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Florestas tropicais podem esconder US$ 1,2 tri em remédios

Florestas tropicais podem esconder US$ 1,2 tri em remédios
Foto: exame.com

Estudo aponta que a Amazônia concentra US$ 214,7 bilhões em possíveis descobertas farmacêuticas ameaçadas pelo desmatamento.

Biodiversidade de floresta tropical com potencial para novos medicamentos
Florestas tropicais concentram espécies que podem servir de base para medicamentos ainda não descobertos. Foto: Mario Tama/Getty Images.

Você já imaginou que uma planta, um fungo ou um microrganismo escondido na floresta possa ser a chave para um futuro tratamento contra uma doença? Uma análise da Zero Carbon Analytics, divulgada em 3 de agosto de 2026, estima que as florestas tropicais e subtropicais guardem até US$ 1,2 trilhão em valor farmacêutico associado a medicamentos ainda não descobertos. O estudo considera ecossistemas de várias regiões do mundo e calcula que a Bacia Amazônica concentre cerca de US$ 214,7 bilhões desse potencial, hoje ameaçado pelo desmatamento.

Além do valor comercial para a indústria, os possíveis tratamentos poderiam gerar aproximadamente US$ 7 trilhões em benefícios sociais para pacientes e sistemas de saúde. A conta considera o impacto de novas terapias, como a redução de doenças, internações e custos médicos.

Amazônia reúne uma parcela expressiva do potencial

A estimativa para a Amazônia chama atenção porque a região abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta. Plantas, fungos e microrganismos produzem substâncias químicas e carregam informações genéticas que podem inspirar medicamentos, mesmo quando ainda não existe uma aplicação conhecida para elas.

Segundo a Zero Carbon Analytics, a destruição de áreas tropicais desde 2001 pode ter eliminado cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico potencial. O intervalo calculado pelos pesquisadores varia de US$ 46 bilhões a US$ 142 bilhões. Em benefícios sociais para a saúde, a perda estimada chega a US$ 860 bilhões.

Segundo a Zero Carbon Analytics, a Bacia Amazônica reunia aproximadamente US$ 214,7 bilhões em potencial farmacêutico estimado em 2026, mas entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões podem ter sido colocados em risco pelo desmatamento desde 2001.

Entenda o caso

O estudo não afirma que todos os medicamentos estimados serão necessariamente descobertos ou chegarão ao mercado. O cálculo transforma em valor econômico a possibilidade de encontrar compostos úteis em áreas que ainda não foram completamente estudadas.

Para isso, os pesquisadores projetaram quantos medicamentos poderiam estar associados às florestas, atribuíram a cada possibilidade um valor presente líquido ajustado ao risco e cruzaram os resultados com dados de satélite sobre a perda de vegetação.

O modelo considera cada composto como insubstituível. Assim, se uma área onde ele ocorre é destruída, a substância é tratada como perdida, mesmo que ela também possa existir em outro local. Essa premissa amplia o impacto estimado e é uma das limitações apresentadas no relatório.

Medicamentos já nasceram da biodiversidade

A relação entre natureza e indústria farmacêutica não é apenas uma promessa. A pilocarpina, usada no tratamento do glaucoma e da boca seca, é extraída do jaborandi, planta nativa das florestas tropicais brasileiras.

Outro exemplo é o paclitaxel, conhecido comercialmente como Taxol, um medicamento contra o câncer originalmente isolado do teixo do Pacífico. De acordo com os dados reunidos pela análise, o tratamento já foi utilizado por mais de 1 milhão de pacientes e registrou vendas de US$ 1,7 bilhão em 2025.

A vinca de Madagascar deu origem à vincristina e à vimblastina, utilizadas em tratamentos de leucemia infantil e linfoma de Hodgkin. Já a quinina, extraída de árvores do gênero Cinchona, foi o primeiro tratamento eficaz contra a malária e serviu como base para medicamentos sintéticos posteriores.

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Indústria farmacêutica investe pouco na conservação

Apesar da dependência histórica em relação aos recursos naturais, o levantamento identificou poucos compromissos financeiros específicos com a biodiversidade entre as 15 maiores empresas farmacêuticas analisadas.

A AstraZeneca anunciou investimento de US$ 400 milhões, enquanto a Novo Nordisk Foundation informou aportes entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões. As outras companhias avaliadas fazem declarações sobre natureza e sustentabilidade, mas não apresentaram, segundo o estudo, valores específicos destinados à conservação da biodiversidade.

“O desenvolvimento farmacêutico depende há décadas dos recursos genéticos das florestas tropicais, mas houve muito pouco investimento correspondente para conservar a biodiversidade da qual essas descobertas dependem”, afirmou Jo Bentley-McKune, principal autora do estudo.

A preocupação também envolve as chamadas informações de sequências digitais, ou DSI. São dados genéticos digitalizados e armazenados em bancos públicos ou privados, que podem ser usados em pesquisas sem a coleta direta de amostras nos territórios de origem.

Desmatamento pode ampliar perdas até 2050

Se as atuais taxas de desmatamento forem mantidas, a perda adicional de potencial farmacêutico até 2050 pode chegar a US$ 145 bilhões. O intervalo estimado vai de US$ 47 bilhões a US$ 145 bilhões.

Em um cenário de interrupção da perda florestal até 2030, as perdas comerciais adicionais ficariam próximas de US$ 9 bilhões, entre US$ 5 bilhões e US$ 15 bilhões. Nesse caso, seriam preservados cerca de US$ 79 bilhões em valor comercial privado e US$ 800 bilhões em valor social para a saúde até 2050.

Além da Amazônia, o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo estão entre as áreas mais expostas. Juntas, as três regiões concentram 54% do valor comercial estimado pela análise. Na Amazônia, a preservação interessa diretamente aos nove estados da região e às populações indígenas e comunidades locais que mantêm parte desses territórios protegidos.

Quem ficará com os benefícios?

O relatório também aponta uma desigualdade na distribuição dos ganhos. A biodiversidade está principalmente no Sul Global, enquanto as maiores empresas farmacêuticas estão sediadas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão.

Uma tentativa de reduzir esse desequilíbrio é o Fundo Cali, criado durante a COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica. A proposta prevê contribuições de empresas que comercializam informações de sequências digitais, equivalentes a 1% dos lucros globais ou 0,1% da receita. Metade dos recursos deverá ser destinada a povos indígenas e comunidades locais.

Até o momento considerado pelo estudo, porém, apenas US$ 1.000 haviam sido comprometidos com o fundo. As regras de financiamento e o uso das informações genéticas devem voltar ao debate na SBI 7, entre 4 e 12 de agosto de 2026, em Nairóbi, e depois na COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevista para outubro, na Armênia.

Perguntas frequentes

Quanto valem os medicamentos ainda não descobertos nas florestas?
Segundo a estimativa da Zero Carbon Analytics, o valor farmacêutico potencial chega a US$ 1,2 trilhão, considerando florestas tropicais e subtropicais.

Quanto desse potencial está na Amazônia?
A análise estima aproximadamente US$ 214,7 bilhões em valor farmacêutico potencial associado à Bacia Amazônica.

O estudo prova que esses medicamentos existem?
Não. A pesquisa calcula o valor provável de compostos naturais que ainda podem gerar descobertas, mas não garante que todos resultarão em tratamentos aprovados.

Os próximos passos dependerão da redução do desmatamento e das negociações internacionais sobre financiamento da conservação e repartição dos benefícios genéticos nas reuniões previstas para 2026.

Com informações de Zero Carbon Analytics.

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