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Montanhas de Utah escondem até 1 bilhão de toneladas de água congelada sob rochas, revela estudo

Montanhas de Utah escondem até 1 bilhão de toneladas de água congelada sob rochas, revela estudo
Foto: University of Utah

Medições feitas no monte Timpanogos mostram que uma formação rochosa guarda 1,5 milhão de metros cúbicos de gelo.

Quem atravessa o campo de pedras do monte Timpanogos, nos Estados Unidos, pode estar caminhando sobre uma coluna de gelo com até 36 metros de espessura. A formação, que parece uma encosta coberta por cascalho, armazena cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de água congelada, volume equivalente a 600 piscinas olímpicas.

O local é um glaciar rochoso, estrutura na qual blocos e fragmentos de montanha escondem o gelo do lado de fora. Pesquisadores da Universidade de Utah mapearam o interior do glaciar rochoso de Timpanogos e concluíram que ele é composto por 83% de gelo e 17% de rocha solta.

Uma montanha que guardava gelo sem parecer congelada

O monte Timpanogos fica entre Salt Lake City e Provo, em Utah, e já foi associado durante décadas a um suposto glaciar convencional. A análise recente indica que a formação sempre foi, na realidade, um glaciar rochoso, com o gelo protegido por uma camada espessa de detritos.

A escolha do local teve uma razão prática. Embora o acesso exija uma caminhada de aproximadamente oito quilômetros e ganho de elevação de cerca de 1.067 metros, a área é alcançada por uma trilha conhecida e tem histórico de observações científicas.

Durante o outono de 2024, o pesquisador Bronson Cvijanovich conduziu seis expedições ao ponto situado acima do lago Emerald. Ele carregou instrumentos sensíveis montanha acima e instalou uma malha de medição sobre a superfície rochosa.

A técnica que transforma gravidade em imagem subterrânea

O levantamento foi feito com um gravímetro, aparelho capaz de registrar variações muito pequenas na aceleração da gravidade. A diferença de densidade entre o gelo e as rochas altera essa força de maneira mensurável.

Ao todo, foram coletadas leituras em 232 pontos, separados por cerca de 25 metros. Regiões com maior espessura de gelo apresentaram uma queda mais acentuada na aceleração gravitacional, porque o gelo tem massa específica menor que a rocha da montanha.

Os dados passaram por correções relacionadas à posição do Sol e da Lua, ao relevo, à latitude e à altitude. Depois, foram processados com uma técnica estatística bayesiana, que permitiu estimar a forma tridimensional do corpo de gelo.

O resultado foi uma espécie de mapa virtual do subsolo. Na parte mais espessa, o gelo chega a aproximadamente 46 metros de profundidade. A tecnologia funciona de modo semelhante ao princípio de observar o interior de um objeto sem precisar escavá-lo, mas usando diferenças gravitacionais em vez de raios X.

Segundo a Universidade de Utah, o glaciar rochoso de Timpanogos contém 1,5 milhão de metros cúbicos de gelo e continua incorporando gelo atualmente, em Utah, nos Estados Unidos.

Como neve e deslizamentos constroem a reserva

A origem desse gelo também foi investigada em um segundo estudo. O modelo matemático elaborado pela equipe mostra que a formação ganha massa quando a neve persistente é soterrada por quedas de rochas nas partes mais altas dos vales montanhosos.

O processo depende da combinação entre muita neve, verões menos quentes e maior erosão das paredes da montanha. A rocha funciona como uma cobertura, reduzindo a exposição do gelo ao ar e à radiação solar.

Essa dinâmica explica por que a superfície pode mudar de aparência ao longo do ano. Em alguns períodos, o glaciar fica totalmente coberto por pedras. Em anos mais frios, a neve protegida pelos detritos pode permanecer visível até setembro.

Os resultados também afastam a ideia de que todo o gelo dessas estruturas seja simplesmente uma sobra da última era glacial. O auge desse período ocorreu entre 21 mil e 18 mil anos atrás, mas os pesquisadores afirmam que os glaciares rochosos de Utah se formaram ao longo dos milhares de anos posteriores, depois do recuo dos grandes glaciares.

O cálculo para outras montanhas de Utah

O Timpanogos é um entre 836 glaciares rochosos identificados em Utah por imagens de satélite. Essas imagens ajudam a delimitar a área ocupada pelas formações, mas não mostram sozinhas quanto gelo existe abaixo do cascalho.

Com a relação entre a área visível e o volume subterrâneo medida no Timpanogos, os cientistas fizeram uma estimativa para outras formações. O cálculo indica que os glaciares rochosos do estado podem reunir aproximadamente 1 gigaton de água, equivalente a 1 bilhão de toneladas métricas ou 815 mil acres-pés.

Em escala global, os cerca de 50 mil glaciares rochosos conhecidos podem armazenar 48 gigatons de água. Uma gigaton corresponde a 1 quilômetro cúbico de água e seria suficiente para encher aproximadamente 400 mil piscinas olímpicas.

A comparação com a Grande Pirâmide de Gizé ajuda a visualizar o volume do Timpanogos. A quantidade de gelo encontrada tem volume semelhante ao da maior pirâmide do complexo egípcio, embora esteja distribuída dentro de uma formação natural irregular.

Uma reserva resistente, mas não ilimitada

O revestimento de rochas pode retardar o derretimento e tornar essas estruturas mais resistentes ao aquecimento do que um glaciar exposto. Isso não significa, porém, que sejam imunes às mudanças climáticas.

A própria pesquisa mostra que nem todos os glaciares rochosos continuam adicionando gelo. Os cientistas ainda investigam quais formações permanecem ativas e quais já perderam a maior parte de sua reserva congelada.

Para um estado quente e árido como Utah, a descoberta tem importância direta para o planejamento hídrico. O gelo não é uma fonte de abastecimento imediatamente disponível, porque está preso no subsolo e sua liberação depende de processos naturais lentos. Ainda assim, representa uma reserva que pode influenciar o comportamento da água nas montanhas.

O que a descoberta tem a ver com a Amazônia

O estudo não revela uma reserva de gelo na Amazônia nem muda o abastecimento dos estados da região. A maior parte do território amazônico está fora do ambiente de altas montanhas onde os glaciares rochosos se formam.

A conexão com o Norte brasileiro está no método e no debate sobre água em um clima mais quente. A pesquisa mostra que uma paisagem pode esconder uma reserva hídrica que não aparece em fotografias comuns. Para áreas amazônicas, onde rios, aquíferos, chuvas e áreas úmidas também exigem monitoramento, a lição é que mapas de superfície não contam toda a história do armazenamento de água.

A técnica baseada em gravidade pode ampliar a capacidade de investigar estruturas subterrâneas sem escavações extensas. Qualquer aplicação fora de Utah, contudo, dependerá das características geológicas e ambientais de cada local.

Dois estudos publicados em agosto

O trabalho sobre o volume interno do Timpanogos foi publicado em 26 de agosto de 2026 no Journal of Geophysical Research: Earth Surface. O artigo descreve a inversão bayesiana em três dimensões usada para interpretar os dados gravitacionais.

O segundo estudo, sobre a incorporação de neve e o papel da erosão das paredes montanhosas, saiu na revista Geophysical Research Letters. A pesquisa teve participação de cientistas da Universidade de Utah, do Serviço Geológico de Utah, do Middlebury College e da Utah Valley University.

Os próximos passos são ampliar a investigação para outros glaciares rochosos e identificar quais ainda acumulam gelo em um cenário de aumento das temperaturas.

Com informações da Universidade de Utah.

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