
Fóssil encontrado perto de Drumheller registra a primeira evidência de um raptor se alimentando de um tiranossauro.
O caso começou com uma mandíbula quebrada e terminou como uma investigação sobre quem comeu quem há milhões de anos. Perto de Drumheller, em Alberta, no Canadá, marcas de dentes encontradas em fragmentos de um Albertosaurus levaram pesquisadores a duas possibilidades: um pequeno dinossauro raptor se alimentou do corpo do grande predador ou um jovem Albertosaurus atacou um indivíduo maior da própria espécie. O estudo foi publicado em 7 de outubro de 2026 no Journal of Paleontology.
O fóssil que virou cena de investigação
O Albertosaurus viveu durante o período Cretáceo Superior, entre cerca de 73 milhões e 67 milhões de anos atrás. Parente do Tyrannosaurus rex, tinha o porte e a força de um predador dominante no território que hoje corresponde à província canadense de Alberta. O exemplar analisado, porém, não chegou aos pesquisadores como um esqueleto completo. Era uma coleção dispersa de fragmentos do crânio.
O material foi encontrado e comunicado por uma pessoa do público em 2022. Depois, técnicos do Royal Tyrrell Museum recolheram e prepararam os ossos. Durante esse trabalho, surgiram marcas que pareciam ter sido produzidas por dentes. A suspeita foi encaminhada à Universidade de Alberta, onde Joshua Doyon, então estudante de paleontologia, passou a estudar cada sinal na mandíbula.
A investigação não se limitou a reconhecer os sulcos. Doyon comparou o espaçamento entre as marcas, avaliou o formato dos dentes que poderiam tê-las produzido e eliminou, uma a uma, as espécies possíveis no ecossistema pré-histórico de Alberta. A ausência de sinais de cicatrização também pesou na interpretação: os ferimentos provavelmente ocorreram perto do momento da morte ou depois dela, quando o corpo já poderia estar sendo consumido.
Por que um raptor aparece como principal suspeito
A explicação considerada mais provável é que o Albertosaurus tenha morrido por uma causa desconhecida e, pouco depois, servido de alimento para um dromaeossaurídeo. O grupo reúne pequenos dinossauros carnívoros popularizados pelo cinema como “raptors”. Nesse cenário, não houve necessariamente um confronto entre os dois animais. O que ficou registrado nos ossos pode ser o trabalho de um necrófago aproveitando uma carcaça.
O resultado muda a leitura da cadeia alimentar daquele ambiente. Um Albertosaurus adulto ou subadulto ocupava o topo entre os predadores conhecidos, enquanto os dromaeossaurídeos eram muito menores. Ainda assim, tamanho não impedia que um animal pequeno explorasse o corpo de um rival muito maior depois da morte.
“Isso vira tudo de cabeça para baixo, porque estamos lidando com um dinossauro muito pequeno comendo um dinossauro muito grande, feroz e perigoso como um tiranossauro”, afirmou Philip Currie, paleontólogo da Universidade de Alberta e orientador de Doyon.
Segundo a Universidade de Alberta, o estudo publicado em 7 de outubro de 2026 identificou em uma mandíbula de Albertosaurus a primeira evidência de alimentação ou consumo de restos de um tiranossauro por um dromaeossaurídeo.
A hipótese mais dramática envolve um filhote
O padrão das marcas, no entanto, não encerra a história. O espaçamento entre os dentes também pode ser compatível com um jovem Albertosaurus. Se essa identificação for confirmada, o fóssil documentaria um episódio de canibalismo entre indivíduos da mesma espécie.
A diferença de tamanho torna essa possibilidade especialmente difícil de visualizar. O suposto agressor teria cerca de dois metros de comprimento, enquanto o Albertosaurus mordido seria um subadulto de aproximadamente seis metros e 530 quilos. Doyon considera essa interpretação menos provável, mas não a descarta porque os dentes de um animal jovem da espécie ainda podem produzir marcas compatíveis com as observadas.
Há uma distinção importante entre as duas hipóteses. No caso do raptor, as marcas representariam o aproveitamento de uma carcaça por um predador menor. No caso do jovem Albertosaurus, indicariam que indivíduos da mesma espécie podiam consumir um animal maior, possivelmente em uma situação de disputa, oportunismo ou escassez. O fóssil não permite afirmar qual dessas cenas ocorreu.
O que a descoberta revela sobre os ecossistemas antigos
Por décadas, imagens de tiranossauros foram associadas quase exclusivamente ao papel de caçadores no topo da cadeia. A mandíbula de Drumheller acrescenta uma etapa menos conhecida: a reciclagem de um predador dominante depois de sua morte. A descoberta sugere que a teia alimentar era mais complexa do que uma simples sequência em que os grandes caçavam os pequenos.
Esse tipo de evidência também mostra por que marcas minúsculas podem ter valor equivalente ao de um esqueleto inteiro. Um osso preserva a anatomia do animal, mas um conjunto de sulcos pode registrar uma relação entre espécies. Para chegar a essa conclusão, o pesquisador precisou combinar anatomia, distância entre dentes, comportamento alimentar e o contexto geológico da região.
Para quem acompanha a biodiversidade na Amazônia, a lição é próxima, mesmo que o fóssil tenha sido encontrado no Canadá. A conservação de restos, sinais de alimentação e alterações nos ossos ajuda a reconstruir redes ecológicas que não aparecem quando se observa cada espécie isoladamente. No registro fóssil ou nas pesquisas atuais, predadores, carcaças e decompositores fazem parte do mesmo sistema.
De Alberta para a carreira de um jovem pesquisador
O trabalho também marca uma etapa importante na trajetória de Doyon. Ele começou a examinar as marcas ainda na graduação e continuou a análise no mestrado, aproveitando a proximidade entre a Universidade de Alberta, as áreas fossilíferas de Alberta e o Royal Tyrrell Museum. A instituição mantém uma coleção extensa de espécimes de dinossauros, recurso que permitiu comparar o material com outros registros.
O nome Albertosaurus significa “lagarto de Alberta”. A espécie foi batizada em 1905, no mesmo ano em que Alberta se tornou uma província. Mais de um século depois, um crânio fragmentado encontrado por um membro do público voltou a colocar o animal no centro de uma investigação, agora com uma pergunta que permanece aberta: a última refeição veio de um raptor oportunista ou de um parente ainda jovem?
A resposta depende de novas comparações entre as marcas, os dentes conhecidos e outros fósseis da região. Enquanto isso, o estudo transforma um conjunto de ossos dispersos em um dos registros mais detalhados sobre como um predador do Cretáceo poderia ter sido consumido após a morte.
Com informações de University of Alberta.
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