Índia entra em seca com déficit de 13% nas chuvas e revela limites de milhões de obras hídricas

Índia entra em seca com déficit de 13% nas chuvas e revela limites de milhões de obras hídricas
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Estados agrícolas enfrentam perdas e falta de água mesmo após décadas de investimentos em açudes e recarga de aquíferos.

O problema da seca na Índia em 2026 não aparece inteiro no número mais repetido da temporada: o país terminou o monsoon com déficit de aproximadamente 13% em relação à média histórica. Enquanto a estatística nacional sugere uma queda moderada, agricultores de Karnataka, Maharashtra e Andhra Pradesh enfrentam lavouras perdidas, falta de forragem, redução da água disponível e aumento do endividamento. A divergência expõe uma fragilidade central: a média do país não revela quando a chuva chega, onde se concentra nem por quanto tempo o solo permanece sem umidade.

O cenário ganhou forma entre agosto e outubro, quando governos estaduais começaram a reconhecer oficialmente áreas afetadas. Karnataka declarou 217 taluks, unidades administrativas equivalentes a subdistritos, em situação de seca até 2 de outubro. Maharashtra classificou 265 dos 358 talukas do estado como atingidos. Em Andhra Pradesh, 388 mandals distribuídos por 21 dos 28 distritos foram incluídos na declaração para a safra de kharif, o ciclo agrícola associado ao período chuvoso.

O calendário da chuva pesou mais que a média nacional

Os dados ajudam a entender por que a crise regional se agravou. Em junho, primeiro mês do monsoon, a precipitação indiana ficou 40% abaixo do normal. Julho trouxe uma recuperação temporária, com chuva 1% acima da média, mas agosto terminou com déficit de 16,3%. O acumulado de quatro meses permaneceu negativo, perto de 13%, depois que os intervalos prolongados de estiagem reduziram a umidade do solo e comprometeram as plantações.

O contraste entre estados foi ainda mais severo. Karnataka registrou déficit de 35% entre junho e setembro, o pior monsoon em 55 anos, segundo os dados reunidos na apuração. Em Maharashtra, a queda estadual chegou a cerca de 19%, mas Marathwada ficou perto de 40% abaixo do normal. Solapur e Beed chegaram a déficits aproximados de 58% e 51%, respectivamente. Telangana terminou a estação com redução de 17%, enquanto Rajasthan registrou 22% menos chuva.

Segundo o India Drought Monitor, do IIT Gandhinagar, até 70,6% da área da Índia apresentava condições secas ou de seca na primeira semana de outubro de 2026. O indicador mostra por que uma média nacional pode ser insuficiente para orientar respostas emergenciais: regiões com chuva próxima do padrão podem compensar, no cálculo, áreas agrícolas submetidas a semanas sem precipitação.

Declaração oficial depende de mais que chuva escassa

A legislação e o manual federal de seca não transformam automaticamente um monsoon deficiente em calamidade. Os governos estaduais precisam cruzar precipitação, duração dos períodos secos, situação das plantações, vegetação, umidade do solo e indicadores hidrológicos. Depois, equipes fazem verificações em campo para confirmar os danos e definir as áreas elegíveis para medidas de assistência.

O procedimento normalmente prevê a declaração da seca de kharif até 31 de outubro, mas permite antecipação quando os sinais de crise aparecem antes. Andhra Pradesh adotou esse caminho após registrar déficit de 53,4% entre junho e agosto. Nesse intervalo, o estado recebeu média de 197,6 milímetros de chuva, ante os 424,3 milímetros esperados.

A diferença entre a chuva total e a capacidade de atravessar períodos secos também aparece na comparação histórica. Os anos de 1987 e 2002 terminaram com déficit nacional de 19%, superior ao de 2026. Em 2015, a queda foi de 14%, muito próxima da atual. Ainda assim, o momento em que a chuva falhou foi diferente em cada ciclo, alterando o impacto sobre plantio, crescimento das culturas e abastecimento.

Milhões de estruturas não impediram o colapso local

O ponto mais difícil da crise está na distância entre o volume de obras construídas e a vulnerabilidade que permanece no campo. Até 2025, 6,289 milhões de obras relacionadas à água haviam sido concluídas sob o programa de emprego rural MGNREGA, atual VB-G RAM G, e outras 761 mil estavam em execução. A lista inclui barragens de contenção, estruturas de terra, diques subterrâneos e sistemas de captação de chuva.

Entre o ano fiscal de 2023-24 e 30 de junho de 2026, o governo informou ter aplicado 1,353 lakh crore de rúpias em obras hídricas pelo programa. Também foram criadas ou recuperadas cerca de 900 mil estruturas de captação em projetos de manejo de bacias hidrográficas ao longo de 12 anos. As iniciativas alcançaram 7.602 projetos, cobrindo aproximadamente 34 milhões de hectares, e levaram irrigação protetiva a cerca de 2 milhões de hectares.

Outro programa, o Jal Sanchay Jan Bhagidari, lançado em 2024, registrou pelo menos 1 milhão de estruturas de recarga. A versão 2.0 começou em 1º de junho de 2025, com prioridade para distritos classificados como críticos ou superexplorados. A meta era construir 10 milhões de estruturas até 31 de maio de 2026, mas o governo relatou mais de 15 milhões, resultado 50% acima do objetivo.

Os números, porém, não respondem sozinhos à pergunta decisiva: essas obras estão no lugar certo, têm capacidade suficiente e continuam funcionando depois da inauguração? Especialistas em conservação de água apontam que a localização, a manutenção e a dimensão dos reservatórios determinam se uma intervenção consegue sustentar comunidades durante uma sequência longa de dias secos. Uma estrutura pequena, mal posicionada ou assoreada pode contar nas estatísticas sem oferecer proteção proporcional ao risco.

O alerta que também alcança a Amazônia

Para a Amazônia brasileira, a experiência indiana oferece uma lição de planejamento. Estados como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins também precisam interpretar a chuva por bacia, município e período agrícola, e não apenas por médias amplas. O dado regional só se transforma em segurança quando combina monitoramento do solo, armazenamento, proteção de nascentes, manutenção de estruturas e resposta rápida às comunidades.

A conexão não significa que a situação indiana possa ser transportada diretamente para a região amazônica. Os regimes de chuva, os cultivos e as redes de abastecimento são diferentes. O ponto comum é a vulnerabilidade criada quando obras de conservação são contabilizadas como sinônimo de resiliência, sem medir se a água permanece disponível durante o intervalo crítico para as pessoas, os animais e as plantações.

Com o El Niño associado ao enfraquecimento das chuvas e ao aumento do estresse hídrico em várias regiões, a Índia terá de avaliar não apenas quantas obras foram entregues, mas quanto elas reduziram perdas nos locais mais expostos. Os levantamentos de danos e as decisões sobre assistência devem avançar ao longo do calendário de avaliação da safra de kharif, enquanto novas áreas analisam se atendem aos critérios formais de seca.

Com informações de Centre for Science and Environment.

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