Condor percorre o céu gastando 79% menos energia que cisne e muda ranking do transporte animal

Condor percorre o céu gastando 79% menos energia que cisne e muda ranking do transporte animal
Foto: card-bill-154738704.html\"},\"clickThroughUrl\":{\"url\":\"h

Estudo com 50 espécies mostra que ventos e correntes ascendentes podem tornar o voo mais econômico que nadar.

Um condor-andino de cerca de 11 quilos consegue percorrer cada milha gastando aproximadamente um quinto da energia usada por um cisne trombeteiro de peso semelhante. A diferença está menos no corpo dos animais do que no modo como eles usam o céu: enquanto o condor aproveita correntes ascendentes e quase não bate as asas, o cisne precisa manter o movimento durante praticamente todo o trajeto.

Essa comparação está no centro de um estudo internacional publicado na revista Science em 15 de outubro de 2026. Ao observar aves e morcegos em ambiente natural, os pesquisadores concluíram que o voo pode ser o meio de transporte mais econômico para animais, contrariando a classificação tradicional que coloca a natação em primeiro lugar.

Segundo o estudo publicado na revista Science, o condor-andino apresentou custo de transporte 79% menor que o cisne trombeteiro em deslocamentos comparáveis, porque aproveita a energia produzida pela atmosfera.

O céu deixou de ser apenas o caminho

Durante décadas, a comparação entre nadar, voar e correr foi baseada principalmente em experimentos de laboratório. Nesses testes, animais nadam em tanques, voam em túneis de vento ou correm em esteiras. O resultado costuma indicar que nadar exige menos energia, seguido pelo voo, enquanto correr aparece como a alternativa mais cara.

O problema é que o laboratório retira da equação justamente o elemento que pode mudar tudo para um animal voador: a atmosfera. Na natureza, ventos de cauda ajudam no deslocamento, ventos contrários aumentam a resistência e colunas de ar quente permitem que determinadas espécies ganhem altitude sem gastar energia continuamente.

A pesquisa foi coordenada por cientistas do Max Planck Institute of Animal Behavior, na Alemanha, e da Swansea University, no Reino Unido. O trabalho reuniu dados de 17 anos de rastreamento por GPS e acelerômetros de 850 aves e morcegos, pertencentes a 38 espécies. Também foram incorporados quatro anos de dados de radar, abrangendo 12 classes de tamanho de animais voadores menores.

Como os pesquisadores calcularam o gasto

O acelerômetro registra os movimentos do corpo e ajuda a diferenciar o voo com batimento intenso das asas daquele baseado no planeio. O GPS indica o caminho percorrido. Ao combinar essas informações com dados sobre vento e correntes ascendentes, a equipe estimou quanto tempo cada animal passou batendo as asas ou deslizando pelo ar.

O resultado foi convertido em custo de transporte, uma medida que indica quanta energia o animal precisa para avançar uma determinada distância. A equipe comparou esse valor entre espécies que voam de maneiras diferentes, como se calculasse o consumo de combustível de veículos submetidos a condições variadas de estrada.

No total, o conjunto analisado alcançou 50 espécies de aves e morcegos, com animais que pesavam desde aproximadamente 12 gramas até mais de 11 quilos. O projeto envolveu 68 cientistas e é descrito pelos autores como o maior estudo sobre o custo do deslocamento de animais selvagens em longas distâncias.

Condor e cisne revelam duas estratégias opostas

Os animais foram agrupados em duas categorias principais: planadores e batedores de asas. Entre os planadores, o tamanho teve forte influência. Quanto maior era a ave, menor tendia a ser a proporção do voo com batimento das asas, o que reduzia o gasto por distância.

Os condores representam o extremo dessa estratégia. Os sete tipos de abutres incluídos no estudo acumularam mais de 4,3 milhões de quilômetros de voo ao longo de 128 mil dias de observação. Isso equivale a mais de cem voltas ao redor do planeta. Mesmo cobrindo distâncias tão grandes, eles bateram as asas entre 0,1% e 7% do tempo total.

O condor-andino foi o mais econômico entre os abutres analisados. Seu corpo pesado, que poderia parecer uma desvantagem, torna-se útil quando ele encontra colunas de ar ascendente. O animal sobe e avança aproveitando a energia do ambiente, em vez de produzir toda a força com os próprios músculos.

O cisne trombeteiro, por outro lado, pertence ao grupo dos batedores de asas. Embora tenha peso semelhante ao do condor, bate as asas durante 99% do voo observado. Essa dependência de esforço muscular explica por que o custo de transporte foi muito maior.

Economia extrema depende do tempo e do lugar

A vantagem dos planadores não funciona em qualquer situação. Aves grandes dependem de condições atmosféricas favoráveis e, por isso, ficam mais limitadas quanto ao momento e ao local em que podem voar. Se as correntes ascendentes desaparecem, o animal precisa gastar mais energia ou aguardar condições melhores.

Os batedores de asas lidam melhor com ambientes variáveis, mas pagam um preço energético maior. O vento de cauda pode reduzir o esforço, enquanto o vento contrário aumenta a resistência. Os autores destacam que muitos desses animais continuam voando mesmo quando a economia energética é baixa, provavelmente porque precisam cumprir deslocamentos associados à alimentação, à reprodução ou à migração.

O estudo não afirma que todo voo é mais econômico que nadar. A conclusão depende do tipo de voo, do tamanho do animal e das condições meteorológicas encontradas no trajeto. O resultado comprovado é que os rankings obtidos em laboratório mudam quando os animais usam os fluxos naturais da atmosfera.

O que a descoberta significa para a Amazônia

Na Amazônia, onde aves e morcegos percorrem uma paisagem extensa e marcada por rios, florestas, áreas abertas e diferentes regimes de vento, essa forma de medir o deslocamento pode ampliar a compreensão sobre a fauna aérea. A aplicação regional ainda é uma possibilidade de pesquisa, não uma conclusão específica deste estudo.

O novo modelo pode ser útil para avaliar como mudanças no clima alterariam as rotas e o calendário de espécies que dependem de correntes de ar. Isso interessa aos nove estados da Amazônia Legal, especialmente em planejamentos de conservação que considerem não apenas o local de pouso dos animais, mas também as condições atmosféricas encontradas durante o percurso.

Para os pesquisadores, mudanças na atmosfera podem modificar o preço energético do voo e influenciar onde e quando os animais migram, formam comunidades ou procuram alimento. A hipótese ainda precisa ser testada em diferentes regiões e espécies, mas o método oferece uma maneira mais realista de acompanhar esses efeitos.

Os próximos trabalhos devem investigar como os custos variam entre planadores e batedores de asas e quais mecanismos de economia de energia ainda não foram identificados.

Com informações do Max Planck Institute of Animal Behavior.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA