Ilhas do Pacífico criam fundo de US$ 200 milhões para adaptação, mas meta de US$ 500 milhões segue distante

Ilhas do Pacífico criam fundo de US$ 200 milhões para adaptação, mas meta de US$ 500 milhões segue distante
Foto: ClimaInfo,

Na Pré-COP31, países insulares dizem que o dinheiro prometido ainda não acompanha a velocidade da elevação do mar.

Em ilhas onde uma estrada interrompida ou uma rede de comunicação danificada pode isolar comunidades inteiras, a adaptação climática deixou de ser uma promessa distante. É nesse ponto concreto que líderes de pequenos países insulares do Pacífico tentam fazer o novo Fundo de Resiliência do Pacífico funcionar. Durante a Pré-COP31, realizada em Fiji até 8 de outubro de 2026, o mecanismo recebeu promessas adicionais de US$ 15 milhões e passou a reunir pouco menos de US$ 200 milhões.

O valor, administrado pelos próprios governos insulares da região e criado fora das negociações climáticas oficiais da Organização das Nações Unidas, ainda está longe do objetivo de US$ 500 milhões. A expectativa é captar novas contribuições durante a COP31, prevista para novembro em Antália, na Turquia.

O dinheiro chega, mas a conta da adaptação cresce mais rápido

As novas promessas vieram de Fiji, Irlanda, Países Baixos e Dinamarca. Cerca de metade dos recursos acumulados até agora foi aportada pelos próprios países do Pacífico, além de Nova Zelândia e Austrália. A composição revela uma contradição central: os territórios mais expostos ao avanço do oceano continuam financiando parte relevante da própria proteção.

A Austrália, que presidirá as negociações da COP31, também anunciou aproximadamente US$ 2 milhões para projetos voltados à adaptação de estradas e sistemas de comunicação nas ilhas. O primeiro-ministro Anthony Albanese defendeu a antecipação dos investimentos. “É preciso fazer mais agora. Cada investimento feito agora fará a diferença e significará custos menores de remediação amanhã e no futuro”, afirmou.

Segundo a ClimaInfo, em 7 de outubro de 2026, o Fundo de Resiliência do Pacífico acumulava pouco menos de US$ 200 milhões após novas promessas anunciadas na Pré-COP31, em Fiji.

Por que os países insulares rejeitam o modelo atual

Para as nações insulares, o problema não é apenas a quantidade de dinheiro disponível. A forma como os recursos são distribuídos também é um obstáculo. Projetos de adaptação costumam atravessar diferentes fundos, exigências técnicas e processos de aprovação, o que pode atrasar obras essenciais em países com território reduzido, pouca capacidade administrativa e grande dependência de infraestrutura costeira.

A ministra do clima de Fiji, Lynda Tabuya, resumiu a insatisfação ao cobrar mudanças no sistema financeiro internacional. “Parte do nosso apelo à COP31 é que a atual estrutura financeira seja reestruturada e simplificada. É frustrante. Somos os que menos emitem gases de efeito estufa no Pacífico, e ainda assim somos os mais afetados de forma desproporcional”, disse.

A crítica se apoia na desigualdade entre responsabilidade e impacto. As pequenas ilhas contribuem pouco para as emissões globais, mas enfrentam riscos concentrados, como erosão costeira, salinização da água, danos a estradas, interrupções no abastecimento e deslocamento de comunidades. Em alguns atóis de baixa altitude, a elevação do nível do mar também ameaça a permanência física do território.

Ilhas do Pacífico criam fundo de US$ 200 milhões para adaptação, mas meta de US$ 500 milhões segue distante
Foto: ClimaInfo,

A disputa não é só por obras, mas pelo direito de continuar existindo

Na Pré-COP31, os governos do Pacífico associaram o financiamento à defesa da soberania. A Declaração de Taku Pakasoa, lançada em 6 de outubro, afirma a necessidade de preservar a condição de Estado, os direitos soberanos e as zonas marinhas desses países mesmo diante de mudanças físicas provocadas pela elevação do nível do mar.

Essa formulação desloca o debate. A adaptação deixa de significar apenas construir barreiras, elevar estradas ou proteger redes elétricas. Passa a incluir uma questão jurídica e política: se parte de um território ficar permanentemente submersa ou inabitável, o país continuará reconhecido como Estado? A declaração defende que a perda física de áreas terrestres não deve apagar direitos internacionais já estabelecidos.

Os líderes também voltaram a exigir que as grandes economias mantenham o limite de 1,5°C do Acordo de Paris como referência central. Para Tabuya, ultrapassar esse patamar não pode ser tratado como uma consequência inevitável. “A maré que chega às nossas casas, o recife pálido que nossas avós já não reconhecem, as aldeias para as quais já tivemos que nos mudar. Ultrapassar [a meta de 1,5°C] não é um veredicto que aceitamos passivamente”, afirmou.

O que essa cobrança revela para a Amazônia

A experiência do Pacífico interessa diretamente aos estados amazônicos porque expõe a diferença entre resposta emergencial e adaptação planejada. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins não são países insulares, mas convivem com enchentes, erosão de margens, isolamento de comunidades e dependência de estradas, rios e sistemas de comunicação vulneráveis a eventos extremos.

O paralelo não autoriza igualar realidades distintas. A escala territorial da Amazônia é muito maior e os riscos variam entre áreas urbanas, comunidades ribeirinhas, territórios indígenas, zonas costeiras e regiões de transição. Ainda assim, a discussão do fundo do Pacífico oferece uma pergunta útil para a região: os recursos chegam antes do desastre, com regras acessíveis e continuidade suficiente para manter obras e serviços funcionando?

Outro ponto comum é a distância entre quem causa o problema e quem arca com a maior parte dos danos. No Pacífico, essa assimetria aparece na relação entre emissões globais e sobrevivência das ilhas. Na Amazônia, ela pode ser observada quando populações que dependem diretamente dos rios e da floresta enfrentam os efeitos de decisões econômicas tomadas longe de seus territórios, sem que a proteção climática tenha financiamento estável.

A meta de US$ 500 milhões e o teste da COP31

O fundo regional pretende chegar a US$ 500 milhões depois da COP31. Para isso, terá de ampliar as contribuições internacionais e demonstrar que um mecanismo controlado pelos próprios países beneficiários consegue reduzir a burocracia e direcionar dinheiro para prioridades locais.

O desafio político será transformar anúncios em desembolsos capazes de proteger infraestrutura e comunidades, sem substituir a responsabilidade mais ampla dos países desenvolvidos no financiamento climático. A COP31, que ocorrerá em novembro, será o próximo momento para medir se a promessa de resiliência ganhou escala ou se continuará limitada a compromissos parciais.

Com informações de ClimaInfo.

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