
Operações militares buscam erradicar a mineração em territórios indígenas, revelando escala da destruição.
Vila Cururu, um assentamento de garimpo ilegal no Território Indígena Sararé, outrora um palco de intensa atividade ilícita, foi recentemente desmantelado por forças de segurança brasileiras. A operação, parte do esforço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para combater a mineração ilegal, expõe a gravidade da devastação ambiental e social em uma das regiões mais vitais da Amazônia brasileira. Até poucas semanas atrás, o local fervilhava com garimpeiros em busca de ouro, impactando profundamente o território dos Nambiquara.
Jackson Katitãurlu, líder indígena Nambiquara, descreveu a situação com pesar. ‘Eles acabaram com tudo. Destruíram a natureza’, afirmou, referindo-se aos mineiros que cavaram e usaram explosivos nas colinas e savanas próximas à sua aldeia. A destruição em Sararé, um território com tamanho aproximado ao de Singapura, é um reflexo alarmante da pressão exercida pela mineração ilegal na região.
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No final de março de 2026, com o apoio de operações terrestres e aéreas, as forças de segurança invadiram Vila Cururu. Nilton Tubino, coordenador de desintrusão do governo Lula, testemunhou as ruínas da comunidade. Ele relembrou a fuga dos garimpeiros para as florestas circundantes diante da ofensiva, que visava conter um dos mais severos ataques a terras indígenas na história recente do Brasil.
Sararé, situado próximo à fronteira com a Bolívia, perdeu 4% de suas florestas entre janeiro de 2024 e agosto de 2025. Desde o início da corrida do ouro, há cerca de cinco anos, uma área de aproximadamente 44,8 km² foi devastada, o equivalente a quase metade do tamanho da ilha de Manhattan. ‘É uma devastação total’, suspirou Tubino, enquanto inspecionava Garimpo Quatro, uma das maiores minas de Sararé.
“Eles acabaram com tudo. Destruíram a natureza”, disse Jackson Katitãurlu, líder indígena Nambiquara, descrevendo a situação em Sararé.
A situação em Sararé também é, paradoxalmente, um efeito colateral do sucesso inicial da campanha de Lula. Após a desintrusão no Território Indígena Yanomami, um destino mais conhecido, alguns garimpeiros migraram para o sul, buscando áreas menos fiscalizadas na esperança de continuar suas operações longe da repressão. Este deslocamento evidencia a complexidade da questão e a necessidade de uma abordagem coordenada em toda a região amazônica.
Contexto Global e Histórico da Mineração na Amazônia
Entenda o caso
A intensificação do garimpo ilegal na Amazônia está ligada diretamente à alta dos preços do ouro no mercado global, impulsionada pela instabilidade econômica e geopolítica. Investidores buscam refúgios seguros para seus ativos, e o ouro se torna um bem valioso, alimentando a cadeia criminosa que explora a floresta e seus povos.
Nilton Tubino aponta para uma ligação direta entre o cenário global e a destruição ambiental. ‘O preço do ouro, este contexto global maluco, Trump, essas coisas… têm um impacto direto em toda a Amazônia’, afirmou. A busca por ouro está contaminando rios com mercúrio, um elemento tóxico que afeta a saúde de comunidades e os ecossistemas, e afugentando a fauna local. Jackson Katitãurlu, por exemplo, mencionou que caçadores indígenas estão encontrando túneis e escavações por todo o seu território.
A história dos Nambiquara é marcada por ciclos de agressão externa. David Price, em seu livro ‘Before the Bulldozer’ (1989), documentou a chegada de forasteiros na região no século XVIII, quando o ouro foi descoberto. Escravos, primeiro indígenas e depois africanos, realizavam o trabalho pesado nas minas. A descoberta dos Nambiquara no início do século XX pelo explorador Cândido Rondon trouxe doenças devastadoras que dizimaram grandes grupos, reduzindo a população de cerca de 10.000 para aproximadamente 600 indivíduos. Eventos semelhantes ocorreram nas décadas seguintes, incluindo a construção de rodovias durante a ditadura militar, que também fragmentou suas terras e impactou profundamente seu modo de vida.
AMEAÇAS SÃO ATUAIS E PERFEIÇOADAS
A crise atual introduz novos elementos perturbadores: o uso de escavadeiras hidráulicas de grande porte, que permitem uma escala de destruição industrial sem precedentes, e a suspeita chegada de grupos criminosos organizados, como o Comando Vermelho. Faltam provas concretas do envolvimento direto do Comando Vermelho na gestão das minas de Sararé, mas o aumento da violência é inegável.
Quando forças especiais ambientais atacaram a área em 2024, cinco homens fortemente armados foram mortos em um tiroteio. Dias antes, quatro pessoas foram assassinadas em uma aparente disputa territorial por uma mina de ouro. Saulo Katitãurlu, líder principal dos Nambiquara em Sararé, relatou ter recebido ameaças. ‘Não fale sobre a destruição, senão vou à sua aldeia e mato todos vocês’, teria dito um garimpeiro a Saulo. Seu irmão, Jackson, ainda mencionou o encontro de um corpo sem vida perto da aldeia há poucos dias, um indício sombrio da escalada de violência.
O Futuro incerto da Amazônia
Apesar do sucesso aparente da operação de desintrusão, o futuro de Sararé e de outros territórios indígenas permanece incerto. Líderes Nambiquara temem que, com a retirada das tropas, os garimpeiros retornem. ‘Se a operação for suspensa, acho que eles voltarão. 100% eles voltarão’, previu Jackson.
Nilton Tubino enfatiza a importância da reeleição do presidente Lula para a continuidade da força-tarefa interinstitucional contra o garimpo ilegal e o desmatamento na Amazônia. Ele argumenta que a soberania do Brasil está em jogo, citando como exemplo o uso da cumplicidade com o garimpo ilegal no plano americano para a Venezuela. A próxima eleição presidencial será crucial para determinar o futuro das políticas ambientais e de proteção dos povos indígenas na região.
Mesmo com a intensa fiscalização, alguns invasores ainda persistem em Sararé, operando possivelmente à noite para evitar detecção. A luta contra o garimpo ilegal na Amazônia está longe de terminar, exigindo uma vigilância contínua e um compromisso político inabalável para proteger os territórios indígenas e a biodiversidade da floresta.
Perguntas Frequentes
O que é o Território Indígena Sararé?
Sararé é um território indígena localizado na Amazônia brasileira, próximo à fronteira com a Bolívia, lar do povo Nambiquara, e que tem sido fortemente afetado pela mineração ilegal de ouro.
Qual a extensão da destruição em Sararé?
Desde o início da corrida do ouro, há cerca de cinco anos, uma área de aproximadamente 44,8 km² de floresta foi devastada em Sararé, o que representa quase metade da ilha de Manhattan.
Quais os desafios no combate ao garimpo ilegal na Amazônia?
Os desafios incluem a vasta extensão da Amazônia, a ligação do garimpo com o crime organizado, a flutuação dos preços do ouro que incentiva a atividade, e a dificuldade de manter operações de fiscalização contínuas e eficazes em áreas remotas.
Com informações de The Guardian.
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