
Pesquisa mostra como a luz do fim do dia reorganiza o DNA das larvas antes de elas se fixarem no fundo do mar.
Imagine um animal que não tem cérebro, nervos nem neurônios, mas consegue se preparar para uma mudança decisiva ao perceber que o dia está terminando. É isso que acontece com larvas de esponjas-do-mar: o pôr do sol funciona como um aviso biológico que reorganiza partes do DNA antes de elas deixarem a vida livre na água e se transformarem em organismos presos ao fundo do mar.
A descoberta foi descrita por pesquisadores da University of Queensland em um estudo publicado em 4 de setembro de 2026. O trabalho ajuda a explicar como as esponjas realizam uma metamorfose rápida, iniciada depois que encontram um local adequado para se fixar, mesmo sem contar com um sistema nervoso capaz de processar sinais como fazem outros animais.
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Durante a primeira fase da vida, as esponjas são larvas que nadam livremente. Pequenas, com aproximadamente metade do tamanho de uma semente de chia, elas percorrem a água em busca de uma alga ou superfície apropriada para se estabelecer.
Depois da escolha, a larva deixa de ser um organismo móvel e passa a formar uma estrutura irregular, esponjosa e permanentemente presa. O processo lembra uma metamorfose, mas ocorre de maneira diferente da transformação de uma lagarta em borboleta. Não existe casulo para protegê-la e toda a mudança acontece exposta ao ambiente marinho.
Segundo a University of Queensland, larvas de esponjas-do-mar usam o pôr do sol como sinal ambiental para preparar a metamorfose antes de ela começar, em um mecanismo identificado em pesquisa divulgada em setembro de 2026.
O pôr do sol prepara o próximo passo
A relação com o fim do dia foi percebida antes da análise genética. Em 2020, o grupo de pesquisa observou que as larvas não se fixavam quando eram impedidas de vivenciar o pôr do sol. Isso acontecia mesmo quando elas estavam próximas de algas consideradas adequadas para o assentamento.
O resultado indicou que encontrar o lugar certo não era suficiente. A larva também precisava receber o sinal temporal correto. A nova pesquisa avançou justamente nessa pergunta: de que maneira a luz do entardecer interfere em uma transformação tão importante para um animal sem cérebro?
Para investigar o fenômeno, os cientistas compararam alterações no DNA e no RNA das larvas antes e durante a metamorfose. O RNA ajuda a mostrar quais genes estão ativos em determinado momento. Já a análise da acessibilidade da cromatina revela quais regiões do DNA estão abertas para serem lidas e utilizadas pela célula.
Genes ficam prontos antes de serem acionados
Os dados indicaram que o pôr do sol não liga imediatamente todos os genes responsáveis pela fixação e pela metamorfose. Primeiro, ele deixa acessíveis as regiões do DNA relacionadas a essas funções. É como preparar uma partitura e marcar as linhas que serão executadas antes de a música começar.
Assim, quando chega o momento adequado, a larva não precisa iniciar todo o processo do zero. Os trechos genéticos já estão organizados para responder rapidamente aos sinais seguintes. A preparação antecipada ajuda a explicar por que a transformação ocorre em um intervalo tão curto.
Em cerca de 30 minutos, tempo comparável ao necessário para uma cola secar, a larva consegue se prender firmemente e começa a desmontar a estrutura do corpo que usava enquanto nadava.

A velocidade pode ser uma questão de sobrevivência
A rapidez não parece ser apenas uma curiosidade biológica. Corais, ouriços-do-mar e ostras também passam por metamorfoses em ambientes abertos, sem uma estrutura protetora semelhante ao casulo de alguns insetos. Durante a transição, esses animais ficam expostos a predadores, correntes e outras condições adversas.
Preparar o material genético antes da hora pode reduzir o período de vulnerabilidade. A hipótese dos pesquisadores é que esse tipo de antecipação também possa existir em outros invertebrados marinhos que precisam mudar de forma rapidamente.
O estudo não afirma que todas essas espécies usem exatamente o mesmo mecanismo. A contribuição principal está em mostrar uma estratégia possível: o organismo reconhece uma pista ambiental recorrente, prepara seus genes e espera o sinal adequado para iniciar uma transformação complexa.
Uma pista sobre a origem dos animais
As esponjas estão entre os grupos animais mais antigos ainda existentes, com uma história evolutiva estimada em cerca de 700 milhões de anos. Por isso, observar como seus genes funcionam pode oferecer pistas sobre mecanismos que surgiram muito cedo na evolução animal.
Um dos genes envolvidos no processo é o CLOCK, conhecido também por participar da regulação dos ritmos circadianos em seres humanos. A presença de funções semelhantes em uma esponja e em animais com sistemas nervosos mais complexos sugere que alguns componentes da relação entre ambiente, tempo e atividade biológica são muito antigos.
Isso não significa que a esponja tenha consciência da passagem do dia ou faça uma previsão deliberada. A antecipação, neste caso, é o resultado de uma sequência celular moldada pela evolução. O pôr do sol ativa sinais que deixam o organismo biologicamente preparado para o que vem depois.
Por que a descoberta importa para a Amazônia
Para a Amazônia, a pesquisa interessa especialmente pelo que revela sobre a vida marinha e sobre a capacidade de organismos simples responderem a mudanças ambientais. A região amazônica não termina nas áreas de floresta: rios, estuários e zonas costeiras conectam estados como Pará, Amapá e Maranhão a uma extensa faixa de ambientes marinhos, onde a biodiversidade também depende de ciclos de luz, maré e temperatura.
O mecanismo descrito pelos pesquisadores não deve ser automaticamente atribuído às esponjas encontradas no litoral brasileiro. Cada espécie pode responder a sinais diferentes e exige investigação própria. Ainda assim, entender como animais marinhos sincronizam desenvolvimento e ambiente ajuda a formular perguntas importantes para estudos de biodiversidade, mudanças climáticas e conservação costeira em toda a Amazônia.
A pesquisa também reforça que a complexidade da vida não depende necessariamente de um cérebro. Em organismos muito antigos, informações do ambiente podem ser convertidas diretamente em mudanças no funcionamento do DNA, permitindo que o animal atravesse momentos críticos no ritmo certo.
O que os pesquisadores vão observar agora
O próximo passo é descobrir se a preparação genética observada nas esponjas representa uma estratégia comum entre outros animais marinhos e quais sinais, além do pôr do sol, participam da decisão de se fixar. A comparação com corais, ostras e ouriços pode mostrar até que ponto a antecipação evoluiu de forma independente ou foi herdada de ancestrais distantes.
O estudo que detalha o mecanismo está disponível no artigo científico publicado pela equipe da University of Queensland neste registro de pesquisa. A observação de 2020 sobre a necessidade de as larvas vivenciarem o entardecer também foi citada pelos autores como base para a nova investigação.
Com informações de University of Queensland.
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