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Finanças Florestais: Desafios para Capital em Escala na Amazônia

Finanças Florestais: Desafios para Capital em Escala na Amazônia
Foto: un-redd.org

Apesar do valor reconhecido das florestas, o capital ainda flui lentamente, exigindo novos modelos e cooperação internacional.

Em um cenário global onde o valor das florestas é inquestionável, a lentidão no fluxo de capital para sua proteção e manejo sustentável persiste como um paradoxo. Durante a Semana de Ação Climática de Londres, representantes de mais de 95 jurisdições florestais, investidores, compradores e implementadores se reuniram para debater o que impede o investimento em escala, uma questão central para regiões como a Amazônia.

Ruth Zugman do Coutto, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), destacou a disparidade: “Cada hectare de floresta que desaparece tem um modelo de negócio por trás. E quando um hectare permanece de pé? Por décadas, a resposta honesta tem sido: muitas vezes, ninguém recebe nada.” Essa dissonância, segundo ela, eleva a importância dos mercados de carbono, um dos poucos mecanismos capazes de precificar um ativo que, por muito tempo, foi valorizado como zero pelo mercado.

Mercados de Carbono: Um Mecanismo Essencial, Mas Insuficiente

A demanda por créditos de carbono florestal de alta integridade não é mais a restrição que era. Dados recentes mostram que 80 sistemas de precificação de carbono cobrem agora 28% das emissões globais, um aumento considerável em relação aos 5% de duas décadas atrás. Além disso, a maioria das Partes do Acordo de Paris sinalizou intenção de negociar sob o Artigo 6, e o CORSIA (Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional) projeta uma necessidade de 1 a 1,5 GCO2 de créditos até 2035. Singapura, por exemplo, já vinculou seu imposto de carbono a créditos florestais estrangeiros, e sua plataforma de investimento GenZero financia projetos em Gana.

“Os mercados de carbono não são uma bala de prata, mas são um mecanismo essencial, e o UNEP está empenhado em fazê-los funcionar corretamente”, afirmou Gabriel Labbate, também do UNEP. No entanto, a execução ainda enfrenta desafios. Gana, apesar de ter assinado acordos bilaterais do Artigo 6 e desenvolvido cerca de 70 projetos pipeline, viu apenas um punhado deles alcançar autorização ou emissão. Joseph Appiah-Gyapong, da Comissão Florestal de Gana, explicou o dilema: “Cada hectare de floresta que autorizamos para exportação é um hectare que escolhemos não contabilizar para nossa própria Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC).”

Obstáculos para Investidores e Soluções Inovadoras

Para investidores, a complexidade é um grande impedimento. Puar Si Liang, da GenZero, apontou para a vasta gama de fatores do país sede que influenciam as decisões de investimento, desde considerações regulatórias, como a clareza da política de mercado de carbono de um país, até como os créditos são contabilizados em seu Relatório Bienal de Transparência.

Diante dessas lacunas, novas ferramentas estão surgindo para fortalecer a integridade do mercado. Mecanismos de seguro, infraestrutura digital de negociação e modelos de financiamento misto estão ajudando a acelerar acordos individuais, especialmente em paisagens onde o carbono é apenas uma das fontes de receita. Em partes da África Oriental, o trabalho de agrofloresta da Farm Africa, em parceria com a plataforma Acorn do Rabobank, direciona a maior parte da receita de carbono diretamente para pequenos proprietários rurais por meio de financiamento intermediário, em vez de um modelo único de compra.

“Os marcos jurisdicionais não estão prontos, e pequenos produtores não podem esperar por eles. O insetting e o financiamento da cadeia de suprimentos já estão fazendo um trabalho real nessa lacuna, muitas vezes antes mesmo que uma metodologia de carbono esteja totalmente acordada,” destacou Tom Cadogan, da Farm Africa.

A Visão da Amazônia: Multi-benefício e Financiamento Territorial

Entenda o caso

A discussão sobre financiamento florestal em Londres revelou que, embora o valor econômico do carbono seja cada vez mais reconhecido, as florestas oferecem uma gama muito mais ampla de benefícios. O desafio reside em como mover capital para esses outros serviços ecossistêmicos, que vão além do carbono, e como harmonizar as finanças para apoiar a multiplicidade de funções das florestas. A Amazônia, com sua complexidade socioambiental, é um laboratório crucial para essas inovações.

No Brasil, iniciativas demonstram caminhos promissores. Em Mato Grosso, Richard Smith descreveu o financiamento territorial, um modelo projetado para conciliar produção e conservação. No coração da Amazônia, no Pará, Renata Ribeiro Souza Nobre explicou como o compartilhamento de benefícios com Povos Indígenas e comunidades locais foi incorporado como elemento central em acordos, fortalecendo a integridade social e ambiental desses projetos.

Esses mecanismos estão avançando transações individuais, mas ainda esbarram em um problema maior: as finanças continuam compartimentadas, enquanto as florestas não são. “Ecossistemas saudáveis regulam o clima, sustentam a produção de alimentos, garantem recursos hídricos, conservam a biodiversidade e fortalecem a resiliência. No entanto, esses benefícios interconectados são frequentemente financiados por mecanismos fragmentados”, ponderou André Guimarães, Diretor Executivo do IPAM Amazônia.

Essa fragmentação é especialmente crítica para retornos que são difíceis de precificar. O carbono é o benefício que o financiamento florestal aprendeu a medir. Contudo, anualmente, as florestas também fornecem serviços de polinização dos quais cerca de 10 milhões de pessoas dependem para alimentação. “O financiamento de carbono abriu a porta, mas o carbono sempre foi um sinal de preço incompleto para o que as florestas realmente fazem. Estamos passando de florestas como uma commodity de carbono para florestas como uma classe de ativos multi-benefícios”, defendeu Mirey Atallah, do UNEP. Vanessa Duarte, do Consórcio Amazônia, reforçou essa visão: “A floresta não é apenas carbono; é água, sistemas alimentares, meios de subsistência e estabilidade climática.”

O evento de 22 de junho, intitulado “Da Floresta às Finanças” e organizado pelo UNEP, UN-REDD, Consórcio Amazônia e IPAM Amazônia, concluiu que a escalabilidade do financiamento florestal depende menos da comprovação do valor das florestas e mais da construção das condições necessárias para mover capital em grande escala. Isso implica transformar acordos isolados em pipelines de investimento, capacitar países para autorizar créditos com confiança, reduzir o risco para os investidores e garantir que transações de alta integridade e financiamentos cheguem às jurisdições e comunidades.

Perguntas Frequentes

O que é o Artigo 6 do Acordo de Paris?
O Artigo 6 do Acordo de Paris estabelece um mecanismo para que países cooperem voluntariamente na redução de emissões, permitindo a comercialização de unidades de carbono entre si.

Qual a diferença entre financiamento de carbono e financiamento territorial?
O financiamento de carbono foca na monetização da remoção ou evitamento de emissões de GEE. O financiamento territorial tem uma abordagem mais ampla, buscando integrar a conservação e o desenvolvimento sustentável em uma dada região geográfica.

Como o problema da fragmentação do financiamento afeta a Amazônia?
A fragmentação impede que os múltiplos benefícios das florestas amazônicas (além do carbono, como biodiversidade, água, subsistência local) sejam financiados de forma integrada e em escala, limitando o impacto das iniciativas de conservação.

O futuro do financiamento florestal dependerá cada vez mais da capacidade de desenvolver estruturas que capturem o valor total dessas paisagens multifuncionais e integrem os diversos benefícios ambientais e sociais, um processo contínuo que será crucial para a próxima Conferência do Clima.

Com informações de UN-REDD.

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