
Relatório global mostra que a transição energética cresce, enquanto o acesso à eletricidade e ao cozimento limpo continua desigual.
Como é possível o mundo instalar painéis solares e parques eólicos em ritmo recorde enquanto milhões de pessoas ainda passam a noite no escuro? A contradição é destacada pelo relatório Tracking SDG 7: The Energy Progress Report 2026, elaborado pela Agência Internacional de Energia, Agência Internacional de Energia Renovável, Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde e Divisão de Estatística das Nações Unidas. O documento mostra que a transição para fontes limpas avança, mas o acesso universal a energia acessível, confiável e moderna está atrasado em relação à meta de 2030.
Segundo o relatório, aproximadamente 655 milhões de pessoas viviam sem eletricidade no mundo em 2024. A taxa global de acesso chegou perto de 92%, um avanço importante em comparação com décadas anteriores, mas o ritmo de novas conexões diminuiu. Se a tendência continuar, o planeta não deverá cumprir o objetivo de garantir eletricidade para todos até o fim da década.
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O crescimento da energia renovável é inegável. A energia solar e a eólica deixaram de ser alternativas restritas a projetos experimentais e passaram a ocupar espaço central nas estratégias econômicas e climáticas de diversos países. A queda no preço dos equipamentos, os avanços em baterias e políticas públicas de incentivo ajudaram a acelerar esse movimento.
Governos também passaram a enxergar essas fontes como instrumentos de segurança energética. Produzir eletricidade a partir do sol e do vento pode reduzir a dependência de combustíveis importados, criar empregos e estimular novas cadeias industriais. Ainda assim, uma usina construída em uma região distante não garante que uma comunidade rural esteja conectada à rede.
O desafio envolve linhas de transmissão, redes de distribuição, sistemas locais, financiamento, manutenção e profissionais capacitados. Em áreas remotas, montanhosas, insulares ou afetadas por conflitos, o custo de levar a infraestrutura pode ser muito alto. Mesmo quando a rede chega, muitas famílias continuam sem condições de pagar a ligação ou a conta mensal.
Entenda o caso
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7, conhecido como ODS 7, prevê energia acessível, confiável, sustentável e moderna para todos até 2030. O acompanhamento internacional mede indicadores como acesso à eletricidade, uso de fontes renováveis, eficiência energética e disponibilidade de tecnologias limpas para cozinhar.
O relatório de 2026 apresenta um cenário duplo: a capacidade renovável cresce, mas os serviços básicos não avançam na mesma velocidade. A principal dificuldade está em atender populações que ficaram fora das primeiras etapas da eletrificação, justamente as mais pobres e geograficamente isoladas.
África concentra a maior parte do déficit
A África Subsaariana permanece no centro da crise de acesso. De acordo com o documento, mais de 560 milhões de pessoas da região ainda não tinham eletricidade. O crescimento populacional, a infraestrutura insuficiente, a instabilidade política, os conflitos e a dificuldade de atrair investimentos ajudam a explicar o atraso.
Em muitos países, conectar comunidades rurais exige redes extensas para atender poucas casas espalhadas por grandes distâncias. Por isso, soluções descentralizadas, como mini-redes solares e sistemas individuais para residências, podem ser mais rápidas e econômicas do que a expansão imediata das redes convencionais.
Alguns países da Ásia Central e do Sul registraram avanços mais acelerados, impulsionados por políticas públicas e investimentos contínuos. A diferença entre as regiões mostra que a tecnologia disponível não é suficiente por si só. Planejamento, financiamento e capacidade de execução são decisivos.
O problema também está dentro de casa
A pobreza energética não se resume à falta de uma lâmpada. Sem eletricidade, crianças têm dificuldade para estudar depois do anoitecer, unidades de saúde enfrentam problemas para conservar vacinas e medicamentos, agricultores não conseguem operar sistemas de irrigação e pequenos negócios perdem horas produtivas.
O acesso à energia também está ligado à conectividade digital, ao abastecimento de água, à segurança alimentar e à geração de renda. Em regiões da Amazônia, por exemplo, comunidades ribeirinhas e localidades afastadas dos centros urbanos enfrentam desafios semelhantes quando dependem de geradores caros ou de sistemas sujeitos à falta de combustível e à manutenção irregular.
Na Amazônia brasileira, soluções solares associadas a baterias e redes comunitárias podem apoiar escolas, postos de saúde, sistemas de comunicação e atividades produtivas nos nove estados da região. A implantação, porém, precisa considerar transporte, sazonalidade das chuvas, assistência técnica e participação dos moradores para evitar equipamentos abandonados após a instalação.
Dois bilhões ainda cozinham com fumaça
Outro alerta do relatório envolve o cozimento limpo. Cerca de 2 bilhões de pessoas ainda usam lenha, carvão, resíduos agrícolas, carvão mineral ou esterco para preparar alimentos. Fogões ineficientes e fogueiras liberam fumaça dentro das casas, aumentando a exposição a poluentes associados a doenças respiratórias e cardiovasculares.
Mulheres e crianças costumam ser as mais expostas, tanto pelo tempo passado perto do fogo quanto pela coleta de lenha. Em algumas comunidades, meninas percorrem longas distâncias para buscar combustível, deixando de estudar. A substituição por eletricidade, gás, biogás ou fogões mais eficientes pode reduzir riscos à saúde e liberar tempo para educação e trabalho.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso de combustíveis poluentes em ambientes domésticos está relacionado a problemas respiratórios e mortes prematuras, especialmente entre crianças pequenas e pessoas vulneráveis. O avanço da energia renovável, portanto, precisa ser medido também pela qualidade do serviço dentro das casas, e não apenas pela quantidade de megawatts produzidos.
O que pode mudar até 2030
As alternativas já existem. Mini-redes solares, sistemas solares domésticos, baterias mais baratas e equipamentos de maior eficiência podem levar eletricidade a locais onde a expansão convencional demoraria anos. Essas soluções permitem que países construam redes mais limpas sem repetir totalmente o modelo baseado em grandes usinas e longas linhas de transmissão.
O relatório, porém, alerta que tecnologia sem política pública não resolve a desigualdade. Será necessário ampliar o financiamento internacional, melhorar o planejamento nacional, reduzir barreiras para projetos locais e criar tarifas compatíveis com a renda das famílias. Também será importante treinar equipes para instalar, operar e consertar os sistemas.
O próximo passo será transformar o crescimento das fontes renováveis em acesso efetivo, com novos investimentos e políticas capazes de acelerar as conexões e ampliar o cozimento limpo antes do prazo de 2030.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas ainda vivem sem eletricidade?
O relatório Tracking SDG 7: The Energy Progress Report 2026 estima que aproximadamente 655 milhões de pessoas estavam sem eletricidade em 2024.
Qual é a relação entre energia renovável e pobreza energética?
Fontes renováveis podem gerar eletricidade com menos emissões, mas sua instalação não garante conexão, tarifa acessível ou manutenção. O acesso depende também de redes, financiamento e políticas públicas.
Quantas pessoas ainda cozinham com combustíveis poluentes?
Cerca de 2 bilhões de pessoas continuam usando lenha, carvão, resíduos agrícolas ou outros combustíveis e tecnologias poluentes para cozinhar.
Com informações de Agência Internacional de Energia, Agência Internacional de Energia Renovável, Banco Mundial, Organização Mundial da Saúde e Divisão de Estatística das Nações Unidas.
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