Cupuaçu é primo do cacau e divide com ele 65% dos genes; da semente sai até um chocolate amazônico, e a ciência explica o cheiro forte da fruta

Cupuaçu é primo do cacau e divide com ele 65% dos genes; da semente sai até um chocolate amazônico, e a ciência explica o cheiro forte da fruta
Foto: BjoernS/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0 DE). Cupuaçu aberto, com a polpa branca envolvendo as sementes.

O cupuaçu, fruta símbolo do Pará e do Amazonas, é primo próximo do cacau, e a genética confirma o parentesco. Um estudo liderado por pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicado em 2024 na revista GigaScience, decifrou o genoma completo do cupuaçu: são 31.381 genes distribuídos em 10 cromossomos, com cerca de 65% de correspondência na organização dos genes com o cacau. Da semente do cupuaçu dá para fazer até um produto parecido com chocolate, o cupulate.

Da mesma família do chocolate

O cupuaçu (Theobroma grandiflorum) e o cacau (Theobroma cacao) pertencem ao mesmo gênero, Theobroma, nome que significa alimento dos deuses. Os dois são nativos da Amazônia. O cupuaçu é maior: o fruto pode medir de 12 a 25 centímetros de comprimento e pesar de 1 a 2 quilos, com cerca de 50 sementes envolvidas por uma polpa branca, ácida e muito perfumada.

Segundo o estudo da GigaScience, a semelhança genética com o cacau reflete uma história evolutiva comum, mas o cupuaçu acumulou mudanças próprias depois que as duas espécies se separaram. Os pesquisadores encontraram genes ligados às características do fruto e da semente e a mecanismos de defesa da planta que passaram por seleção, o que ajuda a explicar as diferenças entre as duas frutas.

Para a agricultura, conhecer o genoma permite aproveitar pesquisas feitas com o cacau, uma das plantas mais estudadas do mundo, e acelerar o melhoramento do cupuaçu, por exemplo contra doenças.

Por que a polpa é tão ácida e perfumada

Uma revisão científica de 2024, feita por pesquisadores do Instituto Federal do Amazonas, da Universidade do Estado do Amazonas e da Universidade Federal do Amazonas, resume a química da fruta. A polpa é rica em ácidos orgânicos, como o cítrico e o málico, que dão o sabor azedinho, e em compostos fenólicos, como ácido gálico, ácido protocatecuico e quercetina, associados a propriedades antioxidantes.

O cheiro forte vem de uma mistura de compostos voláteis, substâncias que evaporam com facilidade e chegam ao nariz. Em 2026, pesquisadores da UFPA e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) testaram uma cerveja com polpa de cupuaçu e identificaram compostos como linalol e 2-feniletanol, que dão notas florais e adocicadas à bebida.

O chocolate da semente

Assim como acontece com o cacau, as sementes do cupuaçu podem ser fermentadas, torradas e processadas. O produto, chamado cupulate, tem aparência e uso parecidos com o chocolate. Das sementes também se extrai uma gordura, a manteiga de cupuaçu, usada principalmente em cosméticos.

Fruta nacional

A Lei 11.675, de 2008, designou o cupuaçu fruta nacional. O texto foi depois alterado para incluir também o açaí. Na Amazônia, a polpa vira suco, sorvete, creme, bombom, doce e recheio, e o cupuaçu é um dos sabores mais vendidos nas feiras e sorveterias de Belém e Manaus.

Perguntas frequentes

Cupuaçu e cacau são parentes?

Sim. Os dois são do gênero Theobroma e têm cerca de 65% de correspondência na organização dos genes, segundo o estudo do genoma do cupuaçu.

Dá para fazer chocolate com cupuaçu?

Sim. Das sementes se faz o cupulate, produto semelhante ao chocolate.

Por que o cupuaçu é azedo?

Por causa dos ácidos orgânicos da polpa, como o cítrico e o málico.

Quem decifrou o genoma do cupuaçu?

Pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, da UFPA e da Unesp, com publicação na revista GigaScience em 2024.

Com o genoma em mãos, a expectativa dos pesquisadores é desenvolver variedades mais produtivas e resistentes, fortalecendo a fruta na bioeconomia da Amazônia.

Com informações da Embrapa Amazônia Oriental, da UFPA e de estudos publicados nas revistas GigaScience, Food Chemistry Advances e Journal of Food Science, e da Lei 11.675/2008.

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