Lula nega dragagem emergencial no Tapajós; seca ameaça escoamento de grãos

Lula nega dragagem emergencial no Tapajós; seca ameaça escoamento de grãos
Foto: cnnbrasil.com.br

Decisão presidencial contraria ministros e agrava risco de colapso logístico na Amazônia com El Niño.

Mesmo sob a ameaça de seca extrema e do comprometimento de um dos principais corredores logísticos de exportação de grãos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desautorizou a retirada emergencial de sedimentos no rio Tapajós (PA). A navegabilidade essencial da hidrovia pode ser duramente afetada pelo fenômeno climático El Niño nos próximos meses.

A decisão foi tomada em uma reunião no Palácio do Planalto, na quinta-feira, dia 23 de julho de 2026. Representantes de diversos ministérios e líderes de povos indígenas participaram do encontro. Lula contrariou seus próprios auxiliares ao decidir não acatar as recomendações para iniciar a dragagem de manutenção do rio.

Pressão indígena influencia decisão presidencial

Segundo relatos feitos à CNN Brasil, lideranças das comunidades locais ameaçaram realizar protestos. Essa manifestação elevaria o tom contra as obras, especialmente em um ano eleitoral. A reunião contou com a presença de importantes membros do governo, incluindo a ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, que conduziu as discussões.

Participaram também representantes dos ministérios dos Transportes, Portos e Aeroportos, Minas e Energia. Além disso, estiveram presentes autoridades do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

Histórico de protestos e projetos arquivados

Entre janeiro e fevereiro, indígenas de 14 etnias ocuparam por quase um mês o terminal da Cargill em Santarém (PA). O protesto se deu contra uma dragagem de manutenção do rio e ações para a concessão da hidrovia do Tapajós. O projeto de dragagem do Dnit, devido à pressão, acabou sendo engavetado à época.

Diante da iminência do fenômeno climático El Niño com alta intensidade, o governo e o setor privado acenderam um alerta. Foi resgatado um acordo de cooperação entre o Dnit e a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani). Este acordo previa que empresas do setor de transporte de cargas se comprometeriam a bancar integralmente o projeto de uma dragagem emergencial. A elas caberia toda a contratação, execução das obras e desenvolvimento dos trabalhos, ficando para o governo apenas a fiscalização.

Redimensionamento do projeto para mitigar impactos

O empreendimento foi redimensionado para atenuar impactos e minimizar controvérsias. Em vez da retirada de 3 milhões de metros cúbicos de sedimentos ao longo de três anos, o plano passou a ser de intervenções em menos de 2% da extensão navegável do rio, o que equivale a cerca de quatro quilômetros.

A nova proposta previa a remoção de apenas 1 milhão de metros cúbicos de bancos de areia em sete pontos específicos entre Miritituba e Santarém. O trabalho teria duração estimada de 90 a 100 dias. Houve ainda alteração do cronograma para evitar o período de reprodução de quelônios como tartarugas e cágados. Segundo técnicos, nenhuma comunidade indígena seria afetada em um raio inferior a dez quilômetros.

Pela nova lei de licenciamento ambiental, dragagens de manutenção que não alteram a profundidade ou a largura existente não precisam mais de licença. Dessa forma, a proposta redimensionada prescindiria de uma análise do Ibama ou da Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas).

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El Niño e o risco iminente de paralisação logística

Sem a dragagem, especialistas consideram muito alto o risco de paralisação. O transporte de cargas pelo Tapajós pode ser parcial ou totalmente interrompido neste ano. O El Niño deve ser mais severo do que em ocasiões anteriores. Este fenômeno climático é causado pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico, alterando a circulação atmosférica e o regime de chuvas globalmente. No Brasil, geralmente provoca mais chuvas na região Sul e seca intensa no Norte, resultando em menor volume de água nos rios amazônicos.

Segundo fontes do governo e do setor privado, a menor navegabilidade do rio Tapajós deve afetar o escoamento de 3,5 milhões a 5,5 milhões de toneladas de grãos (principalmente soja e milho) em 2026. Em 2027, dependendo da duração do El Niño, o impacto poderia ser ainda maior. Para produtores rurais, especialmente no norte de Mato Grosso, isso significa custos mais elevados para armazenar suas colheitas ou a busca por alternativas mais caras, como os portos de Santos (SP) ou Itaqui (MA). Estima-se uma conta adicional de R$ 500 milhões com o escoamento logístico.

Impacto ambiental e financeiro

A menor movimentação de cargas na hidrovias amazônicas afeta os negócios dos terminais portuários instalados no Arco Norte. Além disso, aumenta as emissões de gases do efeito estufa. Um comboio típico de 25 barcaças transporta o mesmo volume de 1.700 caminhões ou de seis composições ferroviárias, com 150 vagões cada. No total, estimativas apresentadas nas reuniões preparatórias indicam a potencial emissão de 55 mil toneladas a mais de CO2 com restrições no uso do Tapajós. As barcaças podem até continuar navegando, mas precisarão reduzir a quantidade de mercadorias transportadas para evitar encalhes nos sedimentos acumulados pela falta de dragagem, comprometendo a logística da região.

Perguntas Frequentes

Por que a dragagem do Tapajós é importante para a Amazônia?

A dragagem mantém a profundidade necessária para a navegação de grandes comboios de barcaças, que são cruciais para o escoamento de milhões de toneladas de grãos da região produtora até os portos do Arco Norte.

Qual a estimativa de perda de escoamento de grãos sem a dragagem?

A estimativa é de que 3,5 milhões a 5,5 milhões de toneladas de grãos deixem de ser escoadas pelo rio Tapajós em 2026, com impactos potencialmente maiores em 2027.

Quais os riscos ambientais de não realizar a dragagem?

A não realização da dragagem pode forçar o transporte de cargas para rodovias, aumentando significativamente a emissão de gases do efeito estufa, com uma estimativa de 55 mil toneladas a mais de CO2.

Com informações de CNN Brasil.

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