
Na penumbra do oceano, a centenas de metros de profundidade, vive um peixe que parece ter saído de um filme de ficção científica. Sua cabeça é coberta por uma cúpula transparente, cheia de líquido, e dentro dela há dois olhos verdes em forma de tubo. O peixe-olho-de-barril (Macropinna microstoma) foi filmado em alta resolução durante uma expedição ao largo da Califórnia, nos Estados Unidos. É apenas a 11ª vez que os cientistas do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, o MBARI, encontram a espécie em décadas de mergulhos.
Um encontro na volta para casa
O avistamento aconteceu numa expedição de oito dias para estudar animais gelatinosos, como águas-vivas, sifonóforos e ctenóforos. A equipe combinava mergulho em águas abertas perto da superfície com o uso de um robô submarino controlado a distância, o ROV Doc Ricketts, capaz de descer centenas de metros.
O trabalho do dia já tinha terminado, e os pilotos estavam trazendo o robô de volta para o navio de pesquisa quando a especialista Shannon Johnson viu o peixe e pediu que parassem. Ele estava a cerca de 600 metros de profundidade, a uns 90 quilômetros da costa. Parte da equipe, que já estava no laboratório preparando as amostras, correu de volta para a sala de controle, junto com tripulantes do navio.
Para o pesquisador sênior Steven Haddock, ver um peixe-olho-de-barril é um presente raro. Ele conta que a tripulação ficou hipnotizada e que animais do fundo do mar despertam encanto e admiração capazes de inspirar o cuidado com o maior espaço habitável da Terra.
Olhos que olham para cima e giram
O peixe vive na chamada zona crepuscular do oceano, entre cerca de 200 e mil metros de profundidade, onde a luz do Sol chega muito fraca. Durante anos, cientistas acharam que seus olhos tubulares só conseguiam olhar para cima, procurando a silhueta de presas contra a pouca claridade que vem da superfície.
Observações feitas pelo próprio MBARI, lideradas pelo pesquisador Bruce Robison, mostraram algo mais surpreendente. Os olhos conseguem girar dentro da cabeça transparente. Quando o peixe localiza uma presa acima dele, ele gira os olhos para a frente e acompanha o alimento enquanto sobe para pegá-lo. A cúpula transparente funciona como um escudo, permitindo enxergar através do próprio crânio.
Os dois pontos escuros que aparecem logo acima da boca, e que parecem olhos, na verdade são as narinas, órgãos de olfato.
Um ladrão de comida?
O peixe usa nadadeiras grandes para ficar quase parado na água, pairando como um helicóptero. Uma hipótese levantada pelos pesquisadores é que ele roube presas presas nos tentáculos de sifonóforos, animais coloniais parentes das águas-vivas que funcionam como redes de pesca vivas. A cúpula transparente protegeria os olhos das células urticantes desses animais.
A vida na zona crepuscular
A faixa do oceano onde vive o peixe-olho-de-barril abriga uma quantidade enorme de animais que sobem para perto da superfície à noite para comer e descem de volta durante o dia, num dos maiores movimentos de migração do planeta. Muitos desses animais produzem luz própria, a bioluminescência, para se comunicar, atrair presas ou se esconder. Nesse mundo de pouca luz, olhos muito sensíveis, como os tubulares do peixe-olho-de-barril, fazem toda a diferença para encontrar comida.
Por que é tão raro
O peixe-olho-de-barril é pequeno, com cerca de 15 centímetros, vive em águas profundas e escuras e é muito frágil. Exemplares capturados por redes costumam chegar à superfície danificados, e por muito tempo a cúpula transparente nem era conhecida, porque se rompia na coleta. Só com robôs submarinos e câmeras de alta definição foi possível ver o animal intacto e vivo.
O oceano profundo ainda é desconhecido
O fundo do mar continua sendo um dos ambientes menos explorados do planeta. Estima-se que a maior parte das espécies que vivem nas profundezas ainda não tenha sido descrita. Na costa brasileira, expedições em montes submarinos e na margem equatorial, perto da foz do Amazonas, também têm revelado peixes, corais e invertebrados desconhecidos. Cada mergulho de um robô submarino pode trazer imagens de animais que pouca gente no mundo já viu.
Segundo maior peixe do mundo tem forma de engolir comida observada em laboratório pela primeira vez
Pescador levou choque nas pernas enquanto pescava traíra e acabou tirando da água um poraquê de dois metros, o maior já registrado no Brasil
Pescadores de Porto Seguro recebem R$ 10 por peixe-leão capturado e já tiraram 440 invasores do mar da BahiaGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














