
Estudo aponta que o ozônio formado pela fumaça danifica árvores sobreviventes e amplia o impacto climático do fogo.
A fumaça de um incêndio na Amazônia pode continuar afetando a floresta mesmo depois que as chamas desaparecem. Poluentes liberados pela queima reagem com a luz do sol e formam ozônio próximo ao solo, um gás que prejudica as folhas das árvores que restaram. Segundo a Universidade de Exeter, esse processo reduziu a absorção de carbono da floresta em volume equivalente a cerca de 24% do carbono lançado pelos próprios incêndios entre 1997 e 2024.
O resultado muda a forma de medir o impacto das queimadas. A conta não termina no CO2 liberado pela biomassa consumida pelo fogo. Existe também uma perda posterior, menos visível, porque a vegetação danificada deixa de retirar da atmosfera parte do carbono que normalmente capturaria.
A fumaça continua agindo depois do fogo
O ozônio ao nível do solo não é o mesmo gás da camada de ozônio que protege a Terra da radiação ultravioleta. Ele se forma quando poluentes atmosféricos, entre eles os emitidos por incêndios, reagem sob a luz solar. Em concentração elevada, pode afetar a saúde humana e interferir no funcionamento das plantas.
Nas árvores, o dano ocorre principalmente nas folhas. A poluição reduz a capacidade de realizar a fotossíntese, processo pelo qual a planta usa luz, água e dióxido de carbono para produzir energia e crescer. Uma floresta atingida por incêndio, seca e ozônio pode, portanto, perder parte da capacidade de se recuperar e de continuar funcionando como sumidouro de carbono.
“As queimadas florestais não apenas liberam CO2 quando queimam. Elas também contribuem para o aumento do ozônio ao nível do solo, um poluente que danifica as folhas das árvores sobreviventes e reduz a capacidade delas de continuar absorvendo carbono depois”, afirmou a principal autora, Flossie Brown, da ETH Zurich.
Três décadas de dados ligam fogo, seca e poluição
Para chegar ao resultado, pesquisadores da University of Exeter, da ETH Zurich e da James Cook University combinaram quase 30 anos de observações com um modelo global de vegetação. O período analisado vai de 1997 a 2024 e inclui registros de atividade de fogo, intensidade das secas e alterações associadas ao ozônio.
O estudo foi publicado na revista científica Communications Earth & Environment com o título “Fire-derived ozone and intensifying droughts undermine the Amazon carbon sink”. Em linguagem simples, os autores compararam o que a floresta poderia absorver em condições menos afetadas com o que ocorreu durante períodos de queimadas e estiagem mais severas.
Segundo a Universidade de Exeter, a seca de 2023 e 2024 produziu quase o dobro do dano provocado pelo ozônio quando comparada à média da década anterior. O efeito também foi mais forte nos anos de estiagem extrema, o que indica que fogo, atmosfera seca e fragilidade da vegetação se reforçam mutuamente.
El Niño pode repetir os piores anos
Três das secas mais intensas da Amazônia nas últimas três décadas ocorreram durante episódios de El Niño, em 1997 e 1998, 2015 e 2016 e 2023 e 2024. O fenômeno é uma fase quente de um ciclo natural do sistema climático global. Ele não é causado pela atividade humana, mas o aquecimento do planeta eleva a temperatura de base e pode tornar seus efeitos mais severos.

Os pesquisadores alertam que um El Niño forte está se desenvolvendo em 2026 e pode se tornar um dos mais intensos já registrados. A previsão aumenta a preocupação com uma nova combinação de calor, seca, incêndios e poluição por ozônio. O estudo não afirma que o cenário irá necessariamente se repetir com a mesma intensidade, mas sugere que o risco de uma nova perda elevada de carbono é relevante.
“O dano causado pelo ozônio durante a seca de 2023 e 2024 quase dobrou em comparação com a média da década anterior. Como um El Niño de força comparável parece estar se desenvolvendo novamente neste ano, estamos preocupados com a possibilidade de a história se repetir”, disse Brown.
Onde a perda é maior e por que isso importa para a Amazônia
As áreas mais prejudicadas estão concentradas no chamado Arco do Desmatamento, faixa onde a expansão agropecuária avança sobre a floresta. O fogo costuma estar ligado à abertura de áreas e a queimadas agrícolas que escapam para a vegetação em pé. De acordo com os pesquisadores, quase todos os incêndios na Amazônia começam por ação humana.
O padrão tem implicações diretas para os estados amazônicos. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins convivem, em diferentes graus, com os efeitos da fumaça, da perda florestal e da alteração do regime de chuvas. Mesmo quando o incêndio ocorre longe das cidades, o ozônio e outros poluentes podem ser transportados pelo ar, enquanto a redução da absorção de carbono afeta o equilíbrio climático de toda a região.
O achado também ajuda a explicar por que a recuperação de uma área queimada não deve ser avaliada apenas pelo número de árvores que voltam a crescer. A vegetação remanescente pode continuar sob pressão atmosférica, especialmente em períodos secos. Para comunidades rurais, povos indígenas e moradores urbanos, isso se soma à fumaça que agrava problemas respiratórios e reduz a qualidade do ar.
Reduzir o desmatamento atua em duas frentes
Para Stephen Sitch, professor da University of Exeter e um dos autores, a maior parte do dano adicional identificado é evitável. Medidas contra o desmatamento e a degradação florestal diminuiriam tanto o carbono liberado diretamente pelas queimadas quanto a formação do ozônio que enfraquece a floresta restante.
“Nosso estudo mostra que reduzir o desmatamento e a degradação também protegeria a Amazônia de uma fonte secundária e invisível de perda de carbono”, afirmou Sitch.
Alexander Cheesman, da James Cook University, destacou que poluição do ar, abertura de áreas e mudança do clima não devem ser tratados como problemas isolados. A conclusão é importante porque uma mesma política pode produzir benefícios simultâneos: prevenir o fogo reduz emissões imediatas e preserva a capacidade futura da floresta de retirar CO2 da atmosfera.
O trabalho foi financiado pelo Natural Environment Research Council, em parte por meio da GW4+ Doctoral Training Partnership. Os próximos passos dependem do acompanhamento da temporada de incêndios e da evolução do El Niño em 2026, que poderão mostrar se o padrão observado nas secas anteriores voltará a se manifestar com força semelhante.
Com informações da University of Exeter.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.















Você precisa fazer login para comentar.