O que acontece com o filhote de peixe-boi quando o lago seca

O que acontece com o filhote de peixe-boi quando o lago seca
Matheus Lopes/ICMBioCMA (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos), via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) em maca durante programa de reintrodução do Inpa, Amazonas, 28 de novembro de 2019. Imagem recortada.

O filhote de peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) mama por cerca de dois anos e, sem a mãe, não sobrevive sozinho. Quando a vazante faz os lagos encolherem, os animais ficam confinados em menos água, e um filhote separado da mãe tem poucas chances sem socorro especializado.

Esse é o pano de fundo de cada resgate na Amazônia: da água que baixa à volta ao rio, são anos de trabalho do Inpa, do Instituto Mamirauá e da Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa).

Um filhote que depende do leite por dois anos

Segundo a Ampa, a lactação do peixe-boi amazônico dura no mínimo dois anos, e a gestação, cerca de 12 meses. A espécie é classificada como vulnerável pela lista da IUCN e protegida por lei no Brasil desde 1967. O Mamirauá destaca a baixa taxa reprodutiva da espécie.

Em comunicado de 2013, o Inpa explicou que o filhote retirado da natureza passa a depender totalmente dos cuidados humanos e permanece no instituto até cerca de dois anos de idade.

Como a vazante encolhe o território do peixe-boi

A várzea amazônica vive de um pulso: o rio sobe e desce todos os anos. No plano de gestão da Reserva Mamirauá, no Médio Solimões, o instituto registra amplitude média de 10,6 metros entre 1990 e 2008. Nessa reserva, a vazante vai de meados de julho a setembro, e a seca, quando a água atinge o nível mais baixo, de setembro a novembro.

Na cheia, o peixe-boi ocupa a floresta alagada, rica em nutrientes, e depende de plantas aquáticas para comer, descreve a pesquisadora Miriam Marmontel, do Instituto Mamirauá. Quando a água desce, os animais seguem para pontos mais fundos.

O monitoramento por rádio revelou uma rota entre a várzea, na água alta, e áreas de terra firme com poços profundos. A Ampa descreve o mesmo padrão: nas águas baixas, a espécie migra para lagos de terra firme e canais profundos.

A vazante também restringe o espaço dos animais. Ao explicar uma ação de captura técnica na Reserva Piagaçu-Purus, em 2019, a Ampa afirmou que o trabalho ocorre no período de águas baixas porque, conforme o espaço aquático diminui, os peixes-bois ficam confinados em certas áreas. Nesse cenário, um filhote separado da mãe tem poucas chances: sem leite, não sobrevive.

Nem todo filhote resgatado chegou por causa da seca

Os registros institucionais mostram causas variadas. No Centro de Reabilitação de Peixes-boi de Base Comunitária do Mamirauá, no lago Amanã, 18 animais passaram pelo local até outubro de 2017. Metade foi resgatada de emalhes em artes de pesca, sobretudo malhadeiras. Dois haviam sido arpoados, três estavam emalhados e arpoados, dois foram encontrados flutuando e um foi dado como encalhado em praia.

No baixo Amazonas, região de Parintins, o fluxo é maior. Segundo levantamento do Inpa, 65% dos 52 filhotes recebidos pelo instituto desde 2020 vieram de municípios dessa região.

Em março de 2019, dois filhotes encontrados em comunidades de Parintins chegaram ao laboratório, com 15 e 21 quilos. O Inpa citou, na ocasião, a possibilidade de queda em redes de pesca ou de perda da mãe para a caça ilegal.

A seca, portanto, é um dos cenários de risco, mas não o único.

O que fazer ao encontrar um filhote

Os protocolos de quem faz resgate indicam o caminho. O Instituto Mamirauá atua com aval do Ibama para resgatar e reabilitar filhotes órfãos, e a Ampa trabalha em parceria com o Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Inpa. São essas as instituições a procurar, junto ao órgão ambiental do município ou do estado.

Leite comum não substitui o da mãe. A fórmula usada pela Ampa nasceu da análise do leite da fêmea de peixe-boi e emprega leite sem lactose.

Segundo Marmontel, a maioria dos animais chega desidratada ou desnutrida, e a recuperação exige hidratação e alimentação gradual. A orientação, portanto, é não improvisar mamadeira e esperar a equipe técnica.

Em junho de 2018, quando o Mamirauá resgatou na Reserva Amanã um filhote de cerca de dois meses, com 84 centímetros e 10,5 quilos, o animal viajou até Manaus com o corpo mantido resfriado, sobre colchão e toalhas úmidas.

Entenda

Vazante é a fase em que o rio baixa. Seca é o período de nível mais baixo do ano. Pulso de inundação é o ciclo anual completo de subida e descida das águas. Filhote órfão é o que perdeu a mãe e depende de leite artificial até estar apto à soltura monitorada.

Do resgate à volta ao rio

Os filhotes resgatados no Amazonas seguem para o Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Inpa, em Manaus. Em março de 2026, o Projeto Peixe-Boi do Inpa chegou a 59 animais devolvidos aos rios, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus.

Antes da soltura, os animais passam por uma fase de adaptação em semicativeiro, em um lago semi-natural na Fazenda Santa Rosa, em Iranduba, onde a equipe acompanha a saúde de cada um.

Depois da soltura, o acompanhamento continua. Cada animal recebe um cinto transmissor VHF de frequência única no pedúnculo caudal, e comunitários capacitados monitoram os sinais, descreve a Ampa. No Mamirauá, o rastreamento por radiotelemetria durou de vários meses a cerca de dois anos. Nos primeiros meses, os animais ficam perto do local de soltura; depois se afastam e ocupam os boiadores, pontos mais profundos.

O que a vazante de 2026 indica

O 39º Boletim de Alerta Hidrológico da Bacia do Amazonas, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), de 29 de setembro de 2026, registra o rio Negro em Manaus a 18,97 metros, em descida acentuada, mas ainda dentro do esperado para o período. Na calha do Amazonas, o serviço também aponta vazante acentuada, com níveis considerados esperados.

Há sinais de atenção.

Entre 30 de agosto e 29 de setembro, as chuvas ficaram abaixo da média histórica na bacia do rio Negro (índice de -1,2, condição de seco) e na do Purus (-1,0).

Em 2 de setembro, o SGB já havia projetado vazante abaixo da normalidade para o rio Negro em Manaus. Pela série histórica do boletim, o fim da vazante do rio Negro em Manaus ocorre entre outubro e novembro em 91% dos anos, o que indica que o nível mais baixo ainda pode estar adiante.

Os próximos boletins do SGB mostram se o Negro e o Amazonas chegam à mínima dentro do esperado. Para quem vive nos lagos, outubro e novembro pedem atenção a filhotes sozinhos e a acionar os órgãos ambientais diante de um animal debilitado.

Com informações de Instituto Mamirauá, Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), Inpa e Serviço Geológico do Brasil (SGB).

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA