×
Próxima ▸
Bendegó fica décadas no sertão, enfrenta uma tentativa fracassada no…

A23a maior iceberg do mundo que percorreu o oceano por 40 anos, girou no mar e terminou reduzido a fragmentos na Antártida

A23a maior iceberg do mundo que percorreu o oceano por 40 anos, girou no mar e terminou reduzido a fragmentos na Antártida
Foto: Divulgação

O maior iceberg do mundo deixou de ser apenas uma massa de gelo e virou uma janela para estudar o oceano vivo.

Durante décadas, o iceberg A23a pareceu imóvel demais para ter uma história. Nascido na Antártida em 1986, ele carregou uma estação soviética, ficou preso ao fundo do mar por mais de 30 anos, atravessou o Oceano Austral e terminou a vida como um conjunto de fragmentos difíceis de acompanhar até por satélite.

O bloco de gelo foi considerado o maior iceberg do mundo em diferentes momentos de sua trajetória. Em seus últimos registros, porém, restava pouco da estrutura que chegou a cobrir uma área próxima à de Bali. A imagem é menos a de uma queda repentina e mais a de um desaparecimento lento, provocado pelo contato contínuo com correntes, ondas, vento e água mais quente.

O iceberg que levou uma estação inteira

A origem do A23a está ligada à plataforma de gelo Filchner, que avança sobre o mar de Weddell, no setor antártico voltado para a América do Sul. Na década de 1970, a União Soviética instalou ali a estação sazonal Druzhnaya 1. Os pesquisadores voltavam ao local a cada verão austral, até que, em outubro de 1986, não encontraram mais a base.

A primeira suspeita foi de que a estação tivesse desaparecido sobre um pequeno pedaço de gelo que teria virado. Imagens de baixa resolução e uma expedição posterior mostraram outra situação: a base estava sobre um iceberg gigantesco que havia se desprendido da borda da plataforma.

O desprendimento reuniu cerca de quatro décadas de avanço da geleira e dividiu a massa em três grandes blocos, batizados de A22, A23 e A24. A letra indica o quadrante longitudinal onde cada iceberg foi identificado, enquanto os números seguem a ordem de descoberta.

Em janeiro de 1987, uma equipe soviética pousou de helicóptero sobre o A23. Durante duas semanas, os pesquisadores retiraram equipamentos e materiais importantes da estação soterrada pela neve. A operação é considerada a última presença humana conhecida sobre o iceberg.

De A23 a A23a, uma espera no mar de Weddell

O iceberg permaneceu próximo ao local de origem por anos. Em 1991, o A23 se fragmentou, e a maior parte recebeu o nome de A23a. Naquele período, a formação media pelo menos 44 milhas náuticas de comprimento e 40 milhas náuticas de largura, com uma área estimada em quase 2 mil milhas quadradas.

A23a maior iceberg do mundo que percorreu o oceano por 40 anos, girou no mar e terminou reduzido a fragmentos na Antártida
Foto: Divulgação

A dimensão não significava liberdade. O A23a continuava preso pelo gelo marinho e tinha sua parte inferior encaixada no leito oceânico. Esse tipo de imobilização ajuda a explicar por que um iceberg enorme pode permanecer praticamente no mesmo lugar enquanto a plataforma de onde saiu continua avançando.

A situação começou a mudar em 2020, quando o A23a passou a girar lentamente. Mais de um ano depois, ele entrou em deslocamento contínuo, conduzido pelo giro de Weddell, uma corrente circular do mar de Weddell. Durante dois anos, percorreu quase mil milhas náuticas até alcançar a borda norte do gelo marinho.

Quando uma paisagem de gelo virou laboratório

Em novembro de 2023, o A23a chegou ao Oceano Austral aberto e deixou de ser observado apenas por especialistas. Navios de pesquisa e embarcações turísticas passaram a se aproximar do paredão de gelo, que se erguia dezenas de metros acima da superfície e parecia uma faixa de terra no horizonte.

Uma dessas aproximações ocorreu em 1º de dezembro de 2023, quando o navio britânico R.R.S. Sir David Attenborough desviou sua rota para alcançar o iceberg. A pesquisadora Laura Taylor aproveitou a oportunidade para coletar água ao redor da formação e estudar como o derretimento altera a composição química do mar.

O interesse não era apenas medir o tamanho do A23a. A água doce liberada pelo gelo pode modificar as condições locais e influenciar a distribuição de nutrientes e organismos. O navio chegou a entrar em uma abertura semelhante a um fiorde, cercada por paredes de gelo, enquanto ondas, vento e blocos se desprendendo formavam um ambiente de grande atividade física.

Os sons da viagem também foram registrados pela pesquisadora Kat Turner. Água, gelo, vento, motor e vozes da tripulação acabaram reunidos em uma composição musical de quase 14 minutos chamada “A23a: The Largest Iceberg in the World”.

O episódio ajudou a mostrar por que o desaparecimento de um iceberg não representa apenas a perda de uma paisagem. A passagem de uma massa desse tamanho oferece aos cientistas uma oportunidade rara de observar como o oceano reage à entrada gradual de água doce e como comunidades marinhas ocupam as áreas próximas ao gelo.

A23a maior iceberg do mundo que percorreu o oceano por 40 anos, girou no mar e terminou reduzido a fragmentos na Antártida
Foto: Divulgação

O giro que mudou o roteiro

Depois de alcançar águas abertas, a expectativa era que o A23a seguisse para o norte e se fragmentasse rapidamente. Em março de 2024, porém, seu deslocamento parou perto das ilhas Orkney do Sul. O iceberg ficou preso em um giro oceânico e completou uma rotação de 360 graus no sentido anti-horário.

Esse comportamento ilustra uma característica central dos grandes icebergs: o destino depende menos de uma rota reta do que da combinação entre correntes profundas, vento, marés, formato do bloco e irregularidades do fundo do oceano. Uma mudança aparentemente pequena pode manter uma formação gigantesca em uma área durante meses.

O A23a também reabriu o debate sobre a relação entre icebergs e mudança climática. Pesquisadores consultados na época avaliaram que o desprendimento não deveria ser atribuído automaticamente ao aquecimento global. A interpretação predominante foi de que o gelo simplesmente havia acumulado avanço suficiente para se soltar, em um processo natural chamado desprendimento ou calving.

O que fica depois do maior iceberg

Segundo a National Geographic, os últimos fragmentos do A23a apareciam espalhados em imagens de satélite de 3 de abril de 2026, no Oceano Austral. Nesse estágio, acompanhar a morte do iceberg se tornou mais difícil: pedaços menores podem se separar, derreter ou desaparecer entre o gelo marinho e as ondas.

Para os leitores da Amazônia, a história tem uma conexão menos visual, mas importante. O A23a não está próximo dos rios, cidades ou costas da região, e não há indicação de que seu desaparecimento altere diretamente o clima amazônico. Ainda assim, o caso ajuda a explicar como as partes do sistema oceânico global estão ligadas. O Oceano Austral participa da circulação que redistribui calor e carbono pelo planeta, enquanto a Amazônia influencia o clima por meio da floresta, dos rios e da umidade que retorna à atmosfera.

Também há uma lição sobre escala. Um bloco de gelo capaz de esconder uma estação inteira pode parecer permanente, mas continua submetido às mesmas forças que movimentam partículas, correntes e sedimentos em qualquer mar. O A23a durou cerca de 40 anos, muito além da vida típica de grandes icebergs, mas não escapou do ciclo de nascimento, deslocamento, fragmentação e derretimento.

O acompanhamento dos fragmentos deve continuar por imagens de satélite e observações oceanográficas, enquanto os dados coletados durante as expedições ajudam a esclarecer os efeitos do gelo derretido sobre a vida marinha do Oceano Austral.

Com informações de National Geographic.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA