Espinossauro passava a maior parte da vida debaixo da água, aponta inteligência artificial treinada com mais de 11 mil medidas de esqueletos

Espinossauro passava a maior parte da vida debaixo da água, aponta inteligência artificial treinada com mais de 11 mil medidas de esqueletos
Reconstrução do espinossauro (Spinosaurus aegyptiacus) com cauda em forma de remo. Ilustração: Gustavo Monroy-Becerril, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Poucos dinossauros provocam tanta briga entre paleontólogos quanto o espinossauro. Maior que o tiranossauro em comprimento, com uma vela enorme nas costas e focinho de crocodilo, ele viveu há entre 113 milhões e 94 milhões de anos no que hoje é o norte da África. Que ele gostava de água, quase todo mundo concorda. A dúvida é quanto. Um estudo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, publicado na revista Current Biology, usou inteligência artificial para responder e concluiu que o animal passava a grande maioria do tempo submerso.

Bichos que voltaram para a água

Ao longo da evolução, a vida saiu dos oceanos e conquistou a terra. Mas o caminho nem sempre foi de mão única. Dezenas de grupos de mamíferos e répteis fizeram o trajeto de volta e se adaptaram de novo à água. Baleias, focas, tartarugas marinhas e vários répteis extintos são exemplos.

Esses grupos ganharam adaptações muito parecidas, como nadadeiras e corpos hidrodinâmicos, e viraram exemplos clássicos de evolução convergente. O problema é que, nos fósseis, nem sempre é fácil dizer se um animal extinto vivia na água, em terra ou nos dois ambientes. Pistas diferentes do esqueleto muitas vezes apontam para lados opostos.

Inteligência artificial treinada com bichos vivos

O primeiro autor, o paleontólogo Caleb Gordon, desenvolveu modelos de aprendizado de máquina relativamente simples, treinados com animais vivos. Os modelos aprendem a relação entre as proporções do esqueleto e o estilo de vida conhecido de cada espécie e, depois, estimam como os animais extintos usavam a água. Também conseguem prever estruturas de tecido mole, como nadadeiras de pele, que quase nunca se preservam em fósseis.

A equipe examinou centenas de esqueletos fósseis e atuais do Museu Peabody de Yale e de dezenas de instituições do mundo e reuniu mais de 11 mil medidas, além de fotos e tomografias. O trabalho incluiu até uma abordagem estatística criada originalmente por forças navais durante a Segunda Guerra Mundial. As proporções dos membros anteriores se mostraram especialmente úteis, e os modelos acertaram em mais de 90% dos casos se um animal tinha nadadeiras.

Para o paleontólogo Bhart-Anjan Bhullar, autor sênior do estudo, reconstruir a vida de animais extintos de forma rigorosa, e não apenas contar histórias, exige combinar o conhecimento profundo dos animais vivos com a genealogia das espécies fósseis.

Garça gigante ou caçador submerso

No caso do espinossauro, existiam duas interpretações principais. Uma via o animal como um caçador que mergulhava e perseguia peixes debaixo da água, um pouco como focas e pinguins. A outra imaginava um bicho que andava pelas margens e águas rasas procurando comida, como uma garça gigante. Um estudo de 2026 com outro fóssil chegou a limitar a hipótese do nado profundo.

A análise de Yale apoia a versão mais aquática. Segundo Gordon, os resultados indicam com confiança hábitos altamente aquáticos e mostram que o espinossauro passava a vasta maioria do tempo submerso. O estudo não resolve todas as dúvidas sobre como ele caçava, mas reforça a ideia de um predador muito mais ligado à água do que à terra.

O caso dos mesossauros, que viveram no Brasil

A pesquisa chegou à conclusão oposta para os mesossauros, pequenos répteis aquáticos que viveram entre 290 milhões e 274 milhões de anos atrás em regiões que hoje fazem parte do sul da África e do leste da América do Sul. Fósseis desses animais são encontrados no Brasil, em rochas da chamada Formação Irati, que aflora em estados como São Paulo e Paraná, e ficaram famosos por ajudar a comprovar que a América do Sul e a África já foram unidas.

Como davam à luz filhotes vivos, os mesossauros eram vistos por alguns pesquisadores como totalmente aquáticos. O novo modelo indica que os membros deles não eram adaptados a uma vida inteira na água. Eles passavam bastante tempo em terra, como um jacaré ou um ornitorrinco de hoje, segundo Gordon. O mesmo valeu para todos os répteis marinhos da era paleozoica, anteriores aos dinossauros: nenhum deles parece ter abandonado a terra por completo.

Por que isso importa

Entender quando cada grupo se tornou realmente aquático ajuda a reconstruir como a vida respondeu a mudanças ambientais ao longo de centenas de milhões de anos. O método também pode ser aplicado a outros fósseis polêmicos, transformando debates baseados em impressões em análises com números. No caso do espinossauro, a imagem que fica é a de um gigante de vários metros deslizando sob a superfície de rios antigos do norte da África, com a vela nas costas aparecendo acima da água.

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