
Estudo com dados de 1950 a 2023 identifica sinais oceânicos associados a ondas de calor e eventos quentes e secos.
O risco de calor extremo na Amazônia pode começar a aparecer nos oceanos muitos meses antes de atingir a floresta. Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Earth’s Future identificou relações entre o aquecimento associado ao El Niño no Pacífico tropical, as temperaturas do Atlântico tropical e episódios de calor intenso na bacia amazônica. Em alguns períodos, os sinais climáticos surgiram até sete meses antes, embora isso ainda não signifique que secas e ondas de calor possam ser previstas com a mesma antecedência.
O trabalho foi realizado por pesquisadores do ARC Centre of Excellence for the Weather of the 21st Century e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A equipe analisou dados mensais de temperatura, chuva e padrões climáticos de larga escala entre 1950 e 2023, dividindo a Amazônia em seis regiões climáticas para levar em conta as diferenças entre o norte, o sul, o oeste e a área central da bacia.
O sinal mais longo aparece antes do período de maior calor
A associação mais clara foi encontrada entre março e maio. Nessa época, temperaturas excepcionalmente altas em grande parte da Amazônia estiveram relacionadas a condições observadas nos oceanos até sete meses antes. O resultado indica a existência de um precursor climático, uma espécie de sinal de risco que pode ser acompanhado antes da chegada do calor extremo.
Segundo o estudo publicado na Earth’s Future, condições anormalmente quentes no Pacífico tropical e em áreas do Atlântico tropical antecederam episódios de calor extremo na Amazônia entre 1950 e 2023. A força dessa relação, porém, muda conforme a estação e o ponto da bacia analisado.
Entre setembro e novembro, os extremos de temperatura estiveram mais ligados ao aquecimento anterior do Atlântico Norte tropical. De dezembro a fevereiro, o aquecimento do Atlântico Sul tropical teve maior relevância em boa parte da bacia. No sul da Amazônia e nas áreas de transição próximas aos Andes, também foram encontrados sinais anteriores relacionados ao El Niño.
Como dois oceanos alteram o clima da floresta
O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño Oscilação Sul, conhecido pela sigla Enso. Durante esse período, o aquecimento das águas no Pacífico central e leste modifica a circulação da atmosfera. Sobre partes da Amazônia, isso pode reduzir a formação de nuvens e a chuva.
Com menos precipitação, o solo e a vegetação perdem parte do resfriamento produzido pela evaporação. Mais radiação solar chega à superfície e a temperatura tende a subir. O Pacífico também pode influenciar o Atlântico tropical, criando uma combinação capaz de reforçar condições quentes e secas em determinadas regiões.
Essa conexão não funciona como um interruptor que produz o mesmo resultado em toda a floresta. A Amazônia reúne áreas com regimes de chuva, paisagens, relevo e ciclos sazonais distintos. Por isso, uma condição oceânica favorável ao calor em uma região pode ter efeito menor ou diferente em outra.
Calor e falta de chuva são mais difíceis de prever juntos
Além de estudar a temperatura, os pesquisadores procuraram identificar eventos compostos, nos quais o calor elevado coincide com um período prolongado de pouca chuva. Essa combinação aumenta o risco de incêndios, agrava o estresse sobre os ecossistemas e pode afetar a saúde, a produção de alimentos e a disponibilidade de água.

Os resultados foram mais promissores para eventos quentes e secos entre dezembro e fevereiro em partes do norte da Amazônia e entre março e maio na região central baixa da bacia. O Enso forneceu a principal fonte de informação preditiva em grande parte do território, enquanto as temperaturas do Atlântico ganharam importância em algumas estações e áreas.
A capacidade de antecipação foi menor entre junho e agosto e em partes da Amazônia ocidental. Nesses locais, processos regionais e locais, como a umidade do solo, a condição da vegetação, o transporte de vapor d’água e a circulação atmosférica, podem pesar mais do que os quatro grandes padrões climáticos avaliados.
O que a inteligência artificial identificou
Na primeira etapa, a equipe verificou se fases fortes de quatro padrões climáticos costumavam anteceder extremos de calor ou chuva: o Enso, as anomalias de temperatura da superfície do Atlântico Norte tropical, as anomalias do Atlântico Sul tropical e a Oscilação do Atlântico Norte.
Depois, modelos de aprendizado de máquina combinaram esses sinais para tentar diferenciar meses com calor e seca simultâneos de outras condições. Em vez de observar somente se duas variáveis subiam ou desciam juntas, os pesquisadores concentraram a análise nos casos excepcionais, aqueles em que o oceano e a Amazônia apresentavam valores muito acima ou abaixo do padrão.
A pesquisadora Sanaa Hobeichi, autora principal do estudo, afirmou que o aprendizado de máquina ajudou a apontar quais sinais climáticos oferecem mais perspectivas para antecipar os extremos quentes e secos. Segundo ela, o Enso foi geralmente o indicador mais forte, mas os padrões do Atlântico foram mais informativos em algumas regiões e estações. A análise também mostrou onde esses sinais não são suficientes.
O que isso representa para os estados amazônicos
Para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, um sistema de alerta baseado em sinais oceânicos poderia apoiar decisões diferentes conforme a posição e a época do ano. Órgãos ambientais poderiam reforçar o monitoramento de incêndios, comunidades poderiam se preparar para períodos de calor e baixa vazão, e serviços de saúde poderiam organizar ações para grupos mais vulneráveis.
Essa aplicação ainda precisa ser construída. A pesquisa identificou potencial de previsibilidade, mas não testou um sistema de previsão em tempo real. Em alguns locais e estações, os modelos encontraram sinais úteis apenas um ou dois meses antes do evento. Além disso, os melhores resultados normalmente usaram também informações do próprio mês que estava sendo previsto.
Essa diferença é central: os sete meses correspondem a uma relação de antecedência para extremos de calor, não a uma previsão confiável de um evento composto de calor e seca feita sete meses antes. O estudo sugere um caminho para melhorar os alertas, mas não substitui modelos operacionais nem o acompanhamento das condições locais.
Por que o alerta antecipado importa
Eventos quentes e secos podem aumentar a probabilidade de incêndios e reduzir a capacidade da floresta de absorver dióxido de carbono. Pesquisas anteriores também indicam que o desmatamento pode prolongar períodos secos e elevar as temperaturas, o que torna a mudança no uso da terra um fator adicional de risco.
Os autores ressaltam que esses episódios se tornaram mais frequentes e intensos nas últimas décadas e tendem a se agravar com o aquecimento do clima. O próximo passo será combinar os sinais do Pacífico e do Atlântico com dados de umidade do solo, vegetação e circulação regional para desenvolver serviços de previsão mais direcionados às diferentes partes da Amazônia.
Com informações do ARC Centre of Excellence for the Weather of the 21st Century.
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