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Mapa revela 121 mil hectares de cacau na Amazônia e mostra avanço sobre áreas já alteradas

Estudo da Embrapa detalha a produção no Pará e em Rondônia e aponta diferenças entre os sistemas de cultivo.

De longe, uma plantação de cacau pode parecer apenas mais um trecho de vegetação no meio da Amazônia. Quando imagens de radar, satélites de alta resolução e visitas de campo são combinadas, porém, surge um retrato detalhado de 121 mil hectares cultivados no Pará e em Rondônia, com pistas sobre como a cultura ocupa áreas alteradas e ajuda a reorganizar a paisagem rural.

O mapeamento foi realizado pela Embrapa e reúne informações sobre a distribuição territorial, os sistemas de cultivo e o histórico ambiental das áreas produtoras. No Pará, os dados foram atualizados para 2024. Em Rondônia, o levantamento criou pela primeira vez uma linha de base completa da cacauicultura estadual. Os resultados serão apresentados em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus, na Bahia.

Segundo a Embrapa, o estudo indica que a expansão recente do cacau na Amazônia ocorre principalmente sobre áreas que já haviam sido modificadas, como pastagens e trechos de vegetação secundária, e não com a derrubada de floresta nativa.

Pará concentra a maior parte da área mapeada

O Pará aparece como o principal território produtor entre os dois estados analisados. O levantamento identificou 116.436 hectares de cacau distribuídos em 61 municípios. Em 2022, a área mapeada era de 87.309 hectares. Em dois anos, houve crescimento de 33,26%, equivalente a 29.128 hectares adicionais.

A maior concentração está no eixo da Transamazônica e no oeste paraense. Medicilândia lidera, com 35.203 hectares, seguida por Uruará, com 17.024 hectares, Brasil Novo, com 10.162 hectares, e Altamira, com 7.301 hectares. Tomé-Açu, com 6.981 hectares, também se destaca por sua experiência com sistemas agroflorestais no nordeste do estado.

A produção paraense é formada principalmente por pequenas áreas. Foram identificadas 31.843 áreas de cultivo, das quais 84,65% têm até cinco hectares. Aproximadamente 74,55% estão em propriedades de até 50 hectares, característica que reforça a participação da agricultura familiar na cadeia.

Expansão revela escolhas diferentes entre os estados

O crescimento do cacau no Pará não ocorreu de maneira uniforme. Dos 29.128 hectares incorporados entre 2022 e 2024, 63%, ou 18.350 hectares, estavam em monocultivos a pleno sol. Os outros 37%, correspondentes a 10.777 hectares, foram identificados em sistemas agroflorestais, que combinam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.

Para Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e autor principal do estudo, os números mostram que os produtores vêm respondendo a estímulos econômicos de curto prazo. Ao mesmo tempo, indicam a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas aos sistemas agroflorestais, capazes de diversificar a produção e oferecer serviços ambientais.

“Além de gerar renda para milhares de famílias rurais, a cacauicultura tem a capacidade de recuperar solos alterados e devolver a produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas”, afirma Adriano Venturieri.

Em Rondônia, o cenário é diferente. O estado possui 5.340 hectares de cacau distribuídos em 51 municípios, e 62% das áreas antropizadas, ou 3.310 hectares, são manejadas em sistemas agroflorestais. O cultivo a pleno sol representa 38%, com 2.029 hectares.

A produção rondoniense também é bastante pulverizada. O mapeamento identificou 38.108 áreas, e 75% delas têm até cinco hectares. Jaru lidera a lista estadual, com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho, com 352,87 hectares, Theobroma, com 305,43 hectares, Ouro Preto do Oeste, com 297,41 hectares, e Mirante da Serra, com 260,28 hectares.

Mapa revela 121 mil hectares de cacau na Amazônia e mostra avanço sobre áreas já alteradas
Foto: acervo

Imagens de satélite ajudam a separar cacau e floresta

Identificar cacaueiros em uma região de vegetação densa é uma tarefa complexa. Em sistemas sombreados, as copas das plantas podem apresentar características semelhantes às de florestas nativas ou de áreas de vegetação secundária.

Para superar esse obstáculo, a equipe utilizou uma metodologia híbrida, com imagens de radar, diferentes satélites e inteligência computacional. Imagens com resolução de 50 centímetros permitiram observar detalhes de meio metro no terreno e distinguir cultivos a pleno sol de áreas integradas a sistemas agroflorestais.

As informações das imagens foram conferidas em expedições de campo realizadas em dez municípios das regiões da Transamazônica e do nordeste paraense, além de localidades de Rondônia. A auditoria direta serviu para aumentar a precisão das áreas georreferenciadas.

O que os dados mostram sobre desmatamento

O estudo cruzou os mapas de cacau com bases do TerraClass e do Prodes, projetos associados ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O resultado aponta que 96% das áreas paraenses e 98% das rondoniense com cultivo estavam em locais desflorestados antes de 2020, dentro dos parâmetros considerados pela legislação nacional e por regras internacionais de mercado.

O levantamento também identificou que 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em áreas desmatadas após 2021. Esses dados podem apoiar exportadores na gestão de risco e na comprovação de conformidade com exigências socioambientais, especialmente as relacionadas ao Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR. Mais informações estão disponíveis na página oficial do regulamento europeu contra o desmatamento.

Outro ponto registrado foi a existência de 11.444 hectares de cacau no Pará e 148,78 hectares em Rondônia cultivados diretamente sob a cobertura de florestas nativas usadas como sombra. O dado reforça que a análise ambiental precisa considerar não apenas a existência da lavoura, mas também o tipo de cobertura e o histórico de ocupação de cada área.

Uma cadeia importante para a economia amazônica

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a região Norte responde por metade da safra nacional de cacau, com produção próxima de 148 mil toneladas, em um total brasileiro de cerca de 297 mil toneladas. O Pará responde por aproximadamente 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume equivalente a 46% da produção brasileira.

Rondônia ocupa a segunda posição entre os estados produtores da região Norte e a quarta no ranking nacional, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas. Embora tenha uma área cultivada menor, o estado registra produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare.

Para a Amazônia, que inclui também Acre, Amapá, Amazonas, Roraima e Tocantins, o mapeamento oferece uma referência para acompanhar a expansão da cultura e orientar políticas de crédito, assistência técnica, restauração produtiva e rastreabilidade. O desafio, segundo os pesquisadores, não é apenas aumentar o número de hectares, mas garantir que o crescimento ocorra com qualidade territorial e sustentabilidade.

A apresentação na ExpoCacau 2026 deve ampliar o debate entre produtores, técnicos, empresas e organizações sobre o futuro da cadeia cacaueira e os próximos passos para consolidar sistemas agroflorestais e mercados que exigem origem comprovada.

Onde acompanhar a apresentação

A exposição do estudo está prevista para 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus, na Bahia. A programação e as informações sobre o evento podem ser consultadas no site oficial da ExpoCacau 2026.

Com informações de Embrapa.

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