Evolução não basta para salvar o albatroz do aquecimento

Casal de albatrozes-de-sobrancelha-negra lado a lado

Estudo com mais de 30 anos de dados sobre o albatroz-de-sobrancelha-negra mostra que a adaptação genética é lenta demais para acompanhar a mudança do clima, e que cortar emissões reduz pela metade o risco de extinção da espécie.

Fotos: Samantha Patrick e Christopher Barbraud

Cortar as emissões de gases de efeito estufa reduz praticamente pela metade a probabilidade de extinção do albatroz-de-sobrancelha-negra (Thalassarche melanophris). Esperar que a própria espécie evolua para se ajustar ao novo clima não resolve. A conclusão é de um estudo publicado em 21 de setembro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por uma equipe liderada pela ecóloga Stéphanie Jenouvrier, cientista sênior da Instituição Oceanográfica de Woods Hole (WHOI), nos Estados Unidos.

“A evolução pode ajudar as populações a lidar com a mudança ambiental, mas nossos resultados mostram que ela tem limites”, disse Jenouvrier. “Para essa ave marinha de vida longa, limitar a magnitude da mudança climática tem um efeito muito maior sobre a persistência da população do que a adaptação evolutiva sozinha.”

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A pergunta que move o trabalho é clássica na biologia e ganhou urgência com o aquecimento global. Os cientistas chamam de resgate evolutivo o processo em que a seleção natural favorece os indivíduos mais aptos ao novo ambiente com rapidez suficiente para impedir que a população desapareça. A ideia costuma ser lembrada como uma espécie de seguro natural contra a perda de biodiversidade. O problema é o relógio. Em espécies que vivem muito e se reproduzem devagar, cada geração leva anos para ser substituída, e o ambiente pode piorar antes que a evolução tenha tempo de fazer diferença.

O albatroz-de-sobrancelha-negra é um caso exemplar. Ave pelágica, passa a maior parte da vida planando em alto-mar no Oceano Austral e nos mares vizinhos, com asas que chegam a 2,25 metros de envergadura. Vive décadas e se reproduz lentamente, justamente o perfil em que a evolução corre atrás do prejuízo.

Albatroz-de-sobrancelha-negra no ninho nas Ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, onde vive a população acompanhada pelos pesquisadores.
Albatroz-de-sobrancelha-negra no ninho nas Ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, onde vive a população acompanhada pelos pesquisadores. Foto: Christopher Barbraud

Pesquisadores franceses acompanham a população de albatrozes das Ilhas Kerguelen, território francês no sul do Oceano Índico, desde 1960. O monitoramento é conduzido pelo Centro de Estudos Biológicos de Chizé, ligado ao Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e à Universidade de La Rochelle, com os biólogos Christophe Barbraud e Henri Weimerskirch entre os autores do novo trabalho. Para a análise, a equipe usou mais de três décadas de dados demográficos e de características individuais das aves.

Com esses registros, os cientistas construíram um modelo de computador eco-evolutivo, que combina a dinâmica da população, a forma como as características passam de pais para filhos e grandes conjuntos de projeções de modelos climáticos globais. Quatro características funcionais entraram na conta, de natureza física, comportamental e de calendário reprodutivo, cada uma ligada a uma fase diferente do ciclo de vida. Uma delas é o comprimento da asa, associado à sobrevivência dos jovens.

“Algumas características, como o comprimento da asa, podem ajudar as aves jovens a sobreviver, mas a questão-chave é se as mudanças evolutivas nessas características conseguem acontecer rápido o bastante para acompanhar a mudança climática”, afirmou a coautora Joanie Van de Walle, da Universidade do Québec em Rimouski, no Canadá.

Sob o clima relativamente estável do passado, deixar a população evoluir levou a projeções de populações maiores. Nos cenários de aquecimento futuro, porém, a evolução não impediu o declínio. Um resultado contraria a intuição: aumentar a herdabilidade, isto é, a parcela das características transmitida de pais para filhos, pouco alterou o risco de extinção. Para os autores, a capacidade de adaptação depende também da força com que a seleção natural favorece cada característica, de como o ambiente afeta sobrevivência e reprodução e da velocidade com que o clima muda.

O resgate evolutivo só apareceu em uma situação, no cenário climático mais otimista, quando a própria mudança do clima intensificou a seleção sobre o comprimento da asa. A mitigação, com redução das emissões, cortou a probabilidade de extinção em cerca de metade.

“O ritmo e a magnitude do aquecimento futuro afetam a eficácia da adaptação evolutiva”, disse a coautora Marika Holland, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR), dos Estados Unidos. “Reduzir a mudança climática futura, diminuindo as emissões de gases de efeito estufa, desacelera o declínio da população e permite que a adaptação evolutiva promova a persistência da população.”

A pesquisa interessa diretamente ao Brasil. Segundo o Projeto Albatroz, o albatroz-de-sobrancelha-negra é o mais comum na costa brasileira e também a espécie mais capturada acidentalmente pela pesca no país, o que a coloca na lista de aves ameaçadas acompanhadas pela organização.

Os autores lembram que, somado a evidências obtidas com outros grupos de animais, o resultado sugere que a adaptação evolutiva sozinha dificilmente reduzirá o risco de extinção sob mudança climática rápida. O raciocínio vale para espécies de vida longa e reprodução lenta em qualquer ambiente, inclusive na Amazônia. Para elas, o tempo da evolução se mede em gerações, e o do clima, em décadas.

“Nossos resultados mostram que o resgate evolutivo depende não só da rapidez com que o ambiente muda, mas também de onde a evolução atua no ciclo de vida”, explicou Jenouvrier. “A evolução pode ajudar quando a adaptação melhora as partes do ciclo de vida que mais importam para o crescimento populacional, mas limitar o ritmo e a magnitude da mudança climática dá à adaptação uma chance muito maior de contribuir para a persistência da população.”

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