Navio romano afundado há 2.200 anos no Adriático guardava o segredo da impermeabilização: piche de pinheiro e cera de abelha com pólen preso dentro

Navio romano afundado há 2.200 anos no Adriático guardava o segredo da impermeabilização: piche de pinheiro e cera de abelha com pólen preso dentro
Ilha de Ilovik, no norte do Adriático, Croácia. Foto: Groundtorpedo, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Desde que as pessoas começaram a navegar, os barcos precisam ser protegidos da água, do sal, de micróbios e de animais que perfuram a madeira, como o verme-do-navio. Mesmo assim, os materiais de vedação usados nos navios antigos foram pouco estudados. Uma pesquisa com um naufrágio romano de 2.200 anos, na costa da Croácia, ajuda a preencher essa lacuna.

O estudo, publicado na revista científica Frontiers in Materials, analisou o revestimento do navio Ilovik-Paržine 1, da época da República Romana, encontrado em 2016 perto da ilha de Ilovik, no norte do Adriático.

Duas receitas

Segundo a arqueometrista Armelle Charrié, do Laboratório de Espectrometria de Massas de Interações e Sistemas, em Estrasburgo, a equipe encontrou dois tipos de revestimento: um feito de piche, o alcatrão de pinheiro, e outro de uma mistura de piche com cera de abelha.

Foram analisadas dez amostras. Todas eram dominadas por resina ou alcatrão de coníferas aquecido. Uma delas, porém, tinha a mistura com cera, conhecida pelos construtores navais gregos como zopissa. A cera deixa o adesivo mais flexível e mais fácil de aplicar quente.

Pólen como pista

O piche é naturalmente pegajoso e, enquanto está mole, captura o pólen das plantas ao redor, preservando-o por séculos. Ao identificar os tipos de pólen presos no revestimento e medir sua abundância, os pesquisadores conseguiram estimar onde parte do piche foi produzida ou reaplicada durante reparos.

O pólen indicou ambientes variados, alguns típicos das costas e vales do Mediterrâneo e do Adriático. É a primeira vez que análises moleculares e de pólen são combinadas para identificar os revestimentos de um navio e reconstruir a vegetação da época em que foram feitos.

Tradições navais do Adriático

A pesquisa foi feita em parceria entre o Departamento de Arqueologia Subaquática do Instituto Croata de Conservação e o programa ADRIBOATS, do Centro Camille Jullian, da Universidade Aix-Marseille, na França. Segundo Charrié, algumas regiões do Adriático tinham características que levaram as populações locais a desenvolver estilos próprios de construção naval, e estudos assim mostram esse conhecimento.

Para a pesquisadora, os materiais de vedação são testemunhas verdadeiras das tecnologias navais do passado, essenciais tanto no mar quanto nos rios.

Uma técnica que atravessou séculos

O uso de piche de pinheiro para vedar cascos de madeira atravessou a Antiguidade, a Idade Média e a era das grandes navegações. Os navios portugueses que chegaram ao Brasil também eram calafetados com estopa e breu, o piche, técnica que ainda sobrevive em estaleiros artesanais de barcos de madeira em várias partes do país, inclusive na Amazônia.

Perguntas frequentes

Como os romanos impermeabilizavam navios?

Com piche de pinheiro e, em alguns casos, uma mistura de piche e cera de abelha aplicada quente.

Onde está o naufrágio Ilovik-Paržine 1?

No norte do mar Adriático, perto da ilha de Ilovik, na Croácia.

Com informações do Instituto Croata de Conservação, da Universidade Aix-Marseille e do estudo publicado na Frontiers in Materials.

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