
Terceiro ciclo do TAC da Carne amplia o controle sobre a origem do gado, mas a cobertura varia entre os estados.
O Ministério Público Federal apresenta nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, em Cuiabá, os resultados do terceiro ciclo unificado de auditorias do Termo de Ajustamento de Conduta da Carne, conhecido como TAC da Carne, em frigoríficos que operam na Amazônia Legal. A análise verifica compras de gado para abate ou exportação realizadas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024 em seis estados, Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins, com o objetivo de identificar animais ligados a desmatamento ilegal, grilagem, trabalho escravo, invasões de terras protegidas ou falta de regularização ambiental.
A divulgação ocorre na sede da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso, em Cuiabá, com transmissão ao vivo pelo YouTube, segundo o MPF. O resultado mais detalhado informado até agora está no Pará: 14 frigoríficos concluíram as auditorias e representaram 89,1% do volume de gado comercializado no estado no período. Na amostragem efetivamente examinada, 8,17% das operações apresentaram algum tipo de inconformidade socioambiental.
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O percentual de 8,17% chama atenção, mas não pode ser interpretado como uma fotografia de toda a pecuária paraense. Ele corresponde à amostragem auditada, e não necessariamente a todos os animais comercializados no estado. Essa diferença é importante porque auditorias de cadeia produtiva dependem tanto da qualidade dos cruzamentos de dados quanto da parcela efetivamente submetida à checagem.
Segundo o MPF, 7,44 milhões de cabeças foram abrangidas pelas auditorias concluídas no Pará, de um universo de 8,35 milhões de animais comercializados para abate ou exportação. A cobertura, portanto, alcançou quase nove em cada dez bovinos negociados no estado, mas ainda deixou cerca de 910 mil cabeças fora do volume auditado ou sem conclusão informada no material divulgado.
Segundo o Ministério Público Federal, 8,17% da amostragem auditada no Pará apresentou inconformidade socioambiental entre as operações realizadas de janeiro de 2023 a dezembro de 2024. A frase delimita três pontos que não podem ser separados: o estado, o período e a natureza da medição. Sem a abertura dos dados por tipo de infração, município, fornecedor ou frigorífico, ainda não é possível saber quanto desse percentual está relacionado a desmatamento, sobreposição fundiária, trabalho escravo ou outras irregularidades.
Participação desigual entre Acre, Amazonas, Mato Grosso e Rondônia
A cobertura do terceiro ciclo não foi homogênea. Em Mato Grosso, 13 dos 14 frigoríficos convocados concluíram o processo, e o volume auditado correspondeu a 82% dos animais comercializados no estado para abate ou exportação durante o período avaliado.
Em Rondônia, sete frigoríficos concluíram as auditorias, alcançando 74,2% do volume estadual. Tocantins teve cinco frigoríficos e cobertura de 60,3%. No Amazonas, seis frigoríficos concluíram o procedimento, mas a representatividade ficou em 41%. No Acre, apenas dois frigoríficos concluíram a auditoria, correspondendo a 33% do volume de gado comercializado.
A diferença entre 89,1% no Pará e 33% no Acre impede uma leitura única para toda a Amazônia Legal. Um índice nacional ou regional de inconformidade só seria comparável se os estados tivessem níveis semelhantes de participação, critérios idênticos de amostragem e publicação detalhada das operações avaliadas. O material divulgado pelo MPF não apresenta, até o trecho disponibilizado, um percentual consolidado para os seis estados.
O que o TAC da Carne tenta impedir
Os acordos que deram origem às auditorias começaram a ser firmados em 2009 entre o MPF e frigoríficos que atuam na Amazônia. A lógica é relativamente direta: empresas que compram bovinos precisam demonstrar que os animais não vêm de áreas associadas a irregularidades ambientais, fundiárias ou trabalhistas.
Na prática, o controle busca verificar a origem declarada do gado e confrontá-la com bases de dados e informações oficiais. O objetivo é evitar que a etapa final da cadeia, o abate ou a exportação, funcione como porta de entrada para animais criados em áreas embargadas, desmatadas ilegalmente ou ocupadas em conflito com unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas.
Essa verificação é especialmente relevante na Amazônia porque o gado pode passar por diferentes propriedades antes de chegar ao frigorífico. A chamada triangulação ou lavagem de gado ocorre quando animais criados em uma área irregular são transferidos para uma propriedade aparentemente regular antes da venda final. O material do MPF não informa, no trecho fornecido, quantos casos do terceiro ciclo foram relacionados especificamente a esse tipo de movimentação. Esse dado precisa ser confirmado na apresentação oficial e no relatório completo.
A automação promete mais velocidade, mas exige transparência
Uma das novidades anunciadas para este ciclo é a consolidação da automação completa das análises socioambientais. O material bruto, porém, é interrompido justamente no trecho que começaria a explicar como a tecnologia foi utilizada, quais bases foram integradas e quais procedimentos foram adotados para validar os resultados. Essas informações devem ser checadas na transmissão e no documento oficial: [CHECAR].
A automação pode ampliar a capacidade de cruzar dados sobre imóveis rurais, embargos, autorizações, cadastros ambientais e movimentação de animais. Também pode reduzir o tempo necessário para identificar padrões incompatíveis entre a origem informada e o histórico ambiental de uma propriedade.
Mas a tecnologia não elimina os problemas de qualidade dos dados. Cadastros desatualizados, mudanças de titularidade, limites imprecisos de imóveis, registros sobrepostos e ausência de informações em propriedades de trânsito podem produzir falsos negativos ou falsos positivos. Por isso, a divulgação dos critérios técnicos é tão importante quanto o percentual final de inconformidades.
Amazônia produtora, pressão ambiental e cobrança por rastreabilidade
Os seis estados avaliados concentram parcelas importantes da pecuária amazônica e têm trajetórias diferentes de ocupação, fiscalização e regularização fundiária. Mato Grosso e Pará movimentam grandes volumes de animais e possuem forte conexão com mercados nacionais e internacionais. Rondônia também tem papel relevante na produção regional, enquanto Acre, Amazonas e Tocantins apresentam estruturas e escalas distintas.
Essa diversidade torna difícil tratar a Amazônia como uma única cadeia produtiva. No Amazonas, por exemplo, a cobertura de 41% deixa uma parcela expressiva do mercado fora da auditoria concluída. No Acre, o percentual de 33% é ainda menor. O resultado não significa necessariamente que os frigoríficos desses estados tenham mais ou menos irregularidades, mas mostra que a capacidade de controle ainda é desigual.
A situação também interessa aos consumidores e aos compradores internacionais. A rastreabilidade deixou de ser apenas uma exigência ambiental e passou a influenciar contratos, acesso a mercados e reputação empresarial. Para o produtor regular, um sistema de verificação eficiente pode reduzir a competição com quem opera fora das regras. Para o frigorífico, a falha na origem pode gerar riscos jurídicos, comerciais e de imagem.
O histórico explica por que os resultados são acompanhados
O TAC da Carne surgiu em um contexto de cobrança para que frigoríficos deixassem de comprar animais de áreas embargadas ou ligadas a crimes ambientais e violações de direitos. Desde então, auditorias periódicas passaram a funcionar como uma forma de medir se os compromissos assumidos estão sendo cumpridos e se os mecanismos de controle conseguem acompanhar a complexidade da cadeia pecuária.
O terceiro ciclo tem uma particularidade: examina transações realizadas em dois anos completos, 2023 e 2024, e reúne resultados de vários estados em uma mesma metodologia. Isso permite observar diferenças regionais, mas também exige cautela. A conclusão de uma auditoria pode indicar a situação dos fornecedores examinados, sem representar automaticamente todo o rebanho ou todas as empresas de uma unidade federativa.
O relatório também deverá esclarecer quantos frigoríficos foram convocados em cada estado, quantos não concluíram o processo, quais foram as justificativas apresentadas e que providências serão adotadas nos casos de inconformidade. No material fornecido, essas informações aparecem apenas parcialmente. A ausência desses dados impede avaliar se o ciclo produziu sanções, planos de correção, exclusões de fornecedores ou novos compromissos de monitoramento.
Onde consultar os dados completos
O MPF informou que os resultados seriam apresentados em evento público na Famato, em Cuiabá, com transmissão pela internet. O documento disponibilizado pelo órgão reúne os resultados do terceiro ciclo unificado de auditorias dos termos de ajustamento de conduta relacionados ao programa Carne Legal. O leitor pode conferir os dados do relatório na íntegra.
Entre os pontos que merecem acompanhamento estão a abertura dos resultados por estado, a explicação sobre a amostragem paraense, a identificação dos tipos de irregularidade e o destino dado aos casos considerados incompatíveis com o TAC. Também será necessário observar se a automação anunciada ampliará a cobertura nos estados com menor participação, especialmente Acre e Amazonas.
O próximo passo é a análise pública dos dados apresentados pelo MPF e a eventual adoção de medidas pelos frigoríficos, produtores e órgãos de fiscalização; detalhes sobre prazos, sanções e planos de correção devem ser confirmados após a divulgação completa do terceiro ciclo. Com informações do Ministério Público Federal.
Respostas rápidas sobre a auditoria
Quais estados foram incluídos?
O terceiro ciclo analisou operações realizadas no Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. O material fornecido não explica por que outros estados da Amazônia Legal não aparecem nesta etapa: [CHECAR].
Qual foi o principal índice divulgado?
No Pará, a amostragem efetivamente auditada apresentou 8,17% de inconformidade socioambiental. Esse percentual não deve ser aplicado automaticamente aos demais estados nem interpretado como índice de toda a pecuária regional.
Onde estão os dados completos?
O relatório do MPF pode ser consultado no documento oficial do terceiro ciclo de auditorias do TAC da Carne, disponível no link indicado nesta matéria.
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