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Em 342 linhagens, girassol revela gene que aciona tolerância ao sal e pode ampliar o cultivo em áreas difíceis

Em 342 linhagens, girassol revela gene que aciona tolerância ao sal e pode ampliar o cultivo em áreas difíceis
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo identificou como dois genes ajudam a planta a germinar e manter o equilíbrio interno sob estresse salino.

Uma diferença invisível no DNA pode decidir se uma semente de girassol consegue ou não começar a vida em um solo carregado de sal. Foi esse ponto de partida que pesquisadores investigaram ao comparar 342 acessos de girassol para descobrir por que algumas plantas resistem melhor ao estresse salino durante a germinação.

O estudo, realizado por equipes da Hangzhou Normal University, South China Agricultural University, Xinjiang University e Xinjiang Academy of Agricultural Sciences, identificou um circuito formado pelos genes HaCBF4 e HaHAK11. Quando ativado, esse mecanismo ajuda a planta a conservar água, controlar danos celulares e manter respostas associadas à tolerância ao sal.

O trabalho foi publicado em 4 de março de 2026 na revista científica Horticulture Research. A divulgação da pesquisa ocorreu em 9 de setembro de 2026.

O primeiro desafio aparece antes de a planta nascer

A salinidade não afeta apenas plantas adultas. O excesso de sais no solo dificulta a absorção de água pelas sementes e interfere nos primeiros dias de desenvolvimento, justamente quando a raiz começa a se formar. Uma germinação lenta ou irregular pode comprometer toda a implantação da lavoura.

Embora o girassol seja considerado moderadamente tolerante ao sal, as variedades não respondem da mesma maneira. Algumas conseguem germinar e produzir raízes mesmo em condições adversas. Outras perdem vigor rapidamente, acumulam lesões e apresentam crescimento reduzido.

Para medir essas diferenças, os cientistas acompanharam 31 características de germinação e crescimento inicial. Entre elas estavam taxa de germinação, índice de germinação, energia germinativa, comprimento da raiz, teor de água, massa fresca e massa seca.

Mapa genético reduziu a lista de suspeitos

O grupo combinou os resultados visíveis nas plantas com sequenciamento completo do genoma e uma técnica chamada estudo de associação ampla do genoma, conhecida pela sigla GWAS. Em termos simples, o método procura relacionar pequenas diferenças no DNA com características observadas no campo ou no laboratório.

A análise encontrou 359 polimorfismos de nucleotídeo único, chamados SNPs, e 63 inserções ou deleções, conhecidas como InDels. Essas variações apontaram para 424 e 83 genes candidatos, respectivamente.

Entre tantos possíveis envolvidos, o HaCBF4 ganhou destaque porque estava associado à energia de germinação e apresentava forte resposta quando as plantas eram expostas ao sal. Segundo Horticulture Research, o gene HaCBF4 atua no núcleo celular e funciona como regulador positivo da tolerância ao estresse salino em girassol.

O que acontece quando o gene é desligado

Para testar se a associação genética correspondia a uma função real, os pesquisadores reduziram a atividade do HaCBF4 usando silenciamento gênico induzido por vírus. As plantas modificadas perderam água mais rapidamente, acumularam mais espécies reativas de oxigênio e apresentaram níveis maiores de malondialdeído, um indicador de dano celular.

Depois do tratamento com cloreto de sódio, essas plantas também sofreram lesões foliares mais intensas. O resultado reforçou a hipótese de que o HaCBF4 não era apenas um marcador estatístico, mas parte efetiva da resposta do girassol ao sal.

Em 342 linhagens, girassol revela gene que aciona tolerância ao sal e pode ampliar o cultivo em áreas difíceis
Foto: Horticulture Research

Segundo Horticulture Research, o estudo publicado em 4 de março de 2026 demonstrou que o HaCBF4 ativa o gene HaHAK11 ao se ligar a uma região específica do promotor desse gene.

O segundo gene ajuda a organizar a defesa

O HaHAK11 está relacionado ao transporte de potássio, elemento essencial para o equilíbrio de água e íons dentro das células. Em um ambiente salino, esse equilíbrio fica ameaçado porque o excesso de sódio pode atrapalhar processos fisiológicos importantes.

Os experimentos incluíram ensaios de ligação entre DNA e proteína, testes com leveduras e análises de atividade de um gene repórter. Em conjunto, os resultados indicaram que o HaCBF4 reconhece uma sequência reguladora chamada elemento responsivo à desidratação, ou DRE, presente no promotor do HaHAK11.

Quando o HaHAK11 também foi silenciado, as plantas apresentaram comportamento semelhante ao observado no bloqueio do HaCBF4. Além disso, diminuiu a ativação de genes ligados à proteção contra estresse, incluindo DREB2B, LEA18, P5CS2, LEA1-A, MADS27 e RAB18.

Por que a descoberta interessa a áreas agrícolas salinizadas

A principal contribuição do trabalho está em conectar três etapas que muitas pesquisas mantêm separadas: a característica observada na planta, a variação encontrada no genoma e o mecanismo que explica como essa variação funciona.

Esse caminho pode ajudar programas de melhoramento a selecionar plantas com maior chance de estabelecer mudas em solos salinos. A aplicação ainda depende de novas avaliações, especialmente em condições de campo, mas os genes identificados podem servir como marcadores para acompanhar características de tolerância em cruzamentos.

A pesquisa também levanta possibilidades futuras de seleção assistida por marcadores e edição genética. Antes disso, os cientistas precisam verificar se o HaHAK11 participa diretamente da exclusão de sódio, do equilíbrio de potássio ou do controle de espécies reativas de oxigênio em ambientes agrícolas reais.

O que isso representa para a Amazônia

Na Amazônia, o resultado não significa que o girassol esteja pronto para ser plantado em qualquer solo ou que a salinidade seja igual em todos os estados da região. A utilidade está no método e no problema que ele ajuda a enfrentar: identificar características genéticas capazes de melhorar o desempenho de culturas sob condições específicas de estresse.

Áreas costeiras do Pará, Amapá e Maranhão, além de zonas de produção sujeitas a variações de drenagem, água e qualidade do solo, exigem avaliação local antes da escolha de qualquer cultivar. Em Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Tocantins, a mesma lógica pode apoiar pesquisas sobre adaptação a outros desafios, como excesso de água, seca, calor ou baixa fertilidade.

O girassol também pode interessar à diversificação agrícola por produzir óleo e outros produtos, mas a adoção regional dependeria de testes de produtividade, ciclo, clima, manejo e interação com os solos de cada área. O estudo chinês oferece uma ferramenta de investigação, não uma recomendação agronômica imediata para a Amazônia.

O artigo completo pode ser consultado na revista Horticulture Research, com os dados sobre a relação entre HaCBF4, HaHAK11 e a resposta do girassol ao cloreto de sódio. As próximas etapas deverão avaliar o funcionamento desse circuito em condições de campo e seu potencial para programas de melhoramento.

Com informações de Horticulture Research.

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