
Análise de 151 estrelas revela que a composição das atmosferas altera a aparência esperada desses restos estelares.
Uma estrela que pareceria verde no céu foi identificada em uma análise das cores de anãs brancas, os restos extremamente densos deixados por estrelas semelhantes ao Sol. O objeto WDJ1330+6435 tem cerca de 4.000 graus Celsius e acumula em sua atmosfera elementos vindos de material rochoso de um antigo sistema planetário. O resultado, calculado a partir do espectro da estrela, é uma tonalidade verde-amarelada, chamada de chartreuse pelos pesquisadores.
O estudo foi conduzido por astrônomos da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e publicado em 14 de outubro de 2026 na revista científica RAS Techniques and Instruments. Os autores afirmam que essa é a primeira estrela conhecida com aparência genuinamente verde para a visão humana, embora ela esteja distante demais para que sua cor seja observada diretamente da Terra.
A cor foi reconstruída a partir da luz
Para chegar ao resultado, a equipe não fotografou as estrelas com cores reais. Os pesquisadores analisaram espectros, registros que dividem a luz em diferentes comprimentos de onda, como um prisma separa a luz solar em uma faixa semelhante a um arco-íris.
Esses dados revelam a temperatura e a composição química de uma estrela. Depois, os espectros foram processados por um modelo de visão humana para estimar qual seria a cor percebida pelo olho caso fosse possível observar cada objeto de perto.
Segundo a Universidade de Warwick, o estudo publicado em 14 de outubro de 2026 mostrou que a composição química das atmosferas pode fazer anãs brancas parecerem verdes, rosas, amarelas, ciano, roxas ou alaranjadas.
Por que essas estrelas fogem da regra da temperatura
Em muitas estrelas, a cor funciona como um indicador relativamente direto de temperatura. Corpos mais frios tendem ao laranja ou ao vermelho, enquanto estrelas muito quentes podem assumir tons azulados. O Sol, visto de fora da atmosfera terrestre, é percebido como branco.
As anãs brancas, porém, não se comportam sempre como radiadores perfeitos. Suas atmosferas podem alcançar densidades próximas de 1 grama por centímetro cúbico, valor comparável ao da água e milhões de vezes superior à densidade da fotosfera solar.
Nesse ambiente comprimido, elementos presentes em pequenas quantidades, como carbono, cálcio e sódio, interagem com o plasma de hélio. A interação faz com que esses elementos absorvam faixas mais amplas da luz. Assim, a aparência final se afasta das cores esperadas apenas pela temperatura.
O sódio deixa uma estrela com aspecto verde
WDJ1330+6435 é o caso mais chamativo encontrado pela equipe. A estrela recebeu material rochoso de seu próprio sistema planetário, provavelmente restos de corpos que foram destruídos ou fragmentados depois da evolução da estrela original.
Esse material enriqueceu a atmosfera da anã branca com cálcio, lítio e sódio. O sódio absorve principalmente partes da luz nas faixas amarela, laranja e vermelha. Com essas cores reduzidas, a luz restante produz o aspecto esverdeado calculado no modelo.
“Os traços de sódio na atmosfera desta anã branca absorvem a parte laranja do espectro, deixando para trás um brilho verde fantasmagórico. Imagine estar em um planeta e olhar para uma estrela verde. Parece algo saído da ficção científica”, afirmou Mark Hollands, pesquisador da Universidade de Warwick e líder do trabalho.
A pesquisa também encontrou o que pode ser uma das estrelas mais avermelhadas já registradas. A anã branca WD J1011+2845 está a 48 anos-luz da Terra e possui uma zona de convecção profunda, capaz de trazer carbono do interior até a superfície.
Na superfície, o carbono forma moléculas que alteram intensamente a passagem da luz. O efeito concentra quase toda a radiação observável em comprimentos de onda superiores a 600 nanômetros, produzindo uma tonalidade rosa-salmão profunda.
O levantamento mostra que o branco ainda predomina
A equipe examinou uma amostra representativa de 151 anãs brancas localizadas em um raio de 20 parsecs, aproximadamente 65 anos-luz. Cinco objetos apresentaram cores fora do padrão mais comum: dois amarelados e três rosados.
A proporção indica que cerca de uma em cada 30 anãs brancas no Universo pode emitir luz com coloração incomum. Ainda assim, a maioria não foge do aspecto tradicional. Entre as 146 estrelas restantes, a temperatura de cor mediana foi de aproximadamente 6.800 kelvins, valor percebido como branco.
Esse resultado também ajuda a corrigir uma impressão comum na astronomia: a de que as anãs brancas são predominantemente azuis. As mais quentes e azuladas brilham com maior intensidade e podem ser detectadas a distâncias maiores. Por isso, levantamentos baseados apenas no brilho tendem a registrar essas estrelas com mais facilidade.
O que a composição revela sobre sistemas planetários
As cores não são apenas uma característica visual. Elas funcionam como pistas sobre o passado de cada estrela e sobre o material que ainda permanece ao seu redor.
Anãs brancas ricas em carbono tendem a apresentar tons rosa ou roxo. Objetos que incorporaram detritos de asteroides e cometas podem assumir aparência amarelada. Já atmosferas frias formadas por uma mistura de hidrogênio e hélio podem produzir tonalidades ciano ou azul-claro, devido à colisão entre moléculas de hidrogênio e átomos de hélio.
Esse mecanismo oferece uma forma indireta de estudar sistemas planetários depois da morte da estrela central. A presença de cálcio, sódio, magnésio ou lítio na atmosfera de uma anã branca pode indicar que material rochoso foi atraído para sua superfície. O estudo não demonstra, sozinho, como eram os planetas desses sistemas, mas amplia as informações que podem ser extraídas da luz estelar.
Para a astronomia observacional, o próximo passo é aplicar a mesma análise a amostras maiores e a objetos com diferentes temperaturas e composições. Isso pode ajudar a separar melhor o efeito de cada elemento químico e a identificar quantas anãs brancas coloridas existem na vizinhança galáctica.
Com informações da Universidade de Warwick.
Leia o estudo completo
O artigo Any colour you like: The diverse chromaticities of white dwarfs está disponível na revista RAS Techniques and Instruments. Acesse o estudo sobre as cores das anãs brancas.
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