunay registram pelo menos 48 dragas e nove ‘tracas’ (grandes estruturas de ferro) em constante operação de extração de ouro, perpetuando a destruição ambiental.

Corrupção e crime: Rota do combustível alimenta mineração ilegal no Nanay
Foto: es.mongabay.com

Dados da Fiscalização Especializada em Matéria Ambiental de Loreto indicam que um bidão de 50 galões de combustível chega a custar 2800 soles (aproximadamente 823 dólares) no Alto Nanay. Uma draga consome, em média, essa quantidade em apenas 20 horas de operação. Com 60 máquinas ativas, as quadrilhas de mineração ilegal gastam cerca de 168 mil soles (49.400 dólares) por dia apenas em combustível. Segundo a Conaccunay, as bandas de mineração ilegal no Alto Nanay investem aproximadamente 49.400 dólares diários em combustível em 2026.

Entenda o caso: A condenação do Rio Nanay

O Rio Nanay, um afluente do Amazonas, é conhecido por suas águas negras ricas em taninos, resultantes dos solos de areia branca da região. No entanto, a intensa atividade de mineração ilegal tem alterado drasticamente sua paisagem, tornando o curso d’água turvo e pantanoso. As comunidades locais, especialmente os povos indígenas ikitu, sofrem diretamente com a degradação ambiental e a ameaça constante das atividades criminosas.

Falhas na Fiscalização e Rotas de Fuga

Apesar da atuação da Marinha e da Polícia, a fiscalização nos rios amazônicos é insuficiente. Arquímedes Arirama, dirigente da Conaccunay, afirma: “Não há presença de nenhuma autoridade por essas rotas. Ninguém revisa. Muitos bidões com combustível cruzam a todo momento”.

As redes criminosas exploram rotas mais longas e dispendiosas para desviar dos postos de controle. Uma tática comum é o ‘formigamento’, onde três embarcações separadas transportam pequenas quantidades de combustível (abaixo do limite legal de 55 galões para transporte sem autorização) para abastecer uma única draga. Esta estratégia permite que o fornecimento seja contínuo, a qualquer hora do dia.

O Osinergmin (Orgão Supervisor do Investimento em Energia e Mineração) do Peru, entre 2015 e 2025, aplicou mais de 480 procedimentos sancionatórios a postos, incluindo os flutuantes, na região de Loreto, principalmente por violações de normas de segurança e obrigações comerciais. A Marinha também detectou postos flutuantes não autorizados e com documentação vencida em Iquitos e Nauta, evidenciando um cenário de ilegalidade amplamente disseminado.

Ex-Autoridades Envolvidas

A teia de corrupção atinge até ex-autoridades. Entre março e abril de 2021, o ex-prefeito provincial de Putumayo, Golber Java, adquiriu 1200 galões de combustível de uma estação de serviço em Iquitos com o destino às dragas do Alto Nanay. Ele está sendo processado por financiamento de mineração ilegal. “Já não o faz o ‘Tio Golber’ porque tem sentença, mas segue acontecendo com outros donos de dragas”, relata ‘Tomás’, um agricultor local, sob pseudônimo por segurança.

Corrupção e crime: Rota do combustível alimenta mineração ilegal no Nanay
Foto: es.mongabay.com

Mariano Castro, ex-vice-ministro de Gestão Ambiental, alerta para a necessidade de coordenação interinstitucional e políticas públicas mais eficazes para frear a mineração ilegal. A situação atual aponta para o aprofundamento das investigações e a busca por soluções que combatam não apenas as operações na ponta, mas toda a cadeia de suprimentos e financiamento que as sustenta.

Perguntas Frequentes

O que é o ‘formigamento’ na mineração ilegal?

É uma tática usada por mineradores ilegais para burlar a fiscalização, transportando pequenas quantidades de combustível em múltiplas embarcações para abastecer uma única draga, evitando limites legais de volume.

Quantos focos de mineração ilegal existem no Alto Nanay?

A Coordenadoria de Comunidades Nativas e Camponesas da Bacia do Nanay (Conaccunay) identificou cerca de 60 focos de mineração ilegal ativos na região do Alto Nanay.

Qual o impacto ambiental da mineração ilegal no Rio Nanay?

A mineração ilegal causa a turbidez das águas do rio Nanay, altera seu ecossistema natural e polui com resíduos tóxicos, afetando diretamente a flora e a fauna e ameaçando as comunidades ribeirinhas.

Com informações de Mongabay Latam.

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