Estradas antigas do Acre: 955 vias retas saíam de geoglifos

Estradas antigas do Acre: 955 vias retas saíam de geoglifos
Figura 2 de Kalliola, Pärssinen, Ranzi e Barbosa, Latin American Antiquity, 2026 (foto aérea de Martti Pärssinen), licença CC BY 4.0

Um estudo publicado em 14 de abril de 2026 na revista Latin American Antiquity confirmou 955 estradas antigas, somando 350 quilômetros, em uma região de 134.400 km² no sudoeste da Amazônia, em torno de Rio Branco, no Acre. Os pesquisadores localizaram as vias em imagens de satélite, e 94,6% delas são retas.

A rede ajuda a mudar a leitura sobre os geoglifos. Eles não eram recintos isolados: muitos tinham avenidas largas e simétricas que partiam do centro de um dos lados, e outras vias estreitas levavam a rios e a aldeias vizinhas. O artigo é de acesso aberto e é assinado por Risto Kalliola, Martti Pärssinen, Alceu Ranzi e Antonia Damasceno Barbosa.

Como as estradas foram encontradas sem entrar na mata

Os autores usaram imagens de satélite disponíveis entre 2021 e 2023 em plataformas públicas de mapas e examinaram cada estrada uma a uma. Elas aparecem como linhas retas em forma de vala, com terra acumulada dos dois lados, e se distinguem de rodovias, trilhas de veículos, caminhos de gado e cercas de pasto. A equipe também recorreu à experiência de campo e a fotos aéreas feitas de avião.

O método tem uma limitação que os próprios autores apontam. Só é possível ver as estradas onde as árvores já foram derrubadas, e esse terreno aberto corresponde a 20,5% da área estudada, ou 27.569 km². O satélite óptico enxerga menos do que o laser aéreo (lidar), mas cobre uma extensão muito maior.

Duas famílias de estradas, duas funções

O inventário reuniu 634 estradas largas e 321 estreitas. As largas, com início de 15 a 40 metros de largura e estreitamento gradual, estão ligadas aos geoglifos, recintos geométricos cercados por vala e aterro. Para os autores, seu papel era cerimonial, e a forma de cunha dava monumentalidade ao local.

As estreitas aparecem sobretudo em aldeias de montículos, que se multiplicam na região a partir de cerca de 1200 d.C. Muitas irradiam de uma praça central e passam entre os montículos, o que sugere circulação cotidiana até roças, áreas de caça e fontes de água. Outras são longas e ligam povoados. A maior sequência de segmentos encadeados chega a 28,9 quilômetros, com trechos sob mata, e conecta quatro aldeias de montículos. A estrada isolada mais longa tem 5,5 km.

Para onde as estradas levavam

Quando o ponto final pôde ser observado, 39,7% das estradas terminavam em ambiente de rio, o que indica acesso à água. Outros 10,6% ligavam uma obra de terra a outra, sinal de integração entre os lugares. A metade restante, 49,7%, se perdia no terreno aberto atual, sem marca que indique o destino.

As obras de formato quadrilátero têm mais estradas do que as arredondadas: 60,2% contra 49,9%. Nas quadrangulares, 81,7% das vias saíam do meio de um lado reto. Muitas das que partem de geoglifos seguem os quatro pontos cardeais, e os autores veem nisso uma possível atenção a observações astronômicas, sem tratar a hipótese como comprovada.

O que muda na visão da Amazônia antiga

Segundo o artigo, as 955 vias eram muito retas e bem planejadas, o que sugere sociedades complexas. As estradas não são contemporâneas. A datação por radiocarbono, citada pelos autores a partir de trabalho anterior, aponta que a construção começou no Acre entre 763 e 399 a.C. e que as vias mais antigas pertencem à civilização Aquiry, construtora dos geoglifos, até cerca de 950 d.C. Depois vieram as aldeias de montículos com estradas radiais.

O estudo lembra que cronistas do século 16, como Francisco de Orellana e Gaspar de Carvajal, já descreviam estradas na Amazônia, mas as observações tiveram pouco reconhecimento. As vias do Acre, hoje medidas e classificadas, dão a esse registro antigo uma base física.

A ligação com a floresta de hoje

Estradas longas e retas exigem boa visibilidade, e isótopos de carbono em sítios de geoglifos indicam queimadas seletivas de pequenas manchas de campo, sem sinal de que a vegetação geral fosse savana entre 2.700 e 500 anos atrás. Os autores sugerem que os moradores podem ter aberto clareiras com fogo, talvez aproveitando bambuzais secos depois da floração.

O que a derrubada revelou agora corre risco. Rodovias, trilhas de carro e caminhos de gado cruzam as estradas antigas, e a aração de áreas para lavoura e a erosão pela chuva, sem a proteção da copa, avançam sobre elas. Os autores defendem proteção rápida e definitiva. Os geoglifos do Acre constam da lista indicativa de Patrimônio Mundial da Unesco, segundo o artigo.

Entenda

Geoglifo é um recinto geométrico de terra, com vala e aterro, construído por povos antigos no Acre. Civilização Aquiry é o nome que os pesquisadores dão aos construtores dessas obras. Aldeia de montículos é um povoado com montes de terra dispostos em volta de uma praça central. Lidar é o escaneamento a laser feito de aeronave, que atravessa as frestas da copa para medir o relevo.

Perguntas frequentes

Quantas estradas antigas o estudo encontrou no Acre?

955 estradas, com 350 km no total, sendo 634 largas e 321 estreitas. A área estudada tem 134.400 km² no sudoeste da Amazônia.

As estradas foram achadas com lidar?

Não. Foram identificadas em imagens de satélite, o que só funciona em terreno desmatado, cerca de 20,5% da área.

Para que serviam?

As largas, ligadas a geoglifos, teriam função cerimonial. As estreitas, de aldeias de montículos, serviam à circulação diária e à ligação entre povoados, segundo os autores.

As estradas têm a mesma idade?

Não. A construção começou entre 763 e 399 a.C., e as estradas das aldeias de montículos são mais recentes, a partir de cerca de 1200 d.C.

O que fazer a seguir

Os autores disponibilizaram em arquivo KML o traçado das estradas, para consulta e novas pesquisas, e pedem proteção imediata dos sítios em áreas abertas. Quem encontrar valas retas ou aterros geométricos em área aberta pode avisar o Iphan, órgão federal do patrimônio, antes de arar ou abrir pasto. Escavações e datações específicas podem dizer quais estradas são contemporâneas e para onde levavam as que somem no pasto.

Com informações de Latin American Antiquity (Cambridge University Press), Sociedade de Arqueologia Americana, Universidade de Turku, Universidade de Helsinque e Universidade Federal do Acre.

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