
Durante meses de seca, a Caatinga parece não ter nada vivo no chão. Mas, debaixo da terra, bulbos parecidos com pequenas cebolas esperam a chuva. Quando as primeiras águas chegam, eles brotam em poucos dias e cobrem o solo de flores rosas, brancas e avermelhadas. São os lírios-da-chuva, também chamados de lírios-da-caatinga, plantas do gênero Zephyranthes. Segundo estudos da Embrapa Semiárido, o lírio-da-caatinga (Zephyranthes sylvatica) é uma espécie endêmica do bioma, ou seja, só existe ali, e o início da sua floração coincide com o primeiro período de chuva.
Uma planta feita para esperar
O segredo é o bulbo, uma estrutura subterrânea que guarda água e reservas de energia. Enquanto a superfície fica seca e quente, a planta permanece praticamente adormecida. Segundo a Embrapa Semiárido, o lírio-da-caatinga resiste bem às condições naturais do bioma e ocorre em áreas de solo arenoso, sob altas temperaturas durante boa parte do ano e chuvas irregulares. É no curto período chuvoso que as flores vistosas aparecem e se destacam na paisagem.
O que a Embrapa mediu
Em experimentos feitos pela Embrapa Semiárido, em Petrolina (PE), com plantas que receberam apenas a chuva natural, sem irrigação, os pesquisadores Victor Alexandre Freire de Vasconcelos, Lúcia Helena Piedade Kiill, Daniel Terao e Ivan André Alvarez, entre outros, observaram que:
- a floração começou junto com o primeiro período de chuva;
- a haste da flor teve, em média, 13,1 centímetros de altura;
- cada flor ficou aberta de três a quatro dias;
- as cores variaram do branco ao vermelho, com predomínio do rosa;
- bulbos de todos os tamanhos brotaram bem, com taxas entre 83% e 95% de brotação.
Quem visita as flores
Um estudo publicado na Revista Nordestina de Biologia acompanhou populações espontâneas do lírio-da-chuva (registrado como Habranthus sylvaticus, nome antigo do gênero) em áreas urbana e rural de Petrolina, de 2011 a 2013. Os pesquisadores descreveram uma planta de floração anual e maciça, com uma flor por haste. Segundo o trabalho:
- as flores abrem por volta das 6h da manhã;
- cada flor vive cerca de 48 horas;
- foram registradas visitas de 24 espécies de insetos e de uma espécie de beija-flor;
- a planta não se autofecunda: precisa do pólen de outra planta para formar sementes;
- a abelha-africanizada (Apis mellifera), na área urbana, e a abelha-cachorro, ou arapuá (Trigona spinipes), na área rural, foram apontadas como as principais polinizadoras.
Por que tantas flores ao mesmo tempo
Florescer todas juntas, logo depois da chuva, é uma estratégia comum em plantas de ambientes secos. A janela de água é curta, e as flores que abrem ao mesmo tempo atraem mais polinizadores e aumentam a chance de troca de pólen entre plantas diferentes, algo essencial para uma espécie que não se autofecunda.
Potencial para jardins
A Embrapa Semiárido estuda o lírio-da-caatinga dentro de uma linha de pesquisa sobre espécies nativas com potencial ornamental, para estimular uma floricultura da Caatinga. Segundo a instituição, produzir flores de espécies nativas em viveiro ajuda a evitar a retirada predatória de plantas da natureza. Por ser pequena, a planta pode ser usada como forração em jardins ou cultivada em vasos.
Um nome que mudou
Muitos trabalhos antigos registram essas plantas no gênero Habranthus. Em 2019, botânicos propuseram ampliar o gênero Zephyranthes e incluir nele as espécies de Habranthus. Por isso, a mesma planta pode aparecer com nomes científicos diferentes, conforme a data da pesquisa.
Perguntas frequentes
O que é o lírio-da-chuva?
Uma planta de bulbo do gênero Zephyranthes que floresce logo depois das chuvas. Na Caatinga, a espécie Zephyranthes sylvatica é chamada de lírio-da-caatinga.
Por que ela só floresce depois da chuva?
Porque passa a seca guardada no bulbo, debaixo da terra, e usa a água das primeiras chuvas para brotar e florir.
Quanto tempo dura a flor?
Poucos dias: cerca de 48 horas, segundo o estudo de Petrolina, e de três a quatro dias nas observações da Embrapa Semiárido.
Pode plantar em casa?
A Embrapa estuda o uso ornamental da espécie. O recomendado é comprar mudas ou bulbos de viveiros, sem retirar plantas da natureza.
Quando a chuva para, as flores somem tão rápido quanto apareceram, e os bulbos voltam a esperar debaixo da terra pela próxima estação.
Com informações da Embrapa Semiárido e de estudo publicado na Revista Nordestina de Biologia.
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