
Achados foram identificados durante atividade de campo da UEA no bairro da Francesa e integram uma área com 42 sítios arqueológicos mapeados.
Uma escavação revelou uma ocupação antiga
Onde moradores podem enxergar apenas pequenas pedras no solo, arqueólogos identificaram restos de ferramentas, fragmentos de cerâmica e sinais de uma ocupação humana com mais de três mil anos. Os materiais foram encontrados em uma área residencial do bairro da Francesa, no Centro Histórico de Parintins, durante uma atividade de campo da Universidade do Estado do Amazonas, a UEA. A análise do conjunto apontou a presença de cerâmicas Pocó-Açutuba, associadas aos primeiros ceramistas da Amazônia, além de objetos e fragmentos usados na produção de adornos.
A atividade reuniu pesquisadores e estudantes de graduação do curso de Arqueologia da UEA. As escavações ocorreram em novembro de 2025, quando a equipe avançou por camadas de solo usando técnicas próprias da arqueologia. A descoberta foi divulgada em 1º de maio de 2026. O trabalho ocorreu dentro de uma área que já vinha sendo mapeada desde 2018 e que faz parte de um conjunto de 42 sítios arqueológicos identificados em Parintins. A localização em uma área urbana mostra que vestígios importantes podem permanecer sob terrenos ocupados e construções do cotidiano.
Cerâmicas coloridas guardam marcas de uma tecnologia amazônica
Entre os achados, a cerâmica chamou atenção pelo padrão visual que se repete em diferentes fragmentos. As peças apresentam combinações de branco, amarelo ou alaranjado e preto, além de uma decoração considerada expressiva pela equipe. O conjunto foi identificado como cerâmica Pocó-Açutuba, produzida por povos originários que dominaram técnicas de fabricação e ornamentação muito antes da formação da cidade atual. Também foram encontrados alargadores e outros utensílios decorativos, indicando que parte dos materiais estava relacionada ao uso no corpo ou à produção de pequenas peças.
A arqueóloga Clarice Bianchezzi, que participou da descoberta, explicou que a repetição dos padrões cerâmicos ajudou a reconhecer o perfil do material durante a escavação. A identificação não dependeu de um fragmento isolado, mas da observação do conjunto distribuído nas camadas removidas. Cerâmicas, peças decorativas e ferramentas foram organizadas no campus da UEA em Parintins. O acervo deverá passar por novas análises laboratoriais, que podem ampliar a leitura sobre a fabricação, o uso e a circulação dos objetos encontrados no terreno.
Pequenas pedras foram reconhecidas como ferramentas
Outra parte do conjunto estava formada por fragmentos líticos, materiais feitos de rocha que, à primeira vista, poderiam ser confundidos com pedras comuns. A equipe identificou marcas e formatos compatíveis com ferramentas usadas para perfurar e produzir objetos pequenos. Entre as possibilidades de uso descritas pelos arqueólogos estão a fabricação de colares, pingentes e outros adornos, além da perfuração de rochas. O material apareceu associado à cerâmica em todos os níveis de solo removidos durante a escavação.
Essa distribuição foi importante para a interpretação do sítio. Segundo Bianchezzi, a presença dos fragmentos líticos em diferentes camadas indica domínio de uma indústria lítica, expressão usada para descrever a produção de ferramentas de pedra. O achado não representa apenas a existência de objetos acabados, mas também vestígios de atividades técnicas realizadas por pessoas que viveram na área. A combinação entre ferramentas, cerâmicas decoradas e utensílios para adornos oferece pistas sobre práticas de fabricação que ocorreram na ilha que forma o atual município de Parintins.
As camadas do solo indicam presença numerosa
Durante a retirada controlada do solo, os pesquisadores observaram que os materiais se repetiam em diferentes níveis. A densidade dos achados, ou seja, a quantidade de peças concentradas em cada camada, foi usada para interpretar que havia uma ocupação numerosa de pessoas na área. Essa leitura ajuda a deslocar o olhar de uma descoberta isolada para um espaço onde diferentes atividades foram realizadas ao longo do tempo. As evidências reúnem produção cerâmica, fabricação de ferramentas e criação de peças decorativas.
Os vestígios também ampliam o conhecimento sobre a presença humana antiga em Parintins. A área atualmente cercada por moradias integra um território que já reúne 42 sítios arqueológicos identificados desde o início do mapeamento em 2018. Cada camada preservada acrescenta informações sobre como os povos originários utilizavam o espaço, selecionavam matérias-primas e produziam objetos. A interpretação, porém, depende da continuidade das pesquisas e das novas análises laboratoriais previstas para o material guardado na universidade. A idade estimada em mais de três mil anos situa o conjunto entre os registros mais antigos associados à ocupação humana identificados nesse trabalho.
Pesquisa segue com materiais preservados na universidade
Depois da escavação, os objetos foram separados, organizados e mantidos no campus da UEA em Parintins. A preservação permite que os fragmentos sejam examinados novamente e comparados com outros materiais arqueológicos da Amazônia. Especialistas em arqueologia amazônica também tinham visita prevista para maio, em um encontro voltado à formação de novos arqueólogos e ao estímulo de pesquisas na ilha. A atividade aproxima estudantes, pesquisadores e o território onde os vestígios foram encontrados.
Os achados não permitem, sozinhos, reconstruir toda a história da ocupação nem determinar exatamente quantas pessoas viveram no local. A estimativa de idade é apresentada a partir das análises realizadas, enquanto a pesquisa sobre os objetos continua. Também é preciso distinguir a identificação de um conjunto cerâmico e lítico da definição de todas as funções que cada peça cumpria. Ainda assim, a descoberta já produz uma consequência concreta: um terreno residencial passa a ser reconhecido como parte de uma paisagem arqueológica mais antiga, na qual técnicas, adornos e escolhas de materiais atravessaram milhares de anos até reaparecerem durante uma atividade universitária. Em Parintins, o passado não estava separado da vida urbana, mas preservado sob ela.
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