Peixe de cabeça transparente que gira os olhos para enxergar através do próprio crânio é filmado a 600 metros de profundidade

Peixe de cabeça transparente que gira os olhos para enxergar através do próprio crânio é filmado a 600 metros de profundidade
Peixe-olho-de-barril da família Opisthoproctidae coletado em pesquisa no mar profundo. Foto: autor desconhecido, via Wikimedia Commons, domínio público.

Na penumbra do oceano, a centenas de metros de profundidade, vive um peixe que parece ter saído de um filme de ficção científica. Sua cabeça é coberta por uma cúpula transparente, cheia de líquido, e dentro dela há dois olhos verdes em forma de tubo. O peixe-olho-de-barril (Macropinna microstoma) foi filmado em alta resolução durante uma expedição ao largo da Califórnia, nos Estados Unidos. É apenas a 11ª vez que os cientistas do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, o MBARI, encontram a espécie em décadas de mergulhos.

Um encontro na volta para casa

O avistamento aconteceu numa expedição de oito dias para estudar animais gelatinosos, como águas-vivas, sifonóforos e ctenóforos. A equipe combinava mergulho em águas abertas perto da superfície com o uso de um robô submarino controlado a distância, o ROV Doc Ricketts, capaz de descer centenas de metros.

O trabalho do dia já tinha terminado, e os pilotos estavam trazendo o robô de volta para o navio de pesquisa quando a especialista Shannon Johnson viu o peixe e pediu que parassem. Ele estava a cerca de 600 metros de profundidade, a uns 90 quilômetros da costa. Parte da equipe, que já estava no laboratório preparando as amostras, correu de volta para a sala de controle, junto com tripulantes do navio.

Para o pesquisador sênior Steven Haddock, ver um peixe-olho-de-barril é um presente raro. Ele conta que a tripulação ficou hipnotizada e que animais do fundo do mar despertam encanto e admiração capazes de inspirar o cuidado com o maior espaço habitável da Terra.

Olhos que olham para cima e giram

O peixe vive na chamada zona crepuscular do oceano, entre cerca de 200 e mil metros de profundidade, onde a luz do Sol chega muito fraca. Durante anos, cientistas acharam que seus olhos tubulares só conseguiam olhar para cima, procurando a silhueta de presas contra a pouca claridade que vem da superfície.

Observações feitas pelo próprio MBARI, lideradas pelo pesquisador Bruce Robison, mostraram algo mais surpreendente. Os olhos conseguem girar dentro da cabeça transparente. Quando o peixe localiza uma presa acima dele, ele gira os olhos para a frente e acompanha o alimento enquanto sobe para pegá-lo. A cúpula transparente funciona como um escudo, permitindo enxergar através do próprio crânio.

Os dois pontos escuros que aparecem logo acima da boca, e que parecem olhos, na verdade são as narinas, órgãos de olfato.

Um ladrão de comida?

O peixe usa nadadeiras grandes para ficar quase parado na água, pairando como um helicóptero. Uma hipótese levantada pelos pesquisadores é que ele roube presas presas nos tentáculos de sifonóforos, animais coloniais parentes das águas-vivas que funcionam como redes de pesca vivas. A cúpula transparente protegeria os olhos das células urticantes desses animais.

A vida na zona crepuscular

A faixa do oceano onde vive o peixe-olho-de-barril abriga uma quantidade enorme de animais que sobem para perto da superfície à noite para comer e descem de volta durante o dia, num dos maiores movimentos de migração do planeta. Muitos desses animais produzem luz própria, a bioluminescência, para se comunicar, atrair presas ou se esconder. Nesse mundo de pouca luz, olhos muito sensíveis, como os tubulares do peixe-olho-de-barril, fazem toda a diferença para encontrar comida.

Por que é tão raro

O peixe-olho-de-barril é pequeno, com cerca de 15 centímetros, vive em águas profundas e escuras e é muito frágil. Exemplares capturados por redes costumam chegar à superfície danificados, e por muito tempo a cúpula transparente nem era conhecida, porque se rompia na coleta. Só com robôs submarinos e câmeras de alta definição foi possível ver o animal intacto e vivo.

O oceano profundo ainda é desconhecido

O fundo do mar continua sendo um dos ambientes menos explorados do planeta. Estima-se que a maior parte das espécies que vivem nas profundezas ainda não tenha sido descrita. Na costa brasileira, expedições em montes submarinos e na margem equatorial, perto da foz do Amazonas, também têm revelado peixes, corais e invertebrados desconhecidos. Cada mergulho de um robô submarino pode trazer imagens de animais que pouca gente no mundo já viu.

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