
Estudo aponta que a Amazônia concentra US$ 214,7 bilhões em possíveis descobertas farmacêuticas ameaçadas pelo desmatamento.
Você já imaginou que uma planta, um fungo ou um microrganismo escondido na floresta possa ser a chave para um futuro tratamento contra uma doença? Uma análise da Zero Carbon Analytics, divulgada em 3 de agosto de 2026, estima que as florestas tropicais e subtropicais guardem até US$ 1,2 trilhão em valor farmacêutico associado a medicamentos ainda não descobertos. O estudo considera ecossistemas de várias regiões do mundo e calcula que a Bacia Amazônica concentre cerca de US$ 214,7 bilhões desse potencial, hoje ameaçado pelo desmatamento.
Além do valor comercial para a indústria, os possíveis tratamentos poderiam gerar aproximadamente US$ 7 trilhões em benefícios sociais para pacientes e sistemas de saúde. A conta considera o impacto de novas terapias, como a redução de doenças, internações e custos médicos.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
Peixe-boi-marinho volta ao risco máximo de extinção no Brasil
Tambaqui ameaçado pode ter pesca suspensa em todo o Brasil
“A chuva carrega um inventário da copa”: o método que encontrou DNA de animais sem vê-losAmazônia reúne uma parcela expressiva do potencial
A estimativa para a Amazônia chama atenção porque a região abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta. Plantas, fungos e microrganismos produzem substâncias químicas e carregam informações genéticas que podem inspirar medicamentos, mesmo quando ainda não existe uma aplicação conhecida para elas.
Segundo a Zero Carbon Analytics, a destruição de áreas tropicais desde 2001 pode ter eliminado cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico potencial. O intervalo calculado pelos pesquisadores varia de US$ 46 bilhões a US$ 142 bilhões. Em benefícios sociais para a saúde, a perda estimada chega a US$ 860 bilhões.
Segundo a Zero Carbon Analytics, a Bacia Amazônica reunia aproximadamente US$ 214,7 bilhões em potencial farmacêutico estimado em 2026, mas entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões podem ter sido colocados em risco pelo desmatamento desde 2001.
Entenda o caso
O estudo não afirma que todos os medicamentos estimados serão necessariamente descobertos ou chegarão ao mercado. O cálculo transforma em valor econômico a possibilidade de encontrar compostos úteis em áreas que ainda não foram completamente estudadas.
Para isso, os pesquisadores projetaram quantos medicamentos poderiam estar associados às florestas, atribuíram a cada possibilidade um valor presente líquido ajustado ao risco e cruzaram os resultados com dados de satélite sobre a perda de vegetação.
O modelo considera cada composto como insubstituível. Assim, se uma área onde ele ocorre é destruída, a substância é tratada como perdida, mesmo que ela também possa existir em outro local. Essa premissa amplia o impacto estimado e é uma das limitações apresentadas no relatório.
Medicamentos já nasceram da biodiversidade
A relação entre natureza e indústria farmacêutica não é apenas uma promessa. A pilocarpina, usada no tratamento do glaucoma e da boca seca, é extraída do jaborandi, planta nativa das florestas tropicais brasileiras.
Outro exemplo é o paclitaxel, conhecido comercialmente como Taxol, um medicamento contra o câncer originalmente isolado do teixo do Pacífico. De acordo com os dados reunidos pela análise, o tratamento já foi utilizado por mais de 1 milhão de pacientes e registrou vendas de US$ 1,7 bilhão em 2025.
A vinca de Madagascar deu origem à vincristina e à vimblastina, utilizadas em tratamentos de leucemia infantil e linfoma de Hodgkin. Já a quinina, extraída de árvores do gênero Cinchona, foi o primeiro tratamento eficaz contra a malária e serviu como base para medicamentos sintéticos posteriores.
Indústria farmacêutica investe pouco na conservação
Apesar da dependência histórica em relação aos recursos naturais, o levantamento identificou poucos compromissos financeiros específicos com a biodiversidade entre as 15 maiores empresas farmacêuticas analisadas.
A AstraZeneca anunciou investimento de US$ 400 milhões, enquanto a Novo Nordisk Foundation informou aportes entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões. As outras companhias avaliadas fazem declarações sobre natureza e sustentabilidade, mas não apresentaram, segundo o estudo, valores específicos destinados à conservação da biodiversidade.
“O desenvolvimento farmacêutico depende há décadas dos recursos genéticos das florestas tropicais, mas houve muito pouco investimento correspondente para conservar a biodiversidade da qual essas descobertas dependem”, afirmou Jo Bentley-McKune, principal autora do estudo.
A preocupação também envolve as chamadas informações de sequências digitais, ou DSI. São dados genéticos digitalizados e armazenados em bancos públicos ou privados, que podem ser usados em pesquisas sem a coleta direta de amostras nos territórios de origem.
Desmatamento pode ampliar perdas até 2050
Se as atuais taxas de desmatamento forem mantidas, a perda adicional de potencial farmacêutico até 2050 pode chegar a US$ 145 bilhões. O intervalo estimado vai de US$ 47 bilhões a US$ 145 bilhões.
Em um cenário de interrupção da perda florestal até 2030, as perdas comerciais adicionais ficariam próximas de US$ 9 bilhões, entre US$ 5 bilhões e US$ 15 bilhões. Nesse caso, seriam preservados cerca de US$ 79 bilhões em valor comercial privado e US$ 800 bilhões em valor social para a saúde até 2050.
Além da Amazônia, o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo estão entre as áreas mais expostas. Juntas, as três regiões concentram 54% do valor comercial estimado pela análise. Na Amazônia, a preservação interessa diretamente aos nove estados da região e às populações indígenas e comunidades locais que mantêm parte desses territórios protegidos.
Quem ficará com os benefícios?
O relatório também aponta uma desigualdade na distribuição dos ganhos. A biodiversidade está principalmente no Sul Global, enquanto as maiores empresas farmacêuticas estão sediadas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão.
Uma tentativa de reduzir esse desequilíbrio é o Fundo Cali, criado durante a COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica. A proposta prevê contribuições de empresas que comercializam informações de sequências digitais, equivalentes a 1% dos lucros globais ou 0,1% da receita. Metade dos recursos deverá ser destinada a povos indígenas e comunidades locais.
Até o momento considerado pelo estudo, porém, apenas US$ 1.000 haviam sido comprometidos com o fundo. As regras de financiamento e o uso das informações genéticas devem voltar ao debate na SBI 7, entre 4 e 12 de agosto de 2026, em Nairóbi, e depois na COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevista para outubro, na Armênia.
Perguntas frequentes
Quanto valem os medicamentos ainda não descobertos nas florestas?
Segundo a estimativa da Zero Carbon Analytics, o valor farmacêutico potencial chega a US$ 1,2 trilhão, considerando florestas tropicais e subtropicais.
Quanto desse potencial está na Amazônia?
A análise estima aproximadamente US$ 214,7 bilhões em valor farmacêutico potencial associado à Bacia Amazônica.
O estudo prova que esses medicamentos existem?
Não. A pesquisa calcula o valor provável de compostos naturais que ainda podem gerar descobertas, mas não garante que todos resultarão em tratamentos aprovados.
Os próximos passos dependerão da redução do desmatamento e das negociações internacionais sobre financiamento da conservação e repartição dos benefícios genéticos nas reuniões previstas para 2026.
Com informações de Zero Carbon Analytics.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!














