
Estudo global com imagens de satélite mostra que o formato da cobertura florestal pode pesar tanto quanto sua extensão na regulação do calor.
Uma floresta pode manter uma área considerável de árvores e, ainda assim, perder parte da capacidade de amenizar o calor quando é cortada em blocos menores. Essa é a principal conclusão de um estudo global liderado por pesquisadores da Fudan University, em Xangai, que analisou imagens de satélite e encontrou uma relação entre fragmentação florestal e copas mais quentes em aproximadamente 66% a 67% das áreas avaliadas entre 2018 e 2022. O padrão apareceu com maior força nas florestas tropicais, incluindo a região central da Amazônia brasileira.
O calor aparece nas bordas da floresta
A fragmentação acontece quando uma estrada, uma lavoura, uma área urbana ou uma clareira divide uma cobertura contínua de árvores em pedaços isolados. O resultado não é apenas uma redução da área florestal. Cada pedaço passa a ter mais bordas expostas ao sol e menos espaço protegido no interior.
Foi esse desenho da paisagem que os pesquisadores tentaram medir. Eles usaram um mapa global de cobertura do solo capaz de identificar manchas com cerca de 30 metros. Para a análise, uma área foi considerada floresta quando apresentava árvores com mais de 5 metros de altura, seguindo o critério adotado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
Em quadrantes de aproximadamente 5,5 quilômetros de lado, a equipe calculou a quantidade de bordas em relação à área coberta por floresta. Depois, cruzou esses dados com registros do instrumento MODIS, da NASA, que mede a temperatura da superfície terrestre durante o dia. Foram calculadas médias de cinco anos, entre 2018 e 2022, para reduzir a influência de temporadas excepcionalmente quentes ou frias. O funcionamento do instrumento pode ser consultado na documentação oficial do MODIS.
Segundo a Fudan University, florestas mais fragmentadas apresentaram copas mais quentes em cerca de dois terços das áreas florestais analisadas entre 2018 e 2022.
Quando a forma pesa mais que o tamanho
Para separar o efeito da quantidade de árvores do efeito da organização da paisagem, os cientistas consideraram também o volume de cobertura florestal, o clima local e a localização geográfica. Assim, a comparação não ficou restrita a perguntar quanto de floresta havia, mas também como ela estava distribuída.
O estudo indicou que, em aproximadamente metade das áreas florestais, a fragmentação teve uma relação mais forte com a temperatura da superfície do que a própria quantidade de floresta. Na Eurásia, esse peso maior da fragmentação apareceu em 48% das áreas, com uma diferença média de 3,23 vezes em relação à influência da cobertura florestal. No conjunto do planeta, os dois fatores tiveram importância semelhante.
A diferença foi especialmente relevante em florestas tropicais. O sinal também se destacou na bacia do Congo, no Sudeste Asiático, no sul do Canadá e no extremo leste da Rússia. Nas áreas tropicais, a perda de floresta e a divisão do que resta costumam acontecer juntas, o que pode somar os efeitos de aquecimento.
Por que as copas ficam mais quentes
As árvores ajudam a resfriar o ambiente ao liberar vapor de água pelas folhas, um processo conhecido como evapotranspiração. É uma forma de dissipar energia semelhante, em princípio, ao resfriamento do corpo humano pelo suor. De acordo com a análise, fora das regiões mais setentrionais, essa liberação de água teve mais influência sobre a temperatura do que a capacidade de refletir a luz solar.
Nas florestas fragmentadas, a evapotranspiração tende a diminuir. As bordas ficam mais expostas, o ar e a radiação solar alcançam áreas que antes eram protegidas pelo dossel contínuo, e a vegetação remanescente pode perder mais água. O aquecimento foi mais associado a fragmentações ligadas à agricultura, especialmente quando grandes áreas são abertas de uma só vez para produção comercial.
Na Amazônia, esse resultado importa porque estradas, pastagens, lavouras e clareiras transformam uma paisagem contínua em uma rede de bordas. O efeito pode interessar diretamente a comunidades rurais e urbanas do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, estados que integram a área amazônica brasileira e enfrentam diferentes combinações de perda florestal, ocupação do solo e aumento do calor.
O norte do planeta apresentou uma exceção
Nas florestas muito ao norte, sobretudo na Eurásia e no noroeste do Canadá, a relação se inverteu: áreas mais fragmentadas geralmente apresentaram superfícies mais frias. A mudança ocorreu perto do ponto de congelamento, quando a temperatura média anual ficou abaixo de 0 °C.
A hipótese dos autores é que a neve explique esse comportamento. Clareiras abertas na floresta acumulam neve, que reflete mais luz solar do que as copas escuras. A mesma lógica apareceu em áreas afetadas por incêndios florestais no norte. Ainda assim, o resfriamento não foi universal. Próximo a cidades e áreas agrícolas, a fragmentação voltou a se associar ao aquecimento, assim como durante a estação de crescimento das plantas.
Os pesquisadores ressaltam que esse resultado não transforma a fragmentação em uma estratégia de conservação para regiões frias. Ele apenas mostra que a relação entre formato da floresta e temperatura depende do clima, da neve, do tipo de ocupação e da época do ano.
O que o estudo ainda não responde
As temperaturas analisadas são da superfície das copas, e não diretamente do ar que as pessoas respiram, do solo sombreado ou do interior da floresta. Embora mudanças na temperatura do dossel frequentemente apontem na mesma direção que alterações no ar, a intensidade pode ser diferente.
A equipe comparou os resultados com estações meteorológicas registradas pelo NOAA National Centers for Environmental Information e encontrou concordância geral na direção do efeito. Também repetiu a análise com imagens de maior resolução em uma amostra equivalente a cerca de um quinto das áreas estudadas, obtendo resultado semelhante.
Mesmo assim, a pesquisa observou uma associação, não uma prova experimental de causa e efeito. Os dados foram obtidos durante o dia e não mostram, sozinhos, quanto o ar ou o chão da floresta se aquecem. O próximo passo previsto pelos autores é combinar imagens ainda mais detalhadas, medições em campo e modelos climáticos para estimar esses efeitos.
O trabalho foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. O artigo completo está disponível no site da publicação científica. A conclusão reforça que metas de conservação não devem contar apenas hectares preservados ou restaurados: manter grandes blocos contínuos de floresta pode ser decisivo para limitar o aquecimento, especialmente nos trópicos.
Com informações de Fudan University.
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