
Pesquisa participativa no Marajó mostra que pesca, açaí, farinha, espiritualidade e identidade local estão ligados ao mesmo território de águas, florestas e manguezais.
Um mapa desenhado pelos moradores
Em Jubim, vila pesqueira do arquipélago do Marajó, no Pará, o território não aparece apenas como uma extensão de terra entre o rio e o mar. Ele é formado pelos lugares onde os moradores pescam, coletam açaí, circulam, plantam, reconhecem espécies, praticam atividades culturais e constroem relações de trabalho e espiritualidade. Entre 2022 e 2025, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, em coautoria com habitantes da comunidade, registraram essa rede de relações por meio de um mapeamento participativo.
O levantamento identificou 73 espécies locais associadas ao cotidiano de Jubim, sendo 51 plantas e 22 animais. Também foram georreferenciados 65 locais de pesca, coleta, circulação e usos culturais e simbólicos. Os números não representam apenas uma lista de recursos naturais ou pontos no território. Eles registram como a comunidade existe em relação com a natureza, em uma área marcada pelo encontro entre rios, mar, igarapés, florestas, manguezais e comunidades humanas.
Pesca, açaí e farinha organizam a vida local
A relação com a biodiversidade aparece em atividades que sustentam simultaneamente alimentação, trabalho, cultura e identidade. A pesca artesanal é uma dessas práticas, assim como a coleta de frutas, incluindo o açaí, e a produção da farinha de mandioca. As espécies reconhecidas pelos moradores também estão ligadas à medicina, à construção e à carpintaria, ao artesanato, às biojoias, à produção de itens para pesca e aos cosméticos.
Essa variedade de usos ajuda a compreender por que a pesquisa adota o conceito de maretório para definir Jubim. A palavra combina “mar” e “território” e descreve uma comunidade cuja organização social e econômica é influenciada por ambientes conectados. O maretório, nesse caso, não se limita ao espaço físico ocupado pelas casas. Inclui os caminhos da pesca, as áreas de coleta, os pontos de circulação e os locais que carregam valores culturais e simbólicos para os moradores.
Dois workshops reuniram diferentes gerações
A primeira etapa do trabalho foi realizada em dois workshops com moradores de diferentes idades e papéis sociais. Nos encontros iniciais, os participantes apontaram áreas prioritárias de interação entre a comunidade e a natureza. Entraram no mapeamento zonas de caça, pesca e agricultura, além de pontos relacionados a conflitos socioambientais. A escolha dos lugares partiu do conhecimento de quem vive e trabalha no território.
Em um segundo momento, 32 integrantes da comunidade identificaram valores culturais e simbólicos associados aos locais mapeados. Para isso, utilizaram fotografias e redesenharam mapas convencionais, incluindo lugares considerados significativos. As informações foram complementadas por sete entrevistas com moradores reconhecidos pelo conhecimento sobre a fauna e a flora locais. A equipe de pesquisadores também fez quatro excursões ao território para documentar as interações relatadas durante as atividades participativas.
O maretório também pode apoiar reivindicações territoriais
O resultado descreve uma sociobiodiversidade conhecida e utilizada pelos moradores, mas o foco do estudo está nas relações entre comunidade e natureza, não na elaboração de um inventário geral de toda a fauna e flora do Marajó. Os 65 locais registrados correspondem às áreas indicadas e documentadas durante as oficinas, entrevistas e excursões. Assim, o mapa evidencia práticas e significados territoriais sem transformar a experiência de Jubim em uma representação de todas as comunidades do arquipélago.
Para Lara Sartorio, pesquisadora da Unifesp e autora líder do estudo, o conceito de maretório pode ultrapassar a categoria acadêmica e funcionar como ferramenta de reconhecimento e reivindicação territorial. A formulação ganha peso em um contexto de expansão regional de grandes empreendimentos, como portos, ferrovias e prospecção de petróleo. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista People and Nature em 10 de setembro de 2026. O trabalho de campo foi feito em Jubim entre 2022 e 2025. Quando uma comunidade desenha seu próprio território, cada ponto do mapa passa a mostrar também uma forma de permanecer nele.
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