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Na infância ele abriu o casulo para a borboleta sair…

Povos indígenas de 10 etnias e ribeirinhos documentam a caça de 447.438 animais em 625 localidades da Amazônia e estudo na Nature revela que florestas saudáveis fornecem quase metade da proteína e ferro a 11 milhões de pessoas, enquanto o desmatamento reduz a produtividade em 67% em quase 500 mil km²

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Na quietude da madrugada amazônica, sob o dossel denso que filtra a luz do sol nascente, um caçador do povo Apurinã ou Suruí identifica pegadas frescas de queixada na lama do igarapé. Mais adiante, o farfalhar de folhas indica a presença de uma paca. Essa cena cotidiana, repetida por gerações em centenas de comunidades indígenas e ribeirinhas, formou a base de um dos estudos científicos mais abrangentes já realizados sobre a interdependência entre seres humanos e a fauna da maior floresta tropical do planeta.

Publicado na revista Nature em 26 de novembro de 2025, o trabalho intitulado “Healthy forests safeguard traditional wild meat food systems in Amazonia” analisou um dataset inédito de 447.438 animais caçados entre 1965 e 2024 em 625 localidades rurais espalhadas por toda a Amazônia. O resultado é tanto revelador quanto urgente: as florestas saudáveis e bem preservadas sustentam um sistema alimentar tradicional capaz de fornecer quase metade das necessidades diárias de proteína e ferro para aproximadamente 11 milhões de habitantes rurais da região. No entanto, em áreas onde o desmatamento ultrapassou 70% da cobertura original – cerca de 500 mil km² – a produtividade da caça despencou 67%.

O maior levantamento sobre sistemas de carne silvestre na Amazônia

A pesquisa foi liderada por uma equipe internacional com forte participação brasileira, incluindo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Rede Fauna, do Instituto Juruá e de diversas universidades. Crucialmente, contou com coautores indígenas de dez povos: Luan M. G. Suruí (Paiter Suruí), vários representantes Paumari, Ana Paula L. R. Katukina, múltiplos Baniwa (incluindo Dzoodzo Baniwa), Yaukuma Waura, Jairo Silvestre Apurinã e outros Apurinã, Josiane O. G. Tikuna e Elias P. A. L. Tikuna, José L. Kaxinauá (Huni Kuin), Kussugi B. Kuikuro e Jorge T. Penaforth Kaixana, além de extrativistas.

O artista indígena Jairo Silvestre Apurinã contribuiu com desenhos originais dos animais. Essa colaboração não foi apenas simbólica: o conhecimento ecológico local dos povos indígenas orientou a interpretação dos dados e a compreensão das variações culturais na preferência de caça.

Os pesquisadores estimaram que anualmente são caçados cerca de 46,4 milhões de animais na Amazônia rural, gerando 0,57 milhão de toneladas de biomassa bruta (undressed) e 0,34 milhão de toneladas de carne comestível. Existem aproximadamente 1,93 milhão de caçadores rurais na região.

Das 490 espécies documentadas (agrupadas em 174 taxa), apenas 20 respondem por 72% de todos os indivíduos caçados e 84% da biomassa total. Os mamíferos dominam: 66,5% dos indivíduos e 85,5% da biomassa. Os ungulados (queixada e anta principalmente) respondem por cerca de 40% da biomassa extraída. A paca (Cuniculus paca) aparece como a espécie mais frequentemente caçada em muitas áreas. Outros grupos importantes incluem primatas, armadilhos, aves como jacus e mutuns, e quelônios.

O valor nutricional e econômico da carne de caça

A disponibilidade média chega a 101 gramas de carne comestível por dia por habitante rural, ou 36,8 kg por ano. Essa quantidade cobre quase metade das necessidades de proteína e ferro da população rural amazônica, além de fornecer de 18% a 126% das vitaminas do complexo B e 23% do zinco – nutrientes críticos em regiões onde deficiências alimentares, malária e infecções parasitárias são prevalentes.

Se avaliada ao preço da carne bovina de 2024, a produção anual de carne silvestre equivaleria a cerca de US$ 2,2 bilhões. Trata-se de uma rede de segurança alimentar e econômica invisível, especialmente importante para comunidades remotas com acesso limitado a mercados.

Substituir essa fonte por gado exigiria a conversão de entre 7.603 e 63.803 km² de floresta adicional, liberando de 140 a 1.160 milhões de toneladas de CO2 – o equivalente a até 3% das emissões globais anuais.

Variações regionais e culturais

Os padrões de caça refletem a diversidade da Amazônia. Em florestas de terra firme predominam tinamídeos, armadilhos e ungulados; em áreas inundáveis, tartarugas, jacarés, capivaras e aves aquáticas. Povos de língua Aruak tendem a valorizar ungulados, enquanto no Alto Xingu há tabus culturais que restringem a caça de certas espécies. Essas diferenças reforçam a necessidade de gestão adaptada e liderada pelos próprios povos.

A ameaça do desmatamento e da urbanização

O estudo demonstra de forma inequívoca que a produtividade da caça está diretamente correlacionada com a integridade florestal. Em regiões com mais de 70% de perda de habitat (cerca de 800 mil km² no total analisado), a colheita por caçador cai 74,7% em número de indivíduos e 67,3% em biomassa. A disponibilidade per capita diminui significativamente com o aumento da densidade populacional humana, a proximidade de centros urbanos e a extensão do desmatamento.

Além da redução quantitativa, ocorre uma simplificação das assembleias de espécies caçadas: espécies de grande porte e vulneráveis (como macacos-aranha e macacos-barrigudos) diminuem, enquanto generalistas como tatus e pombas aumentam. Isso ameaça tanto a biodiversidade quanto a qualidade nutricional e cultural da dieta tradicional.

Implicações para o Brasil e a conservação da Amazônia

No contexto brasileiro, o estudo tem consequências diretas para políticas públicas. A Amazônia Legal abriga a maior parte desses sistemas alimentares. A proteção efetiva das terras indígenas – onde as taxas de desmatamento são tipicamente muito menores – emerge como uma das estratégias mais eficientes para manter tanto a fauna quanto a segurança alimentar de milhões de brasileiros.

Os autores alertam que proibições amplas de caça de subsistência, sem alternativas viáveis, podem prejudicar a autonomia e a saúde das comunidades. Em vez disso, recomendam o fortalecimento do manejo comunitário em florestas intactas, o combate ao desmatamento ilegal e o reconhecimento do papel dos povos indígenas e comunidades tradicionais como guardiões da biodiversidade e dos sistemas alimentares.

O trabalho também contribui para vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente aqueles relacionados à fome zero, saúde, conservação da vida terrestre e redução das desigualdades.

Limitações incluem o fato de que os dados são amostrais e as estimativas regionais podem variar; além disso, a caça comercial ilegal e a pressão de caça próxima a cidades não foram o foco principal. Ainda assim, a escala do dataset, a participação indígena e a robustez estatística tornam este um marco científico.

A história contada pelos 447.438 animais registrados e pelos pesquisadores indígenas e não indígenas é clara: a Amazônia em pé alimenta, cura e sustenta. Cada hectare desmatado não retira apenas árvores e carbono – retira proteína, ferro, cultura e futuro de milhões de pessoas. Proteger a floresta é, portanto, proteger a mesa e a identidade dos povos da Amazônia brasileira.

Fonte: Antunes, A.P. et al. (incluindo coautores indígenas). Healthy forests safeguard traditional wild meat food systems in Amazonia. Nature 648, 625–633 (2025). Publicado em 26 de novembro de 2025. DOI: 10.1038/s41586-025-09743-z. Instituições: Inpa, Rede Fauna, CIFOR-ICRAF, entre outras.

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