Decoada: o fenômeno natural que tira o oxigênio dos rios do Pantanal e pode matar toneladas de peixes

Decoada: o fenômeno natural que tira o oxigênio dos rios do Pantanal e pode matar toneladas de peixes
Foto: Katita Alves/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Margem do rio Miranda, no Pantanal de Mato Grosso do Sul.

Todos os anos, quando a água dos rios transborda e invade o campo no Pantanal, um fenômeno natural muda a cor, o cheiro e a química da água. É a decoada, ou dequada, como dizem os pantaneiros. Segundo a Embrapa Pantanal, a vegetação que fica submersa no início da cheia começa a se decompor, e as bactérias responsáveis por isso consomem o oxigênio dissolvido na água, que pode chegar a zero. A água fica escura, cor de chá preto, mais ácida e carregada de gás carbônico. Quando o fenômeno é intenso, peixes morrem por falta de ar em escala de milhares de toneladas.

Como a decoada acontece

O Pantanal é uma imensa planície que alaga todos os anos. Durante a seca, o capim e outras plantas crescem nos campos. Quando a enchente chega, essa vegetação fica debaixo d’água e começa a apodrecer rapidamente com o calor do verão.

Segundo o boletim da Embrapa Pantanal que mapeou o fenômeno, assinado pelas pesquisadoras Márcia Divina de Oliveira e Débora Fernandes Calheiros e pelo pesquisador Carlos Roberto Padovani, a decomposição dessa matéria orgânica provoca:

  • queda do oxigênio dissolvido na água, que pode chegar à ausência total de oxigênio, a anoxia;
  • aumento do gás carbônico livre, de cerca de 6 mg/L para mais de 100 mg/L;
  • queda do pH, que normalmente fica entre 6,5 e 7 e pode chegar a 5, deixando a água mais ácida;
  • cor escura, de chá preto, e cheiro característico.

Essa água, que os moradores chamam de “poderiqueira do batume”, escorre dos campos para os corixos, as baías e, depois, para o leito dos rios.

Por que os peixes morrem

Fora da época de cheia, o rio Paraguai tem, em média, mais de 5 miligramas de oxigênio por litro de água. Na decoada, esse valor cai para menos de 3, e às vezes para zero, durante meses. Os peixes sofrem estresse respiratório. Segundo a Embrapa, há também aumento de bactérias que causam doenças, mais um fator de estresse. Os que não conseguem nadar a tempo para áreas com mais oxigênio morrem.

Os peixes mortos não se perdem: viram alimento para outros peixes, aves, jacarés e mamíferos.

Onde e quando acontece

Com dados de monitoramento de 1988 a 2011 e relatos de técnicos e moradores, a Embrapa mapeou a decoada de Cáceres, em Mato Grosso, até Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul. Os principais pontos:

  • Rio Paraguai: eventos de alta intensidade, principalmente abaixo de Bela Vista do Norte e na região do Parque Nacional do Pantanal. Em Corumbá, a decoada pode durar até cinco meses, com mais registros de março a maio;
  • Rio Cuiabá: eventos de média a alta intensidade de Porto Cercado até a foz;
  • Rio Miranda: o fenômeno aparece da foz do rio Aquidauana até o encontro com o Paraguai, e é no Passo do Lontra que a intensidade pode ser alta a ponto de matar peixes;
  • Rio Taquari: eventos de baixa intensidade;
  • Baías Vermelha, Castelo e Tuiuiú: decoada frequente e intensa, todos os anos.

Segundo a Embrapa, o fenômeno costuma ocorrer de dezembro a maio nos rios afluentes e de fevereiro a junho no canal principal do rio Paraguai, mas a intensidade e a duração mudam de ano para ano, conforme a chuva e o tamanho da cheia.

Um efeito inesperado sobre uma espécie invasora

A decoada também afeta o mexilhão-dourado, molusco asiático que invadiu os rios da América do Sul. Segundo o boletim, na baía do Castelo a espécie, que cobria cerca de 70% das rochas em 2005, desapareceu por completo em 2006, durante um evento de decoada. Os pesquisadores verificaram que o mexilhão não tolera água sem oxigênio, ácida e com muito gás carbônico.

É poluição?

Não. A decoada é um fenômeno natural, típico de grandes planícies alagáveis com muita vegetação, registrado pelos ribeirinhos há gerações. A Embrapa destaca que, no Pantanal, ele é mais intenso que em outros grandes rios do mundo por causa da extensão da planície. Mortandades de peixes, no entanto, também podem ter outras causas, e cabe aos órgãos ambientais investigar cada caso.

Perguntas frequentes

O que é decoada?

É a alteração natural da qualidade da água no Pantanal no início da cheia, com queda do oxigênio, água escura e mais ácida.

Por que os peixes morrem na decoada?

Por falta de oxigênio na água, causada pela decomposição da vegetação submersa.

Quando ela acontece?

Na fase de enchente, em geral de dezembro a junho, dependendo do rio.

A decoada acontece na Amazônia?

Segundo a Embrapa, a falta de oxigênio é típica de planícies de inundação tropicais com muita vegetação. No Pantanal, o fenômeno é especialmente intenso pela extensão da planície.

Como a intensidade depende do clima e do tamanho de cada cheia, a decoada pode ser fraca num ano e devastadora no seguinte, mesmo nos mesmos rios.

Com informações da Embrapa Pantanal.

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