
O distrito de Icoaraci, localizado a aproximadamente 20 quilômetros do centro de Belém, no Pará, consolidou-se como o maior e mais importante centro de produção e salvaguarda da cerâmica arqueológica amazônica do país. Um fato biológico e mineral surpreendente e verificável é que a argila utilizada pelos artesãos locais é extraída diretamente das várzeas e bacias hidrográficas da própria região metropolitana, apresentando uma plasticidade e uma concentração de óxidos de ferro únicas. Essas propriedades físico-químicas naturais do solo paraense, moldadas pelo pulso das marés e pela deposição milenar de sedimentos fluviais, garantem a maleabilidade necessária para a moldagem de peças monumentais e a fixação duradoura de pigmentos minerais naturais durante a queima, permitindo que a comunidade local replique com exatidão as mesmas características estruturais desenvolvidas pelas civilizações pré-colombianas que habitaram a foz do rio Amazonas.
O resgate técnico e estético das civilizações antigas
A manutenção dessa tradição artística em Icoaraci, especialmente no icônico bairro do Paracuri, não ocorreu por acaso, mas sim por meio de um processo histórico de transmissão de saberes de matriz comunitária. A cerâmica produzida no polo artesanal se divide em duas grandes vertentes arqueológicas principais: a marajoara, caracterizada por seus desenhos geométricos complexos, incisões profundas e técnicas de engobe (camada de argila líquida colorida), e a tapajônica, famosa por seu estilo plástico rebuscado, com figuras em relevo e representações antropomorfas e zoomorfas que simulam a fauna da selva.
Segundo pesquisas no campo da etnoarqueologia, o grafismo marajoara não representa apenas um padrão decorativo abstrato, mas um sistema complexo de comunicação visual e iconografia sagrada dos povos originários da Ilha de Marajó. Cada linha, espiral ou losango pintado nas peças reproduz conceitos cosmológicos, mitos de criação e representações estilizadas de animais totêmicos da Amazónia, como a cobra-grande, o jacaré e a coruja. Os mestres artesãos de Icoaraci estudam fragmentos originais coletados em escavações científicas para manter a fidelidade dos traços, garantindo que cada peça comercializada no polo seja uma extensão legítima e respeitosa da memória indígena.
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Rã touro invasora devora anfíbios e insetos nativos gerando desequilíbrio e ameaça severa à biodiversidade das águas da AmazôniaO processo de produção manual e pigmentação mineral
O ciclo de fabricação de uma peça de cerâmica em Icoaraci segue um cronograma rigoroso que ignora os processos de industrialização em massa. Tudo começa com a coleta, limpeza e purificação da argila, que deve descansar até atingir a consistência ideal. A modelagem é predominantemente manual, utilizando a técnica do rolinho ou o torno mecânico rudimentar para erguer a estrutura de vasos, igaçabas (urnas funerárias), pratos e estatuetas.
Estudos indicam que o verdadeiro diferencial da resistência e da beleza cromática das peças reside na técnica de acabamento e queima. Para realizar a pintura decorativa, os artesãos recusam tintas sintéticas modernas e utilizam exclusivamente pigmentos minerais retirados de pedras locais, como o caulim para obter o branco puro, o carvão ou manganês para o preto, e o tauá — um barro rico em óxido de ferro — para os tons avermelhados e ocres. Após receberem os traços iconográficos aplicados com pincéis finos, as peças são polidas manualmente com pedras semipreciosas, como o quartzo ou o rolado de rio, processo que fecha os poros da argila e confere um brilho acetinado característico, sendo finalizadas em fornos a lenha que atingem temperaturas específicas para consolidar a fusão dos minerais.
O polo do Paracuri como motor do turismo cultural
Essa concentração de saberes transformou o bairro do Paracuri e a orla de Icoaraci em um dos polos de turismo cultural mais visitados do estado do Pará. O fluxo contínuo de viajantes nacionais e internacionais é atraído pela oportunidade rara de vivenciar o processo produtivo em tempo real. Ao caminhar pelas ruas do distrito, o visitante tem acesso direto aos ateliês e quintais dos artesãos, onde pode observar desde a moldagem inicial do barro bruto até a retirada das peças incandescentes dos fornos de olaria.
Essa interação direta entre o turista e o produtor cultural fortalece o comércio justo e elimina a dependência crônica de atravessadores comerciais. O ecoturismo e o turismo de base comunitária desenvolvidos em Icoaraci demonstram que a preservação da cultura material atua como um motor de desenvolvimento socioeconômico robusto. A venda da cerâmica gera emprego direto para centenas de famílias de oleiros, pintores, extratores de argila e guias locais, transformando a identidade histórica da região em um ativo econômico sustentável que fixa o morador em seu território de origem.
Os desafios da salvaguarda e o futuro da tradição
Apesar do sucesso turístico e da fama consolidada, a preservação do polo artesanal de Icoaraci enfrenta desafios estruturais frente à modernidade. A expansão urbana e a degradação ambiental na periferia de Belém ameaçam as áreas tradicionais de extração de argila de várzea e de lenha legalizada para os fornos. Além disso, existe uma preocupação constante entre os velhos mestres quanto ao desinteresse das novas gerações em aprender o ofício manual, que exige anos de dedicação e paciência.
Para conter o risco de desaparecimento dessas técnicas milenares, projetos sociais e escolas de artes locais têm promovido oficinas de cerâmica marajoara voltadas para crianças e jovens do distrito. O fortalecimento de políticas públicas de fomento à cultura, o selo de indicação geográfica para a cerâmica do Paracuri e a inclusão das feiras artesanais nos roteiros turísticos oficiais do município são passos cruciais para garantir a sustentabilidade do polo.
Proteger a arte cerâmica de Icoaraci vai muito além de incentivar a compra de recordações de viagem; significa salvaguardar o elo físico e estético mais antigo que conecta o Brasil moderno à genialidade artística dos primeiros habitantes da floresta. Visitar os ateliês do Paracuri é um ato de valorização da ciência indígena e de apoio à resistência cultural parauara. Garantir que as mãos dos oleiros continuem a moldar o barro de nossas várzeas é a certeza de que o grito visual e a sensibilidade dos povos da Amazônia antiga continuarão a ecoar, vivos e soberanos, na identidade do povo brasileiro.
Para obter informações oficiais sobre as feiras de artesanato, eventos sazonais e o mapeamento dos ateliês abertos à visitação pública no distrito de Icoaraci, consulte o portal de turismo da Prefeitura de Belém. Para aprofundar seus conhecimentos científicos sobre o patrimônio arqueológico e as pesquisas sobre os povos originais da Amazônia, acesse o acervo institucional do Museu Paraense Emílio Goeldi.
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