
Agenda apresentada em Santa Marta defende saída gradual do petróleo, gás e carvão, financiamento direto e participação indígena nas decisões.
Uma agenda apresentada em Santa Marta
Lideranças indígenas da Amazônia brasileira chegaram a Santa Marta, na Colômbia, com um documento que pretende levar a perspectiva dos territórios para o centro da transição energética global. A proposta foi apresentada na 1ª Conferência para a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis, realizada entre 27 e 29 de abril, enquanto governos, países e atores subnacionais discutiam mecanismos para reduzir progressivamente a dependência de petróleo, gás e carvão.
O movimento indígena brasileiro busca influenciar os documentos oficiais do encontro e mudar o lugar ocupado pelos povos originários no debate climático. Em vez de aparecerem apenas como populações afetadas por obras e políticas extrativas, as organizações defendem participação direta na formulação das soluções. A agenda levada à conferência combina proteção territorial, direitos coletivos, financiamento climático e alternativas econômicas associadas à conservação da floresta e à autonomia dos povos amazônicos.
O mapa que propõe bloquear novas frentes fósseis
No centro da articulação está o Mapa do Caminho Global para Além dos Combustíveis Fósseis. Elaborado pelo movimento indígena brasileiro, o documento propõe um acordo global para eliminar gradualmente o petróleo, o gás e o carvão. Também defende o bloqueio de novas frentes exploratórias e o reconhecimento dos territórios indígenas como zonas de exclusão para atividades fósseis.
A proposta não se limita à substituição de uma matriz energética por outra. O roteiro relaciona a redução dos combustíveis fósseis ao financiamento climático direto, ao acesso a tecnologias, à bioeconomia e à integração entre clima, biodiversidade e proteção territorial. Para as lideranças, uma transição justa precisa considerar quem vive nas áreas pressionadas pela exploração e garantir que essas comunidades participem das decisões que alteram seus territórios.
A pressão extrativa já alcança áreas amazônicas
O documento foi apresentado em um contexto de expansão da pressão sobre a Amazônia. Segundo levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, mais de 320 mil km² de Terras Indígenas na Bacia Amazônica já são afetados por blocos de exploração de petróleo e gás. O mesmo diagnóstico registra 567 blocos petrolíferos ativos na região, dos quais 189 estão em território brasileiro.
A mineração amplia a dimensão do problema apontado pelas organizações. Há 114 mil processos minerários incidindo sobre mais de 2,5 mil Terras Indígenas distribuídas por oito países amazônicos, e o Brasil concentra quase 60% dos requerimentos de mineração registrados. Esses números são usados pelas lideranças para sustentar que a transição não pode ser planejada apenas a partir de metas de descarbonização ou da troca de tecnologias. Para elas, o ponto de partida também precisa ser a proteção dos territórios sujeitos à exploração.
Direitos indígenas entram no centro da transição
“Não viemos só cobrar e dizer que não queremos petróleo. Estamos aqui dizendo que temos caminhos e recomendações que precisam ir para os documentos oficiais”, afirmou Luene Karipuna, coordenadora-executiva da Apoianp e representante da Coiab na conferência. As recomendações brasileiras foram incorporadas ao posicionamento conjunto dos povos indígenas do mundo, que reivindica autodeterminação e respeito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado.
O posicionamento também inclui a proteção de povos indígenas isolados e de recente contato como base para qualquer transição justa. Em 27 de abril, lideranças marcharam pelas ruas de Santa Marta contra a dependência dos combustíveis fósseis e a expansão petroleira na Amazônia. Coiab, AIDESEP, OPIAC, APA, NAWE e Coica participaram da mobilização. Divulgada em 28 de abril de 2026, a agenda mostra que a saída dos combustíveis fósseis envolve uma disputa sobre quem define o futuro dos territórios. Quando os povos que vivem neles apresentam seus próprios caminhos, a transição deixa de ser apenas uma escolha tecnológica e passa a incluir direitos, autonomia e responsabilidade coletiva.
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