
Nos peixes-agulha da família Belonidae, as duas mandíbulas formam um bico longo e cheio de dentes. A mandíbula inferior muito mais longa que a superior é traço de outro grupo, o das agulhinhas, e dos peixes-agulha ainda jovens.
Peixe-agulha é o nome popular dos membros da família Belonidae, peixes de corpo fino e comprido que nadam junto à superfície da água. De acordo com o FishBase, banco de dados internacional sobre peixes, o traço que define a família é que as mandíbulas superior e inferior se prolongam em um bico comprido, guarnecido de dentes afiados. A exceção é o gênero Belonion, de águas doces, que mantém características de juvenil quando adulto. O guia de identificação de espécies da FAO descreve a família como carnívora, alimentando-se sobretudo de peixes pequenos.
Duas mandíbulas alongadas, não só a inferior
A ideia de que o peixe-agulha teria a mandíbula inferior muito mais longa do que a superior mistura dois grupos aparentados. Os peixes-agulha propriamente ditos (Belonidae) têm as duas mandíbulas prolongadas. Quem tem a mandíbula inferior bem mais comprida que a superior são as agulhinhas, da família Hemiramphidae. Segundo a revisão da família feita por Bruce Collette para a Academia de Ciências da Califórnia, nelas a mandíbula superior é móvel e a inferior, não, e a ponta da inferior costuma ser vermelha ou alaranjada. As agulhinhas marinhas são onívoras e comem algas, capins marinhos, plâncton, invertebrados e peixes menores.
Há ainda um detalhe que pode gerar confusão. Em Collette e Parin (Encyclopedia of Fishes, 1998), os jovens da maioria dos peixes-agulha têm forma de meio-bico, com a mandíbula inferior mais longa, e a superior só atinge o comprimento total no adulto. Entre as espécies amazônicas, Goulding e Carvalho (1983) registram que, em Belonion, só a mandíbula inferior é bastante alongada e os adultos têm a superior pequena, o que os faz lembrar agulhinhas.
Como o bico captura a presa
Segundo a FAO, o peixe-agulha captura as presas de lado, com o bico, e depois as vira para engoli-las pela cabeça. Na ficha do peixe-agulha-do-atlântico (Strongylura marina), espécie da costa do Atlântico ocidental que ocorre do Maine ao Brasil, a enciclopédia EBSCO Research Starters descreve um carnívoro de superfície, que come peixes e crustáceos, fisga a presa com as mandíbulas pontudas e a engole inteira, sem mastigar. Essa espécie tem dorso de escamas azuladas, ventre esbranquiçado e é frequentemente vista em cardumes junto à superfície.
O corpo longo e fino também é um recurso de caça. Em águas amazônicas, Goulding e Carvalho observaram que o peixe-agulha do gênero Potamorrhaphis ficava imóvel perto da superfície, junto à margem, e curvava o corpo como um arco antes de atacar. Os autores atribuem a essa curvatura o golpe de alta velocidade e não registraram perseguição ativa da presa.
Ataques em salto
Os peixes-agulha também caçam saltando. Em estudo publicado em 2016 no Journal of Fish Biology, Ryan Day e colegas observaram peixes-agulha atacando cardumes de pequenos peixes na Ilha Heron, na Austrália. Parte deles nadava para dentro do cardume e atacava, e parte saltava para fora da água e voltava a mergulhar no meio das presas. Os ataques em salto responderam por cerca de metade dos registrados. Os autores sugerem que o salto amplia o alcance do ataque, reduz a chance de fuga das presas e pode aproveitar a janela de Snell, efeito ótico da superfície que pode mascarar a aproximação do predador para quem está embaixo.
Peixes-agulha da Amazônia
No Brasil, os peixes-agulha de água doce foram estudados por Michael Goulding e Mirian Leal Carvalho, do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, em artigo de 1983 na Revista Brasileira de Zoologia. Eles examinaram 151 exemplares dos rios Negro e Tefé, no Amazonas, de quatro espécies: Belonion apodion, Potamorrhaphis guianensis, Potamorrhaphis petersi e Pseudotylosurus microps.
A dieta variou muito. Em P. guianensis, quase todos os estômagos com alimento continham apenas insetos, e 48 de 60 eram formigas, em sua maioria aladas. P. petersi comeu insetos e também peixes pequenos, como um filhote de Crenicichla e um Apistogramma. Em P. microps, os cinco exemplares com alimento haviam comido peixes, todos com a cabeça arrancada, e as presas tinham de 11% a 24% do comprimento do predador. B. apodion, o menor deles, com no máximo cerca de 5 centímetros, alimentou-se de zooplâncton e larvas de insetos.
Os autores também notaram que esses peixes pareciam se alimentar de dia e descansar à noite alinhados a raízes ou vegetação submersas, e que a maior parte dos exemplares foi coletada na vazante, o que sugere que na cheia se desloquem para a mata alagada. Concluíram que o corpo em forma de flecha de Potamorrhaphis e Pseudotylosurus é provavelmente uma adaptação ao golpe rápido e que a tendência na linhagem foi de passar de peixes para insetos e zooplâncton.
Reprodução
Em Strongylura marina, segundo a EBSCO Research Starters, a desova ocorre no fim da primavera ou no início do verão, e os ovos têm filamentos aderentes que os prendem a algas e outros materiais à deriva. A eclosão leva cerca de cinco semanas.
O peixe-agulha mostra que um traço anatômico atribuído a uma espécie pode, na verdade, pertencer a outro grupo. O bico formado pelas duas mandíbulas e a captura lateral da presa descrevem os Belonidae, e a mandíbula inferior mais comprida identifica as agulhinhas e os jovens dos próprios peixes-agulha. Distinguir os dois é o primeiro passo para entender como cada um se alimenta.
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