Macaco-barrigudo vive em grupos de até 70, agarra-se com a cauda e dispersa sementes na Amazônia

Macaco barrigudo macho combina bolsa laríngea e escroto azul turquesa para amplificar chamados e garantir domínio territorial na floresta
Ilustração: Revista Amazônia

Grande primata de cauda preênsil, o macaco-barrigudo vive em grupos que podem chegar a 70 indivíduos, come sobretudo frutos e espalha sementes pela floresta amazônica.

Os macacos-barrigudos pertencem ao gênero Lagothrix, da família Atelidae. Segundo o Primate Info Net, do Wisconsin National Primate Research Center, da Universidade de Wisconsin-Madison, o gênero reúne quatro espécies, Lagothrix cana, L. lagotricha, L. lugens e L. poeppigii, distribuídas por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru; no Brasil, ocorrem a partir dos rios Negro e Tapajós, para oeste. Estão entre os maiores primatas do Novo Mundo: os machos de L. cana pesam em média 9,5 quilos e os de L. lagotricha, 7,3 quilos.

A cauda preênsil e o corpo para a vida nas copas

Segundo o Primate Info Net, a cauda do macaco-barrigudo é tão longa quanto o corpo com a cabeça, ou mais, e tem uma almofada na parte final, do lado de baixo, que melhora a pegada. Ela serve para escalar, manter o equilíbrio e sustentar o animal pendurado enquanto ele colhe frutos. Segundo o Centro Nacional de Primatas, do Instituto Evandro Chagas, o macaco-barrigudo se desloca com rapidez entre as árvores e dá saltos longos; no chão, adota postura bípede.

Frutos em primeiro lugar

O Primate Info Net descreve os macacos-barrigudos como predominantemente frugívoros ao longo do ano. Em L. cana, cerca de 80,7% da dieta é composta de frutos; em L. lagotricha, 78,9% são frutos carnosos. Folhas, flores, insetos e outros animais completam o cardápio, e na estação seca, quando os frutos escasseiam, o consumo de folhagem, sementes e exsudatos aumenta. O Centro Nacional de Primatas lembra que a espécie usa principalmente a floresta de terra firme e, em períodos de grande oferta de frutos, também entra em florestas alagadas.

Semeadores de longa distância

O estudo mais citado sobre o tema foi feito por Pablo Stevenson no Parque Nacional de Tinigua, na Colômbia, e publicado em 2000 no American Journal of Primatology. Em um ano de observação de um grupo de Lagothrix lagothricha, o pesquisador coletou 753 depósitos de fezes, com cerca de 50 mil sementes. As sementes dispersas pertenciam a 112 espécies de plantas. Com a densidade de 30 indivíduos por quilômetro quadrado, os macacos da área dispersavam mais de 25 mil sementes por quilômetro quadrado por dia.

Nos 264 casos em que foi possível medir a distância, apenas 1% das fezes caiu a menos de 15 metros da árvore-mãe. O mais comum foi o depósito entre 100 e 500 metros de distância, e em alguns casos a 1,5 quilômetro. A germinação das sementes que passaram pelo intestino costuma ser igual ou maior que a das sementes que não foram engolidas. Quando a espécie desaparece de uma área, esse transporte de sementes a longas distâncias também se perde.

Grupos grandes, de composição flexível

O Centro Nacional de Primatas informa que o macaco-barrigudo forma grandes grupos, de 12 a 70 indivíduos. O Primate Info Net classifica o sistema social como de vários machos e várias fêmeas, e dá médias de 44 a 49 animais por grupo em L. cana e de 23 em L. poeppigii. Os grupos se espalham pela mata, mantêm contato por vocalizações e podem se dividir temporariamente em subgrupos, que depois se reencontram.

Quem sai do grupo de nascimento? Segundo o Primate Info Net, a dispersão de fêmeas foi documentada em L. lagotricha, por volta dos 6 anos de idade. Evidências moleculares em L. poeppigii indicam, porém, que os dois sexos se dispersam, com machos mais propensos a ficar no grupo natal; machos solitários e grupos de machos jovens também foram observados. Em estudo com L. poeppigii no Equador, publicado em 2005 no International Journal of Primatology, Anthony Di Fiore e Robert Fleischer descrevem relações tolerantes entre machos adultos, com pouca competição mesmo durante a cópula.

Reprodução lenta

A gestação dura de 7 a 7,5 meses, de acordo com o Primate Info Net, e o Centro Nacional de Primatas cita de 207 a 225 dias para L. cana. Nasce um único filhote, de pelagem bem mais clara que a dos pais. Nas primeiras semanas ele é carregado na frente do corpo da mãe e depois passa para as costas. A fêmea costuma ter um filho a cada cerca de três anos em L. lagotricha, e o Centro Nacional de Primatas registra maturidade sexual entre 60 e 84 meses.

Ameaças e conservação

O Primate Info Net afirma que quase todos os macacos-barrigudos estão ameaçados, e que só L. lagotricha mantém populações relativamente saudáveis e amplamente distribuídas. O principal fator é a caça: por serem grandes, os animais são particularmente vulneráveis à caça para carne e uso medicinal, e em alguns locais a pressão foi tão alta que a espécie desapareceu. A isso se somam a perda de floresta por agricultura e mineração. O Centro Nacional de Primatas informa que o ICMBio classifica Lagothrix cana como Vulnerável (VU).

A combinação de caça intensa e reprodução lenta torna a recuperação difícil: uma fêmea que tem um filhote a cada três anos repõe poucos animais. Sem macacos-barrigudos, florestas com árvores de frutos grandes perdem um agente de dispersão que leva sementes a centenas de metros. A caça e a lentidão reprodutiva se somam e tornam a recuperação das populações um processo longo.

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