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Crise Climática no Brasil: Racismo Ambiental Aprofunda Desigualdades

Crise Climática no Brasil: Racismo Ambiental Aprofunda Desigualdades
Foto: oc.eco.br

As populações historicamente marginalizadas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos, exigindo foco urgente na justiça climática.

Imagine ter a lembrança de sua infância marcada por enchentes, uma realidade que se arrasta para a vida adulta, mas de forma ainda mais severa. Essa é a história de Sarah Marques, do Recife, que, aos 45 anos, ainda convive com as águas invadindo sua casa na comunidade Caranguejo Tabaiares. Quando criança, ela e o irmão precisavam ser colocados pela avó sobre um móvel alto para escapar da água. Naquele tempo, a enchente escoava rapidamente para o rio Capibaribe. Hoje, Marques, mulher negra e mãe, vê a situação piorar: chuvas mais intensas, frequentes e a água sem ter para onde ir, um reflexo amargo da impermeabilização do solo urbano.

A experiência da família Marques não é um caso isolado, ela é um retrato pungente de como os impactos da crise climática atingem de forma desproporcional as populações que já enfrentam desigualdades históricas no Brasil. Um levantamento do Observatório do Clima (OC) enfatiza a urgência de tratar a justiça climática e o racismo ambiental como pilares da agenda ambiental brasileira, especialmente com a proximidade das eleições.

Racismo Ambiental: Um Olhar Sobre as Desigualdades

A realidade de Caranguejo Tabaiares, com suas casas mais vulneráveis às inundações e a dificuldade de drenagem, é um espelho do que acontece em muitas outras periferias brasileiras. Segundo dados do IBGE, a proporção de pretos e pardos entre os pobres é significativamente maior do que a de brancos, um grupo que também tem menor acesso a emprego, educação, segurança e saneamento básico.

No Recife, essas desigualdades se manifestam no território de forma explícita. Um estudo do Instituto Pólis mostra que, embora pretos e pardos representem 60,6% da população da cidade, eles correspondem a 73,8% dos moradores das favelas. Mais alarmante: 68,1% das pessoas vivendo em áreas de risco são negras, superando a média municipal de 54,5%.

A falta de infraestrutura agrava o problema. Conforme o Instituto Trata Brasil, apenas 40,2% dos 1,5 milhão de habitantes do Recife são atendidos por rede de esgoto, e cerca de 30% do esgoto gerado ainda não recebe tratamento. Sarah Marques lista as enchentes de 2010, 2020, 2022 e de maio deste ano como momentos traumáticos, que resultaram em casas inundadas, famílias desalojadas e casos de leptospirose na comunidade.

O Que é Justiça Climática e Por Que Ela é Crucial?

É precisamente essa distribuição desigual dos impactos climáticos que define os conceitos de justiça climática e racismo ambiental. Thales Machado, assessor de defesa de direitos socioambientais da Conectas Direitos Humanos, explica: “Em países como o Brasil, em que temos populações historicamente marginalizadas e vulnerabilizadas, como povos indígenas, quilombolas, populações de periferias e favelas, ribeirinhos e trabalhadores rurais, vão sofrer ainda mais pela crise do clima e os eventos extremos que ela traz, sejam eles enchentes, seca, calor extremo etc.”

Crise Climática no Brasil: Racismo Ambiental Aprofunda Desigualdades
Foto: oc.eco.br

A rede do Observatório do Clima tem defendido veementemente que a justiça climática, o racismo ambiental e os direitos humanos sejam considerados temas centrais e transversais na agenda climática nacional. Com as eleições se aproximando, o OC lançou o documento “Propostas para a Política Ambiental Brasileira”, que visa guiar candidatos e partidos na elaboração de programas que considerem marcadores sociais como raça, renda, gênero e território nas políticas públicas climáticas.

Propostas Para um Futuro Mais Justo

O “Caderno 1: Justiça Climática, Racismo Ambiental e Direitos Humanos”, elaborado pelo Observatório do Clima, apresenta diversas propostas para enfrentar o problema. Entre elas:

  • Incluir a justiça climática e o combate ao racismo ambiental em todas as políticas públicas.
  • Assegurar, por parte do Poder Público, tratamento prioritário às populações vulnerabilizadas.
  • Medir os impactos sociais das políticas climáticas, não apenas as emissões.
  • Incentivar atividades econômicas ligadas à sociobiodiversidade.
  • Fortalecer mecanismos de reparação e garantia de direitos para as populações vulneráveis.
  • Reforçar a educação ambiental e climática.
  • Promover emprego e renda para as vítimas das mudanças climáticas, visando uma transição justa.

Segundo o Observatório do Clima, é fundamental que o futuro planejamento ambiental do Brasil integre de forma transversal o recorte racial. Isso significa reconhecer e abordar os impactos desproporcionais sobre populações periféricas, negras, povos e comunidades tradicionais em todos os projetos de lei e iniciativas. Em 2026, com o Brasil sediando a COP30 em Belém, a responsabilidade do país em endereçar essas questões globais e locais se torna ainda mais evidente.

Perguntas Frequentes

O que é racismo ambiental?

Racismo ambiental refere-se à desproporcional carga de riscos e impactos ambientais negativos que recaem sobre comunidades racializadas e de baixa renda, devido a decisões políticas, econômicas e sociais.

Por que as populações negras são mais afetadas pela crise climática?

Populações negras são frequentemente marginalizadas e vivem em áreas mais vulneráveis a eventos climáticos extremos, com menor acesso a infraestrutura, saneamento e serviços básicos, além de terem menos recursos para se adaptar ou se recuperar dos desastres.

O que é justiça climática?

Justiça climática é um movimento e um conceito que busca abordar a crise climática não apenas como uma questão ambiental, mas também como uma questão ética, social e política, reconhecendo que os custos e benefícios das políticas climáticas devem ser distribuídos de forma equitativa.

Com informações do Observatório do Clima.

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