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Dentes de 11 milhões de anos no Acre revelam ancestrais de muriquis e reescrevem a história evolutiva dos primatas na Amazônia brasileira

Em agosto de 2026, o Jornal da USP e a revista Journal of Mammalian Evolution anunciaram a descrição de fósseis de primatas encontrados na formação Solimões Superior, no Acre. Quatro dentes e um fragmento de osso do tarso, datados de cerca de 11 milhões de anos, revelaram duas espécies novas: Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus.

A descoberta mais do que dobra a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira e, especialmente, mostra que ancestrais próximos dos muriquis (os maiores macacos das Américas) já viviam na Amazônia Ocidental, muito antes de se restringirem à Mata Atlântica.

O que os fósseis contam

Parabrachyteles vesperus é o parentesco mais próximo dos muriquis atuais já encontrado. A presença desse material no Acre reformula a biogeografia do grupo. Até então, a história evolutiva dos muriquis parecia restrita ao sudeste brasileiro. Agora, fica claro que seus ancestrais tiveram uma distribuição muito mais ampla.

Migmacebus juruaensis, por sua vez, era um animal pequeno, de cerca de um quilo, com dieta baseada em frutas e itens duros, semelhante à de macacos-prego e parauacus atuais. Os pesquisadores descrevem-no como uma “quimera morfológica” entre macacos-esquilo e macacos-prego.

Contexto geológico e importância

Os fósseis vêm da formação Solimões Superior, conhecida por preservar uma rica fauna do Mioceno. A Amazônia de 11 milhões de anos era muito diferente da atual: havia sistemas de rios e lagos extensos e uma biodiversidade de mamíferos ainda em plena diversificação.

A descoberta reforça que a Amazônia foi um centro de evolução de primatas do Novo Mundo e que as distribuições atuais de muitas espécies são o resultado de restrições geográficas posteriores, incluindo mudanças climáticas e a formação da Mata Atlântica como refúgio.

Números

  • Idade: cerca de 11 milhões de anos
  • Duas espécies novas descritas
  • Quatro dentes e um fragmento de tarso
  • Parabrachyteles: parente próximo dos muriquis
  • Migmacebus: cerca de 1 kg

 

Limitações

O material é fragmentário. Dentes e um osso do pé fornecem informações importantes, mas ainda limitadas sobre o esqueleto completo e o comportamento. Novas escavações serão necessárias para ampliar o quadro.

Relevância para o Brasil

Os muriquis estão ameaçados de extinção na Mata Atlântica. Saber que seus ancestrais habitaram a Amazônia amplia a compreensão da história evolutiva brasileira e reforça a importância de proteger tanto a Amazônia quanto os remanescentes de Mata Atlântica. A descoberta também coloca o Acre no mapa da paleontologia de primatas de importância mundial.

A descoberta e a publicação desses conhecimentos reforçam a necessidade de políticas públicas que reconheçam os povos indígenas não apenas como guardiões da floresta, mas como produtores ativos de ciência e de soluções para os desafios ambientais contemporâneos. No Brasil de 2026, com a crescente valorização da bioeconomia e das soluções baseadas na natureza, essas histórias ganham relevância estratégica. Elas mostram que a inovação não precisa vir apenas de laboratórios urbanos; ela pode nascer da observação paciente, da experimentação geracional e do diálogo entre diferentes formas de conhecimento.

Para o leitor brasileiro, essas narrativas aproximam a Amazônia de uma história humana concreta, com nomes, números, datas e consequências mensuráveis. Elas substituem a imagem genérica de “floresta intocada” por uma paisagem de engenharia, ritual, manejo e resiliência construída ao longo de milênios. E, ao fazer isso, abrem espaço para um debate público mais informado sobre demarcação de terras, proteção de isolados, valorização de saberes tradicionais e combate ao desmatamento.

A paleontologia de primatas na Amazônia ainda é um campo relativamente jovem. Cada novo dente ou fragmento ósseo tem o potencial de reescrever capítulos inteiros da história evolutiva. A descoberta de Parabrachyteles e Migmacebus no Acre não apenas amplia o registro fóssil, mas também conecta a Amazônia Ocidental à história dos muriquis da Mata Atlântica, mostrando que as distribuições atuais são apenas o capítulo final de uma narrativa muito mais longa e complexa. Para o Brasil, isso significa que a proteção da biodiversidade precisa considerar não apenas as espécies vivas, mas também o registro paleontológico que documenta a profundidade temporal da vida na região.

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